Uma bicha e uma travesti pretas levaram ao fim da escala 6×1 no Brasil. Dia de comemorar uma vitória avassaladora dos trabalhadores deste país
Uma reivindicação que nasceu do povo trabalhador brasileiro e de um relato genuíno de um balconista de farmácia agora se materializou. O Senado acaba de aprovar, em dois turnos, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala trabalhista no modelo 6×1 e garante dois dias de descanso remunerado sem diminuição do salário.
Foi a partir de um relato pessoal do, agora, deputado federal, Rick Azevedo (PSOL-RJ), que em um vídeo publicado em 2023 comparou a escala 6×1 a uma espécie de neoescravidão, que o movimento contrário a esta jornada começou a tomar forma. Rick ganhou projeção nacional ao fundar o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e encabeçar uma enorme petição online contra o modelo trabalhista. A força dessa mobilização popular digital e das ruas chamou a atenção de parlamentares.
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi a responsável por canalizar essa pressão social para dentro do Legislativo. Ela utilizou a base e as pautas levantadas pelo movimento de Azevedo para redigir, articular e protocolar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC), votada nesta quarta-feira (14). Na Casa parlamentar, a proposta foi aprovada por 75 votos a favor e um contra, do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
Rick se identifica como um homem gay e Erika é uma travesti, que no pleito de 2026 alcançou a marca de mulher mais votada da história da Câmara. Essas figuras são a representação da potência LGBTQIAPN+ preta brasileira, dos trabalhadores de base e da população que é colocada à marginalização e ao escrutínio social.
Rick e Erika nos reforçam que o sonho é possível e que nossas vozes podem ser ouvidas, que somos mais que pessoas queer, que nossas identidades e orientações sexuais são uma parte que nos constitui, mas nós extrapolamos. Estamos no epicentro das discussões importantes deste país e mobilizamos as mudanças que impactam, não somente à nossa comunidade, tão renegada por grupos conservadores, mas assim como toda a sociedade.
E eles não são os únicos. O número de pessoas LGBT+ eleitas no primeiro turno das eleições de 2026 quase dobrou, passando de 18, em 2022, para 35 neste ano (https://ssexbbox.com/a-esperanca-que-chega-as-urnas/). Juntas, essas candidaturas receberam mais de 10 milhões de votos e conquistaram cadeiras no Senado, na Câmara, nas assembleias legislativas e na Câmara Distrital.
No ano que vem não vamos ter apenas duas deputadas federais trans, mas agora três. Erika Hilton (SP) e Duda Salbert (MG) garantiram suas reeleições, enquanto Thabatta Pimenta (RN) fez história ao se tornar a primeira deputada federal trans do Nordeste brasileiro.
O segundo turno presidencial está a caminho! Ainda há muito o que discutir e se mobilizar. Apesar deste cenário positivo para a política queer brasileira, o ambiente no próximo ano é nebuloso com uma oposição conservadora forte que não é simpática às pautas que concernem a população LGBTQIAPN+. Mas hoje, nós vamos sorrir. Sorriam, a vida presta!