COLUNA

João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em

Ecologias Encantadas 

Há mais de uma década, venho investigando as relações entre gênero, natureza e não binariedade, interessado especialmente em compreender como as estruturas binárias que organizam nossas sociedades também moldam a maneira como percebemos, classificamos e nos relacionamos com o mundo natural. Afinal, o que podemos aprender com a natureza quando deixamos de interpretá-la exclusivamente a partir de categorias humanas, frequentemente construídas sobre oposições como masculino e feminino, humano e não humano, natural e artificial?

Essa investigação atravessa minha trajetória como artista social, pesquisadore e fundadore do Instituto [SSEX BBOX], onde temos desenvolvido reflexões sobre pensamento não binário, diversidade e as possibilidades de uma linguagem mais que humana, uma linguagem capaz de reconhecer outras formas de existência, comunicação, inteligência e agência para além da experiência humana.

Mais recentemente, essas questões passaram a ocupar um lugar ainda mais central em meu trabalho, especialmente com minha participação na cocriação do Festival TRANSPLANET, uma plataforma internacional de arte, cultura, pensamento e experimentação coletiva que terá sua primeira edição em São Paulo, em 2027.

O TRANSPLANET nasce de uma provocação: e se as experiências de transformação vividas por pessoas trans e não binárias pudessem contribuir para imaginar novas formas de convivência em um planeta que também atravessa profundas transições?

Mais do que discutir diversidade como uma característica exclusivamente humana, queremos explorar a própria diversidade da vida como princípio de organização, transformação e coexistência. Reconhecer que habitamos um planeta de inteligências múltiplas, linguagens não humanas, relações simbióticas e organismos em permanente transformação pode nos ajudar a questionar as ideias de normalidade, hierarquia e separação que herdamos de determinadas tradições culturais e filosóficas.

É nesse contexto que recebo com especial entusiasmo a notícia da mostra “Ecologias Encantadas”, que reúne nove filmes de artistas LGBTQIAP+ da Amazônia brasileira e integra a programação do Scottish Queer International Film Festival (SQIFF), na Escócia.

Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo não seja apenas imaginar um novo futuro para a humanidade, mas abandonar a ideia de que o futuro pertence exclusivamente a ela.

Ecologias Encantadas: cinema queer amazônico atravessa o Atlântico e leva novos imaginários sobre natureza e diversidade à Escócia

Com nove filmes de artistas LGBTQIAP+ da Amazônia brasileira, mostra integra o Scottish Queer International Film Festival 2026, em Glasgow, com curadoria de Danilo Baraúna e Xuanlin Tham. A sessão já está com ingressos esgotados.

boxoffice.hotdocs.ca

Imagem de referência da mostra Ecologias Encantadas. Para publicação, utilizar o arquivo original e os créditos disponibilizados pela organização.

A Amazônia é frequentemente representada como uma imensidão verde, um território de biodiversidade extraordinária ou uma região ameaçada pelo avanço da exploração ambiental. Mas o que acontece quando suas histórias são contadas a partir das experiências de artistas queer e trans que habitam, imaginam e reinventam esse território?

Essa é uma das questões que atravessam “Ecologias Encantadas” (Enchanted Ecologies), mostra de cinema experimental que reúne nove filmes de artistas LGBTQIAP+ da Amazônia brasileira e chega à Escócia como parte da programação oficial do Scottish Queer International Film Festival (SQIFF).

A sessão acontece no dia 24 de outubro de 2026, às 16h, no Glasgow Film Theatre, um dos espaços de cinema mais conhecidos da cidade. Com ingressos já esgotados, a programação evidencia o interesse internacional por narrativas que aproximam diversidade de gênero, ancestralidade, espiritualidade, colonialidade e justiça climática.

Com curadoria de Danilo Baraúna e Xuanlin Tham, a mostra resulta de uma colaboração entre o projeto de pesquisa Amazônia EcoQueer, o SQIFF e o Take One Action Film Festivals, com financiamento parcial da British Academy.

Quando a floresta deixa de ser cenário e se torna protagonista

Em “Ecologias Encantadas”, a natureza não aparece simplesmente como paisagem. Rios, manguezais, florestas, seres encantados e territórios urbanos participam das narrativas como presenças vivas, carregadas de memória, espiritualidade e relações de poder.

As obras apresentam perspectivas que questionam a separação entre humanidade e natureza, ao mesmo tempo que investigam as marcas deixadas pela colonização, pela violência de gênero e pela degradação ambiental.

O resultado é uma programação que desafia tanto as representações convencionais da Amazônia quanto às ideias de que gênero, sexualidade e ecologia pertencem a campos separados.

Essa abordagem dialoga com a ecologia queer, campo interdisciplinar que investiga como concepções de natureza e sexualidade foram historicamente atravessadas por normas sociais, culturais e políticas.

Ao questionar a ideia de uma natureza organizada exclusivamente por oposições rígidas, humano e não humano, masculino e feminino, natural e artificial, essas perspectivas abrem espaço para compreender a vida a partir de relações mais complexas de interdependência.

No contexto amazônico, essa discussão ganha outras dimensões. Cosmologias locais, saberes ancestrais, seres encantados e experiências territoriais apresentam formas de perceber o mundo que nem sempre cabem nas classificações produzidas pela modernidade ocidental.

A mostra não procura apresentar uma Amazônia homogênea. Ao contrário, revela uma multiplicidade de Amazônias possíveis, nas quais a diversidade de corpos, identidades, culturas e relações ecológicas constitui parte fundamental da experiência de existir.

Nove filmes, múltiplas Amazônias

A seleção reúne produções realizadas entre 2009 e 2025, combinando videoarte, performance, experimentação audiovisual, mitologia e narrativas autobiográficas.

Fever (2023) — Rafa Bqueer

Uma figura de sereia verde percorre os rios amazônicos e confronta arquiteturas e monumentos associados à violência colonial. A obra transforma o corpo em território de resistência e questiona representações oficiais da região.

The Island of Self-Contemplation (2020) — Allyster Fagundes

Um ser encantado tenta reconstruir seu corpo híbrido após um longo conflito identitário. Entre fragilidade e descoberta, a narrativa transforma a ilha em metáfora da experiência de reconhecer a própria identidade.

Idyllic Enchantments (2022) — Rafael Matheus Moreira e João Lucas Pedrosa

Uma releitura de mitologias brasileiras coloca corpos LGBTQIAP+ e relações de amizade no centro de um universo fantástico, no qual dois seres atravessam dimensões por meio de um espelho.

The Island of Shadows (2020) — Allyster Fagundes

Em uma obra autobiográfica, a figura mitológica da sereia torna-se instrumento de investigação psicológica, dialogando com o arquétipo da sombra e os conflitos internos da identidade.

Caipora (2019) — Rafaela Correia

A entidade protetora das florestas conduz uma narrativa que combina culturas ribeirinhas, modos de vida locais, violência de gênero e recuperação de identidades.

Herança (2025) — Keila-Sankofa, com música de Rafa Militão

Entre águas escuras, encantamentos e memórias ancestrais, o curta musical aproxima cinema e sonoridade para investigar heranças culturais e espirituais amazônicas.

(In)finite body? (2023) — Ramon Reis

Filmado em Belém no Dia de Finados, o trabalho articula corpo, ancestralidade, vida, morte e espacialidade urbana em um manifesto estético e político.

I am a crab (2023) — Nay Jinknss

A obra acompanha um cortejo ecológico tradicional de Curuçá, no Pará, no qual participantes cobrem seus corpos com lama dos manguezais, tornando-se simbolicamente caranguejos. A celebração mistura pertencimento territorial, cultura popular e encantamento.

Our Steps Overflow with Thirst (2009) — Danielle Fonseca

Em uma performance poética, a artista oferece suas palavras ao rio, tratado como um ser vivo. A obra investiga a relação entre linguagem, água e existência.

Sinopses adaptadas da programação oficial do SQIFF.

Amazônia EcoQueer: pesquisa, arte e imaginação de futuros ecológicos

A mostra integra o trabalho desenvolvido pelo Amazônia EcoQueer, projeto acadêmico e curatorial coordenado por Danilo Baraúna, pesquisador, professor e artista visual paraense radicado no Reino Unido.

Sediado na Newcastle University e financiado pela British Academy para o período de 2025 a 2027, o projeto investiga a circulação internacional de obras audiovisuais experimentais de artistas LGBTQIAP+ da Amazônia brasileira.

Seu objetivo é compreender como essas produções elaboram futuros ecológicos a partir de conhecimentos locais, perspectivas decoloniais e experiências de diversidade sexual e de gênero.

Mais do que uma pesquisa acadêmica, o Amazônia EcoQueer constitui uma rede de interlocução entre artistas, pesquisadories, estudantes, curadorias e instituições culturais.

Entre os temas investigados estão o racismo ambiental, a justiça climática, as transformações ecológicas e a capacidade das práticas artísticas de mobilizar novas formas de consciência coletiva.

O projeto também prevê publicações, entrevistas com artistas, um livro, um catálogo e uma exposição, além de mostras e debates públicos. Sua proposta se conecta ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 13 da ONU, dedicado à ação climática, especialmente à educação e à conscientização sobre as mudanças do clima.

Danilo Baraúna e a construção de pontes entre a Amazônia e o mundo

Natural de Belém, Danilo Baraúna desenvolve uma trajetória interdisciplinar entre artes visuais, estudos queer, cinema experimental e pensamento decolonial.

Atualmente é British Academy International Fellow na Newcastle University, onde conduz a pesquisa que dá origem ao Amazônia EcoQueer.

Doutor em Belas Artes pela Glasgow School of Art, Danilo também realizou pesquisas de pós-doutorado na Universidade Federal do Pará e na Universidade Estadual Paulista (UNESP).

Sua trajetória inclui projetos curatoriais e exposições no Brasil, na Argentina e no Reino Unido, além de publicações acadêmicas sobre produção artística, audiovisual e cultura LGBTQIAP+.

A investigação que desenvolve atualmente parte de uma questão relevante: como artistas amazônicos podem produzir outras maneiras de sentir, representar e imaginar a relação entre corpos, territórios e futuros?

Ao promover a circulação dessas obras no exterior, o projeto contribui para deslocar o lugar historicamente atribuído à Amazônia nas narrativas internacionais.

Em vez de aparecer exclusivamente como objeto de observação científica, exploração econômica ou conservação ambiental, a região passa a ocupar o lugar de produtora de pensamento, linguagem artística e imaginação política.

O cinema como território de transformação

A presença de “Ecologias Encantadas” no SQIFF também aponta para uma transformação no debate internacional sobre diversidade.

Durante décadas, parte importante das discussões públicas sobre direitos LGBTQIAP+ esteve concentrada em reconhecimento jurídico, representatividade e enfrentamento da discriminação. Embora essas questões permaneçam fundamentais, produções artísticas contemporâneas vêm ampliando esse repertório para incluir as relações entre gênero, ecologia, espiritualidade e formas de convivência entre espécies.

As obras reunidas na mostra sugerem que imaginar futuros mais justos exige questionar não apenas quem pode ocupar determinados espaços sociais, mas também como a humanidade se relaciona com os demais seres vivos.

Essa perspectiva desloca a diversidade de uma condição exclusivamente humana para uma reflexão sobre a própria organização da vida.

O corpo que se transforma em caranguejo, a sereia que confronta monumentos coloniais e o rio que recebe palavras não são apenas imagens poéticas. São também possibilidades de repensar fronteiras que costumamos considerar naturais e permanentes.

Ao aproximar imaginários amazônicos, experimentação cinematográfica e pensamento queer, a mostra convida o público a reconhecer que outras formas de relação com o planeta já estão sendo elaboradas por artistas que vivem e produzem a partir desses territórios.

Da Amazônia à Escócia: um encontro entre ecologias queer

A sessão será acompanhada por uma apresentação dos curadores Danilo Baraúna e Xuanlin Tham e, posteriormente, por uma conversa com Fi Halliday, integrante do Govanhill LGBTQIA+ Gardening Group, coletivo comunitário de jardinagem de Glasgow.

O encontro acrescenta uma dimensão local à programação: as questões levantadas pelos filmes amazônicos passam a dialogar com experiências de cultivo, comunidade e pertencimento ecológico desenvolvidas na própria Escócia.

A exibição contará com áudio em português e legendas descritivas em inglês, além de recursos de acessibilidade para as conversas, incluindo interpretação em língua de sinais britânica e legendagem ao vivo.

Imaginar outros futuros começa por reconhecer outras naturezas

Em um momento marcado pelo agravamento da crise climática e pela intensificação de disputas sobre gênero, sexualidade e direitos culturais, “Ecologias Encantadas” apresenta uma contribuição singular: a possibilidade de compreender a diversidade não como uma exceção à natureza, mas como parte constitutiva da vida.

As imagens produzidas por artistas queer amazônicos mostram que a imaginação ecológica não precisa nascer exclusivamente dos grandes centros acadêmicos ou das instituições internacionais. Ela também emerge das margens dos rios, dos manguezais, das ruas de Belém, das memórias ancestrais e dos corpos que desafiam classificações rígidas.

Ao atravessar o Atlântico, esses filmes não levam apenas representações da Amazônia para uma plateia europeia. Levam outras maneiras de perceber o mundo.

E talvez essa seja uma das contribuições mais importantes da mostra: lembrar que, diante das crises do presente, imaginar futuros possíveis também significa aprender a reconhecer os mundos que já existem, mas que nem sempre fomos ensinados a enxergar.

Serviço — Ecologias Encantadas

Enchanted Ecologies — SQIFF 2026

Ingressos esgotados

Sábado, 24 de outubro de 2026, das 16h às 17h45 (horário local)

Local: Glasgow Film Theatre — 12 Rose Street, Glasgow, Escócia.

Curadoria: Danilo Baraúna e Xuanlin Tham.

Programação: nove curtas-metragens, com 42 minutos de exibição, apresentação e conversa após a sessão.

Parcerias: Amazônia EcoQueer, SQIFF e Take One Action Film Festivals.

Financiamento: apoio parcial da British Academy.

Mais informações: Programação oficial do SQIFF · Projeto Amazônia EcoQueer · Instagram

COLUNISTA

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João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

João Pedro Fontes, nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter com foco em cultura e identidade.
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No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.

As ações do Instituto incluem apresentar ferramentas, conteúdos educacionais, e soluções estratégicas visando o exercício do olhar interseccional para grupos sub-representados. Nossas atividades tiveram início em 2009, a partir de uma série de webdocumentários educacionais que exploram temas da sexualidade e gênero para promover mudanças sociais com base nos direitos humanos.

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