COLUNA

João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em

Conversa com Miguel Salazar, ativista LGBT português

Em agosto conversei por quase cinquenta minutos com Miguel Salazar, ativista LGBT português de 27 anos.

Nascido no litoral do norte de Portugal, ele vive hoje em Lisboa, onde se tornou uma das vozes mais ativas na defesa dos direitos da comunidade LGBTQIAP+, especialmente contra a tentativa de revogação da lei que criminaliza as terapias de conversão e da lei de autodeterminação de gênero.

Na nossa entrevista percorremos temas que vão da infância conservadora e evangélica de Miguel à sua entrada na política aos 16 anos, passando pela importância dos espaços noturnos LGBTQIAP+, o papel das amizades como família escolhida e a crítica à comunicação da esquerda. 

Ele também me falou sobre a mobilização contra a ofensiva conservadora em Portugal, que tenta proibir bandeiras LGBTQIAP+ em edifícios públicos e impedir cirurgias de afirmação de gênero no serviço público de saúde. 

Contou-me que tem buscado apoio internacional, inclusive de parlamentares brasileiras como Erika Hilton, para pressionar o Parlamento português.

Ao longo da conversa, Miguel defendeu que a mudança social não acontece apenas nas redes sociais, mas exige organização coletiva, ida às ruas e envolvimento direto com causas. 

Citou como exemplo a luta vitoriosa contra as touradas em sua cidade natal, que durou três anos e só foi possível com manifestações presenciais. “As coisas mudam quando as pessoas vão para a rua e quando saem de casa”, afirmou.

Miguel também falou sobre a linguagem institucional de parte da esquerda e elogiou o estilo acessível de Erika Hilton, que, segundo ele, “fala com uma linguagem popular que as pessoas entendem”. 

Para ele, falta na política gente que saiba o que é a vida dura, que já trabalhou no supermercado e ganhou salário mínimo, não apenas advogados e engenheiros que “falam das nossas vidas sem nunca as ter vivido”.

Abaixo a entrevista completa, com minhas perguntas e as respostas de Miguel Salazar, editada para clareza.

João Pedro: Você vive em Lisboa, mas nasceu no interior do norte. O que ainda te prende ao lugar de onde veio?

Miguel Salazar: Nasci em Póvoa de Varzim, distrito do Porto. Lá tenho o mar, meus amigos de infância, da faculdade e do trabalho. Aqui em Lisboa tenho um núcleo menor. Ainda me prendo muito porque tenho minha avó lá, e volto quase todo fim de semana. Também sinto falta da comida e das ruas onde cresci. […]

João Pedro: Seu trabalho é tradutor e intérprete. Já evitou algum trabalho por razões políticas?

Miguel Salazar: Nunca neguei trabalho por razões políticas porque nunca me apareceu um assim. O último emprego era numa empresa de inteligência artificial cujo objetivo era substituir tradutores — eu sou tradutor. Não me sentia bem, era contra meus valores. Saí e voltei para Portugal. […]

João Pedro: Quando seu posicionamento político começou a florescer?

Miguel Salazar: Aos 16 anos, quando comecei a me assumir. Minha família era conservadora e evangélica. Vi que o que eu sofria não era individual, era estrutural. Na época debatia-se a adoção por casais homossexuais e havia um cartaz do Bloco de Esquerda: “Jesus também tinha dois pais”. Achei incrível. Pesquisei, escrevi um texto e mandei para a deputada Mariana Mortágua. Comecei a acompanhar o Parlamento pelo YouTube. Foi um trabalho autodidata, porque em casa e na escola ninguém falava de política. Depois aderi a um partido. […]

João Pedro: Quais debates políticos mais te irritam em Portugal hoje?

Miguel Salazar: A imigração. A direita aborda o tema de forma racista, usando os imigrantes como bode expiatório para todos os problemas. A União Europeia também tem posições preocupantes, como campos para imigrantes. Também me irrita a ofensiva contra a comunidade LGBT. O PSD, que antes era conservador mas não revogava direitos, agora adota a narrativa da extrema direita. Repetem discursos sem conhecimento de causa, ignoram o consenso científico, para justificar a incompetência na governação: saúde, habitação, salários. É tudo mau, e eles culpam imigrantes e pessoas LGBT. […]

João Pedro: Como foi a recepção da petição contra a revogação da lei que criminaliza as terapias de conversão?

Miguel Salazar: A petição surgiu em reação a outra que pedia a descriminalização dessas práticas. Isso vem depois de a maioria de direita aprovar, em março, a revogação da Lei 38/2018, de autodeterminação de gênero. Essa lei permitia mudar nome e gênero no registo civil sem relatório médico, baixava a idade para 16 anos com autorização parental, proibia cirurgias forçadas em bebês intersexo e garantia nome social nas escolas. A direita quer reverter tudo. Eu estava à porta do Parlamento no dia da votação. Avisei que tentariam reverter a lei das práticas de conversão. Menos de uma semana depois, entrou a petição. A Maria João Vaz escreveu e convidou-me para alinhar. Já era figura pública desde 2021 por causa das práticas de conversão, que foram criminalizadas em 2024. Desde março tenho recebido imenso apoio. Já passamos as fases formais; falta o debate no Parlamento. Estamos a organizar pressão sobre o PSD, que também quer proibir bandeiras LGBT em edifícios públicos e cirurgias trans no SNS. Estou a contactar deputados europeus, jornalistas e parlamentares brasileiras. Em setembro esperamos uma resposta massiva. Tenho esperança de que as leis não sejam revogadas. […]

João Pedro: No seu Instagram há um destaque sobre amizade. Como foi perceber as amizades como família escolhida?

Miguel Salazar: Antes de me assumir, as amizades já eram prioridade, porque eu não contava tudo aos meus pais. Depois de me assumir, tornaram-se ainda mais importantes: eram as únicas pessoas com quem eu podia ser eu sem julgamento. Sempre fiz amizades com facilidade. Tenho amigos da infância, escola, faculdade, trabalho, política, noite, de quando vivi fora. Considero muitos como família. […]

João Pedro: Qual o papel da vida noturna para você?

Miguel Salazar: Comecei a sair à noite aos 21, quando saí de casa. Os espaços LGBT são os únicos onde me sinto completamente à vontade, sem olhares desconfortáveis, com música que ouço desde jovem. É onde encontro amigos, afetos e relações sexuais ou românticas com segurança. Dentro da comunidade há necessidades diferentes — lésbicas, pessoas trans —, mas para mim é um espaço seguro e acolhedor. […]

João Pedro: Você sente que a esquerda portuguesa tem dificuldade de comunicar com o público jovem?

Miguel Salazar: Não é só da esquerda, mas parte dela usa uma linguagem muito institucional, contaminada. A extrema direita simplifica assuntos complexos para vingar sua narrativa. Eu, quando fui deputado na minha cidade e na Juventude Socialista, sempre usei linguagem acessível. As pessoas identificam-se. Gostava que a esquerda tivesse um discurso como o da Erika Hilton: popular, claro, de quem sentiu na pele. Falta na política gente que saiba o que é a vida dura, que trabalhou no supermercado, e não apenas advogados e engenheiros que falam das nossas vidas sem as ter vivido. […]

João Pedro: Aos 27, o que sabe hoje que não sabia aos 20? O que dizer aos progressistas num momento tão sombrio?

Miguel Salazar: Muita coisa mudou. Hoje valorizo mais as redes sociais, mas elas sozinhas não mudam nada. É preciso mobilização real: sindicatos, partidos, associações, manifestações, grupos de trabalho. Na minha cidade, lutamos três anos contra as touradas e conseguimos acabar com elas numa das maiores praças do país. Foi com manifestações presenciais. Depois da pandemia, as pessoas desmobilizaram-se e ficaram nas redes. Mas as coisas mudam quando saímos de casa. A tecnologia e a IA tornam tudo confortável, mas é preciso reagir, mostrar que existimos, indignar-nos. […]

COLUNISTA

DSCF1782-Edit (1) (2)

João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

João Pedro Fontes, nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter com foco em cultura e identidade.
Veja também

Tornando-se Symbiopunk: 101

Ninguém fode de graça: estamos mesmo fingindo que tesão não é político? 

Crianças trans existem e merecem ser felizes

A esperança que chega às urnas

Assista

No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.

As ações do Instituto incluem apresentar ferramentas, conteúdos educacionais, e soluções estratégicas visando o exercício do olhar interseccional para grupos sub-representados. Nossas atividades tiveram início em 2009, a partir de uma série de webdocumentários educacionais que exploram temas da sexualidade e gênero para promover mudanças sociais com base nos direitos humanos.

Nosso Contato

Newsletter [SSEX BBOX]

Copyright ©2026 Todos os direitos reservados | [SSEX BBOX]