COLUNA

Moon Kenzo

[ela/dela]

Travartista sobralense. Música, Literatura e comunicação.

Direito adquirido não é herança: o delírio de quem aposta contra a própria classe 

Existe uma dinâmica poderosa entre o passado que esquecemos, o presente que iludidamente vivemos e o futuro que tentamos construir.

Estes dias, recebi um comentário transfóbico quando comentei em algum lugar que, se Deus existisse, jamais permitiria que Ciro Gomes se elegesse governador do Ceará, historicamente o estado que hita quando o assunto é transfeminicídio com requintes de crueldade. A pessoa que comentou disse que orava a Deus todos os dias para que, segundo ela, “essa raça amaldiçoada fosse aniquilada da terra”, e eu ri. Seus seguidores, pelo jeito, têm o mesmo discurso violento que seu líder; ele já avisou que vai libertar os policiais do estado, retirando as câmeras dos seus uniformes e deixando as elucidações mais frouxas sobre suas ações e o que me assusta é que talvez ele consiga. E, honestamente, depois que a gente vê figuras da própria cena LGBTQIA+, de artistas a militantes de ocasião, fazendo campanha de distrito em distrito para eleger político reacionário por meia dúzia de trocados, e ainda achando ruim quando são questionadas, acho que pouca coisa me choca hoje em dia. Em Sobral se morre de tudo, menos de tédio. 

Em 2021, eu estava me entendendo, lendo e estudando para ser travesti, no sentido de que, para o mundo hostil, a gente precisa aprender a nomear a própria dor para não ser aniquilada por ela, e como não havia pessoas trans no meu convívio que pudessem me elucidar sobre o tema, fiz cursos, li livros, assisti a vídeos no YouTube, tudo pra entender o que era ser o que eu sentia que eu era. Eu lembro que o medo era tema recorrente nas minhas conversas com minhas amigas mais próximas, muito pelas notícias e coisas que chegavam até mim no meio de uma pandemia e do meu processo de transição. Teve três episódios que me rasgaram por dentro de uma forma avassaladora: o primeiro aconteceu em janeiro, quando Keron Ravach, uma criança trans de 13 anos, foi assassinada a pauladas, chutes e socos por um adolescente de 17 anos por cobrar uma dívida na cidade de Camocim/CE, umas 2 horas de onde eu vivo. Em julho do mesmo ano, Roberta Nascimento, uma travesti de 32 anos em situação de rua, foi queimada viva no Cais de Santa Rita, no centro do Recife; ela teve 40% do corpo queimado, precisou amputar os dois braços por causa de infecções e morreu alguns dias depois no hospital. Em novembro do mesmo ano, Larraya, uma traviarca de 53 anos, foi perseguida e morta em Sobral/CE, cidade onde vivo; o suspeito foi preso em flagrante e, mesmo com câmeras de segurança comprovando a agressão e o assassinato, segue em liberdade. Por muito tempo, achei que ser travesti era irrevogavelmente e constantemente um

movimento intrínseco em direção a morrer violentamente, no país que mais mata pessoas trans e no estado que mais mata pessoas trans, mesmo que, em ambos os casos, a subnotificação chame bastante atenção. Me tornar a mulher que sou hoje me abriu as percepções de como eu queria viver minha travestilidade: se iria viver com medo de ser morta até os 36 voltando pra casa a pé de qualquer lugar, ou se eu ia de fato ser livre, usufruindo plenamente e contundentemente da liberdade que conquistei quando coloquei meu batom e meu primeiro vestido. E, honestamente, filhas, até hoje eu preciso lutar bastante pra que esses demônios não tomem conta da minha visão sobre existir; terapia nelas. 

Corta pra 2026, e eu sou obrigada a ver e ouvir gays de classe média e travestis de péssima índole se autointitulando “de direita” e dizendo que são perseguidos por isso, nesse último caso, nunca ouviram falar da Operação Tarântola pelo jeito. Não consigo parar de pensar no quanto isso revela sobre como construímos as relações sociais e de poder dentro da nossa comunidade. Uma travesti de direita realmente, genuinamente acredita que sobreviverá em um mundo onde os ideais fascistas sejam estabelecidos? Um gay branco acha mesmo que está acima dos demais por não ser afeminado, por performar uma masculinidade que lhe falta e por achar que não vai levar uma lampadada na Paulista porque se “mistura” com as outras pessoas? De fato, sejam quais forem as motivações de ambos, seja desvio de caráter ou ambição porque acham que isso os trará dinheiro ou algum status, não acredito que obterão sucesso. A extrema direita só os permite um lugar dentro de seu espectro: bobos da corte, massa de manobra e/ou entretenimento de baixíssima qualidade. Quando não forem mais necessários, serão esquecidos, ostracizados ou apagados. 

Existe até mesmo dentro da nossa comunidade, no geral, pessoas que acham que realmente são superiores a outras. Como não haveria, se as bases das nossas sociedades são assim? Como não reproduziríamos esses mesmos comportamentos, sendo que as raízes racistas, elitistas e higienistas estão fincadas no nosso suprassumo social? Dinheiro é acesso, dinheiro é passabilidade. A Parada pode ser nosso cartão de visita ou uma grande celebração, mas ela não se sustenta sem patrocínios, o que talvez seja um reflexo da lógica de mercado dentro da nossa comunidade. O que faz uma pessoa LGBTQIAP+ achar que está acima dos demais do mesmo grupo? 

Todos sabem, ou deveriam saber, principalmente se você é uma minoria, que se você tem seus direitos hoje, não significa que você os terá amanhã. Eu genuinamente acho que falhamos em muitos aspectos quando se trata da construção da relação entre indivíduo LGBTQIAP+ e comunidade, sobretudo no que tange aos aspectos econômicos e raciais de nossas lideranças. Infelizmente, trabalho de base é raridade nas pautas prioritárias, seja quando lidamos com jovens cooptados pelo extremismo religioso das igrejas, seja com a molecada empurrada à margem que se entope de hormônio sem acompanhamento por achar que ser feminina é a única métrica de sobrevivência. 

O problema é que essa autofagia se ramifica por todos os lados: das traviarcas puristas que só validam corpos moldados a silicone e petróleo até as trincheiras separatistas de lésbicas transfóbicas, radfems e radgays. Eu sei que nossa comunidade é maior do que isso e já salvou milhares de vidas pela pura sensação de pertencimento, mas precisamos de autocrítica e de

organização política real, com urgência. Se quisermos um mundo melhor do que o que nos pariu, precisamos alinhar discursos e parar de reproduzir o veneno que nos consome, porque no fim das contas, alguns de nós só têm a nós mesmos.

COLUNISTA

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Moon Kenzo

[ela/dela]

Moon Kenzo é uma artista multimídia sobralense: cantora, compositora, atriz e escritora. Graduanda em Letras-Inglês pela UVA, Moon transita entre a música, a literatura e o palco como extensões de um mesmo corpo trans, preto e gordo. Sua trajetória é movida pela recusa em aceitar as fronteiras que tentam impor à sua arte, fundindo R&B, Soul e Synthwave para narrar as fissuras da existência. Com presença em antologias como Embaixo do Cajueiro e Cerol e Navalha (2024), e prestes a lançar seu manuscrito Ávida (2026), Moon enxerga na escrita um exercício de sobrevivência. Ela não busca a neutralidade, busca o corte, sua voz é a ferramenta com a qual reescreve a própria história, devolvendo ao mundo a visceralidade que tentaram lhe negar. Para Moon, a arte é o lugar onde o confronto vira criação: “Se a língua é uma arma, a minha é submetralhadora carregada com infinitos pentes.
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