“A maior riqueza de um artista é ser multifacetado” Gorfo de Panda
O nome Gorfo de Panda surgiu como uma afronta, produtor, cantor e compositor, ele construiu uma identidade multifacetada que não se prende a um único gênero. Misturando rock, punk, hyperpop, eletrônico e até forró, ele se destacou não só como artista solo, mas também como o produtor por trás de canções de artistas como Pabllo Vittar e Frimes.
Em conversa com o [SSEX BBOX], Gorfo falou sobre a criação do seu álbum de estreia, Wallpapers, o processo de produção para Pabllo, a volta da estética emo e por que acredita que o futuro da música é pós-gênero e não binário.
Confira a conversa na íntegra abaixo:
João Pedro: Ouvi o seu primeiro álbum “Rawr Tapes” semana passada, adorei. Minha faixa favorita foi Creeper. E eu ia começar perguntando de onde surgiu o nome Gorfo de Panda. Qual foi a reação mais inusitada que você já recebeu em relação a esse nome?
Gorfo de Panda: Então, o nome surgiu mesmo como uma afronta, porque era algo que eu tinha comigo já, uma base muito punk, muito do rock. […]
Escolhi o Gorfo de Panda, não necessariamente tem um significado, é simplesmente alguma coisa que parece ser estranha. […] No começo, as três primeiras festas que eu tentei tocar ficaram bem relutantes, porque eram voltadas para o público de Pop funk. Eles vão pensar: “vai ter uma banda punk aqui do nada?”. […] Na minha primeira vez tocando, quando eu cheguei no bar, em vez de Gorfo de Panda estava DJ Harry. Eu falei com todas as letras: é Gorfo de Panda. Mas depois o pessoal aceitou, e aceita até hoje.
João Pedro: Você começou a escrever música em 2010 e virou em 2017, né? O que aconteceu nesses sete anos? Que bagagem musical para tornar produtor?
Gorfo de Panda: É muito treinamento. Foi uma fase de desenvolvimento de composição e de técnica. Desde o momento que eu peguei um violão para tocar, eu já queria escrever. Eu não queria só tocar músicas, eu queria saber fazer as minhas próprias, queria saber como era aquela mágica. […] Foi um processo de escrever músicas de diversos estilos: rock, pop, reggae. […] Foi durante essa caminhada que a música eletrônica chegou na minha vida, que sempre foi uma paixão, mas eu tinha parado na porta por achar muito complicado. Mas sempre amei muito. […]
João Pedro: Falando um pouco mais sobre gêneros musicais. Você falou que no início começou tocando em festas mais de Pop funk, né? E como foi para introduzir para o público gêneros como Trap, que eu consigo ver no álbum, o EDM e o rock?
Gorfo de Panda: Sempre foi uma paixão que eu tinha, mas eu não conseguia. Daí eu comecei a ser DJ e descobri como as coisas funcionavam. […] Dentro das minhas apresentações, eu sempre me coloquei como um artista de Hyperpop. Eu entendo que o Hyperpop é um termo super guarda-chuva, que tem trap, rock, EDM, pop. Então tá tudo ali no meio, e me colocar dentro desse guarda-chuva facilitava para as pessoas entenderem. […] Meus shows sempre foram focados no rock, mas agora eu tô tentando fazer essa virada um pouco mais para o eletrônico. […]
João Pedro: Falando agora sobre uma das faixas que eu mais gostei, que foi Creeper, né? Não consegui não lembrar do Creeper do Minecraft. Tem alguma ligação de ter o sentimento de explosão, né? Eu senti muito isso na música.
Gorfo de Panda: É muito disso. A música era mais uma brincadeira de ser uma pessoa explosiva que entra na sua vida em um momento específico, chega lá e destrói tudo. É obviamente relacionado ao monstrinho do Minecraft. […] É uma pessoa que entra na sua vida, destrói tudo e deixa você lá, só tipo “por que que eu deixei isso acontecer?”.
João Pedro: Foi exatamente isso que eu senti. É muito legal pegar essa referência do Creeper explodindo, porque olha, na tracklist eu não me toquei, mas quando chegou na música, eu entendi. E queria falar agora sobre sua collab com a Pabllo Vittar. Como foi esse encontro entre vocês dois? Como vocês gravaram, se foi de forma remota, se tiveram presencialmente?
Gorfo de Panda: Foi remoto, porque a gente não mora no mesmo estado. A Pabllo me procurou porque gostou muito do trabalho que eu tava fazendo e queria algo nessa pegada. Ela tinha as referências dela, eu tinha as minhas. […] A gente começou a produzir “Prost” e foi super sincro. Eu fiz os instrumentais, ela fez as gravações, me mandou. […] Foi super rápido e as referências bateram de cara.
João Pedro: O seu trabalho como produtor se expande por outros gêneros também, né? É muito legal ver isso, principalmente o forró, que eu gosto bastante de ouvir. E como é para você se aventurar em outros gêneros? Quando você vai trabalhar com outras pessoas, você já chega com algo em mente pensando ou você decide no processo criativo junto com ela?
Gorfo de Panda: Eu sempre trago uma bagagem, tento colocar o carimbinho Gorfo de Panda. Eu nunca trabalho com gênero só dentro da música, gosto de encaixar elementos em caixas que não pertencem. Mas eu sempre escuto a pessoa, dou muito valor a isso. Quando são artistas sérios, que já têm uma consolidação, eles trazem muita bagagem, e é muito enriquecedor para mim absorver isso para trabalhos futuros. […]
João Pedro: E as referências suas vão desde Justin Bieber até Aviões do Forró, né? E qual é a referência que você acha que mais surpreende alguém? Em qual música foi?
Gorfo de Panda: Pensando no meu trabalho solo, quando eu falo que eu faço forró também, as pessoas ficam tipo “você com essa lata aí faz forró?”. […] Mas aí quando eu falo “eu já trabalhei com vários artistas”, as pessoas falam “mentira”. Até eu tenho que provar, daí eu abro o Spotify e mostro: “aqui ó, tem meu nome”.
João Pedro: Adoro surpreender as pessoas com essas informações. Quando eu falo que eu escuto Forró as pessoas não acreditam também. Você disse que o futuro é pós-gênero e não binário. Como isso aparece também na sua música? Como você tenta colocar esse discurso?
Gorfo de Panda: Você consegue entender que é o mesmo artista, tem aquela cara, mas não é uma pessoa que se prende a um “ai, você faz rock” ou “ai, você é emo”. […] Esse negócio de colocar as coisas de uma caixinha é uma coisa que ficou lá em 2010. […] Não tem um gênero definido. A gente tem aquele carimbo, mas se bota outras roupas, consegue se movimentar por outros espaços. A maior riqueza de um artista é justamente ser multifacetado, conseguir beber de várias fontes e trazer aquilo para dentro dele.
João Pedro: Queria falar um pouquinho de divulgação do para onde você quer levar esse disco que você ainda não foi?
Gorfo de Panda: Eu acho que o Wallpapers funcionou muito como uma questão de eu precisar voltar a um ponto meu. Durante muito tempo eu tive receio de me colocar como artista solo, de definir meu estilo, a escrita de letras. Eu vejo Wallpapers como esse passo inicial, essa coisa de botar minha cara no sol para falar “gente, eu sou artista”. Ele me deu experiência de palcos, de me conectar com outros artistas, e cumpriu o papel dele enquanto ponto inicial. Depois disso eu consigo ver que me achei, que encontrei o meu lugar. […] Me deu coragem e autoestima para poder expandir o meu universo.
João Pedro: Sobre Body Type que você produziu. Como foi produzir para Pabllo? Não sei se foi a primeira vez que você produziu para ela, mas o que você viu que ela queria em relação à música e o que você tentou entregar?
Gorfo de Panda: A gente não conversou antes. Eu fui contratado para mostrar meu trabalho e foi me dado a chance de mandar ideias, sem precisar ser nada finalizado. […] Eles me deram um ponto: “faça o que você gostaria que a Pabllo tivesse fazendo”. Aí eu mandei várias coisas, acho que umas seis ideias, todas embasadas em algo que eu queria ouvir a Pabllo fazendo, que é minha artista brasileira de pop favorita. Mandei coisas de rock, Hyperpop, trap. […] Queria trazer uma estética club, mas não aquele eletrônico de noitada, algo mais chique e sensual. E funcionou muito bem. No estúdio a gente conversando, ela expôs que tava vendo filmes, lembramos do clima de um filme de dança, e isso norteou a escrita da letra. […] Aí eu fiz um drop junto com o peso. Foi um processo incrível.
João Pedro: E como foi quando ela decidiu que ia ser o single do álbum, como foi para você ficar sabendo? Eu acho que é uma notícia muito grande.
Gorfo de Panda: As coisas andaram sem a minha tutela depois da produção. Eu não sabia até certo ponto que tinha uma música minha no álbum e não sabia que era um feat. […] Quando mandaram a mensagem falando que ia ter o feat e que seria o single, eu tava no meio da rua e comecei a chorar. Foi um momento absurdo para mim. […] Quando a gente é artista, produtor e independente, essas chances significam a vida para a gente. A gente dá o máximo esforço. […]
João Pedro: Em relação aos próximos trabalhos e próximas pessoas com quem você vai trabalhar, qual spoiler você daria para quem te acompanha?
Gorfo de Panda: Posso dizer que tem muita ver com uma pessoa que traz o rock na essência dela, e que eu diria que é a rockstar mais incrível do Brasil. Vai ter desdobramentos incríveis. E tem outras coisas vindo, posso dizer que estou produzindo coisas juntamente com SA, não para nós dois, mas para outros artistas. Coisas que vão sair em breve, bem legais, e vão para um lado que sai um pouco do pop. E de próximos passos para mim, estarei lançando um single em novembro que vai sair com tudo, vai ter clipe, vai ser tudo.