COLUNA

Luan Vidal

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Luan Vidal é estudante de jornalismo da UFRN com enfoque em moda e cultura pop

A noite que Kim Petras roubou o Halloween

De “There Will Be Blood” a “Party Till I Die”, a mixtape que fez de Kim Petras a voz do Halloween merece ser ouvida além de outubro.

Como se reivindica uma data? Sabemos que Mariah Carey é a rainha do Natal lá nos EUA, que Katy Perry volta ao topo das paradas no 4 de julho com seu sucesso “Firework” e que, a cada 4 anos, Shakira com certeza volta a tocar em todos os lugares durante as Copas do Mundo. Mas, quando se trata do Halloween, apesar de já existirem alguns sucessos com a temática assustadora, como “Thriller”, de Michael Jackson, ou “Bloody Mary”, de Lady Gaga, existe uma rainha do Dia das Bruxas que pode não ter sido coroada pela grande mídia, mas que, dentro da comunidade, segura esse título com muito orgulho. Em 1º de outubro de 2018, a cantora alemã Kim Petras lançava o primeiro volume da sua mixtape temática de Halloween, “Turn Off The Light”, e já marcava uma geração, a começar pela lendária capa da mãozinha saindo da cova.

Em primeira instância, o projeto veio como uma mudança na imagem de Kim, que aparecia com um visual hiperfeminino na estética do bubblegum pop, bem patricinha. Pela primeira vez, no primeiro volume de “Turn Off The Light”, Kim Petras surgia com a imagem distorcida, manchada de sangue, com olhos brancos e uma estrutura óssea que poderia ter saído diretamente de “Coraline”. Em termos de sonoridade, o projeto é um álbum nonstop, ou seja, todas as faixas se conectam umas às outras e funcionam quase como se você estivesse ouvindo um filme de terror; bom, provavelmente o filme de terror mais cunt que você já viu.

O disco tem uma sonoridade baseada no electropop já característico de Petras, mas aqui com uma pegada muito mais sombria. Usando sintetizadores e, ocasionalmente, aquelas batidas de trap tão características do final da década de 2010, ela constrói um universo único, que se expandiu em 2019 com o lançamento do Vol. 2.

O projeto completo abre com “Purgatory”, uma espécie de prelúdio instrumental que se conecta à primeira faixa “oficial”.

“There Will Be Blood” é uma abertura arrebatadora, que começa com Kim gritando o título no ouvido do ouvinte, como se estivesse pedindo socorro ou avisando do perigo. O nome faz referência direta ao filme “Sangue Negro” (2007), em inglês There Will Be Blood, algo que se repete na próxima faixa, “Bloody Valentine”, referência ao filme “Dia dos Namorados Macabro”.

Outra interlude, ela dá sequência a uma das melhores e mais cinematográficas faixas do projeto: “Wrong Turn” soa exatamente como uma cena de perseguição de carro, começando até com o barulho de chaves, enquanto Kim avisa na letra: “Você tomou o caminho errado, na hora errada”.

Seguimos para “<demons>“, mais uma interlude, que vem com seu acompanhamento, a tenebrosa “Massacre”, uma das faixas mais assustadoras de todo o disco. A canção parece interpolar “This Is Halloween” e, por incrível que pareça, a versão de Kim é muito mais assustadora.

A música é um respiro na sonoridade do projeto, por ser mais lenta; entretanto, após a interlude “Knives”, em que sons de facas se misturam aos sintetizadores, chegamos a “Death By Sex”, um trap pop em que Kim praticamente incorpora uma súcubo e coloca a animação de volta nos trilhos. Essa faixa encerra o Vol. 2 de “Turn Off The Light”, ou seja, as faixas adicionadas em 2019, sendo “o m e n” o prelúdio oficial da primeira parte.

Então chegamos à metade do disco, e a faixa que dá o pontapé é a irmã mais velha não oficial de “There Will Be Blood”: ambas têm o mesmo nível de drama e gritos, e possivelmente você já se deparou com algum edit temático de Halloween dessa música pelo Twitter, uma verdadeira synthpop perfection.

A essa altura da festa de Halloween, os anjinhos e os diabinhos já estão no sofá se beijando, o vampiro está vomitando no banheiro e a múmia está dançando na pista, e que bom, porque é quando o álbum atinge seu apogeu: a faixa-título traz nada mais, nada menos do que um monólogo falado por Elvira, a Rainha das Trevas, uma das figuras mais emblemáticas do Dia das Bruxas, e uma letra inspiradora sobre encontrar a si mesmo na escuridão da noite.

Aqui fica explícito como o segundo volume era necessário, trazendo praticamente todas as seções mais dançantes do “TOTL”. Seguindo para “Tell Me It’s a Nightmare” e “Everybody Dies”, vemos músicas que já caminham mais perto do clímax ou dos créditos do filme: são mais lentas e ponderadas do que as outras faixas, e, apesar de “In The Next Life”, que fica entre as duas, ser um pouco mais upbeat, a seção final é dramática. Isso, até chegarmos à última faixa, que levantaria até os mortos (literalmente): “Party Till I Die” também traz a sonoridade do trap pop e um flow implacável de Kim Petras, tão impecável que a música poderia facilmente ser cantada por Tinashe sem que ninguém estranhasse.

E, com essa mensagem de festejar até morrer, Kim encerra o projeto, um dos mais ambiciosos criativamente dos últimos tempos, que transita com facilidade pelos temas de terror sem ficar caricato. Apesar de soar diferente em outubro, essa coletânea pode e deve ser ouvida o ano inteiro, sem ficar inteiramente conectada ao feriado, e é isso que diferencia Kim de outras artistas com canções temáticas: ela não precisa se prender a nenhuma data para fazer o disco soar como um clássico. Afinal, não é apenas no Halloween que assistimos a filmes de terror.

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Luan Vidal

[ele/dele]

Luan Vidal é estudante de jornalismo da UFRN com enfoque em moda e cultura pop, já entrevistou artistas de diferentes áreas e mantém sua frente de atuação em produção de conteúdo digital sobre estilo, tendências e análises sobre os trabalhos de artistas desses espectros. Conectado a narrativas que ampliam o conceito de de música pop e moda, busca dar visibilidade a novos talentos e discutir os rumos da indústria criativa a partir de um olhar crítico com o que acontece no Brasil e no mundo.
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