COLUNA

Moon Kenzo

[ela/dela]

Travartista sobralense. Música, Literatura e comunicação.

Ninguém fode de graça: estamos mesmo fingindo que tesão não é político? 

A amiga que evapora e o que isso diz sobre o nosso desejo

Enquanto crescemos, toda roda de rolê tem aquela amiga que basta engatar um namoro com um frequentador assíduo de igreja ou com um cara geralmente branco e de família abastada para evaporar do mapa e surgir completamente mudada, convertida à submissão doméstica como se tivesse sofrido uma lobotomia espiritual ou social.

A gente assiste a essa cena como uma piada interna, alguns até sentem dó, tratando como um simples desvio de rota pessoal ou uma escolha amorosa “infeliz”.

Mas é só riscar a superfície da nossa própria vida social para perceber que não existe inocência afetiva, não com corpos como os nossos, não lidando com as atrocidades rotineiras que presenciamos no nosso dia a dia.

Não existe inocência afetiva

Não é preciso cavar muito fundo para tropeçar nas relações de poder, classe e política que operam bem no meio do nosso tesão, ditando minimamente com quem nos deitamos, com quem queremos gozar, com quem ficamos excitades ou com quem devemos simplesmente caminhar de mãos dadas.

É sob essa fina falácia de intimidade inegociável que o desejo se revela como o campo de batalha mais eficiente do sistema, ou um embate que geralmente não queremos lutar ou perdemos todas as vezes que lutamos.

Por quê? Porque lida diretamente com nossos prazeres mais íntimos, nossos segredos mais inconfessáveis. 

O desejo é o campo de batalha mais eficiente do sistema

Esses dias, vagando pelo algoritmo do Instagram, esbarrei em um texto muito interessante da atriz e escritora Isabella Miranda (@isabellamir__), uma travesti, que trazia o título “a esquerda estragou os travestis”.

No relato, um ex-cliente a criticava por ter trocado a prostituição e a vida de top travesti montada vinte e quatro horas por dia na expectativa de um possível programa pela militância e por suas conquistas intelectuais.

Quando o dinheiro não compra mais

Refletindo sobre isso, ela compara a exaustiva rotina antiga de hipersexualização e saltos altos com suas novas vitórias, como a faculdade concluída, o livro publicado por uma grande editora, a atuação no Theatro Municipal e o concurso público aprovado.

Para ela, deixar de viver em função da beleza e da aprovação masculina trouxe a liberdade de não depender da objetificação do seu corpo para sobreviver.

No fim, ela conclui que o choro do cliente não é sobre sua beleza, mas sobre o fato de o dinheiro dele não poder mais comprá-la. Afinal, o capitalismo sexual funciona exatamente como o mercado de finanças, exigindo que corpos marginalizados permaneçam vulneráveis, disponíveis e baratos na prateleira da vida.

Quando uma travesti rompe esse ciclo ao ocupar um espaço de poder intelectual ou institucional, o que entra em colapso não é apenas o capricho de um cliente ferido, mas toda uma estrutura econômica que transformou o desespero social em mercadoria de luxo para o bel-prazer da burguesia.

O corpo que só pode ser consumido na vitrine

E essa dinâmica não é exclusiva para pessoas trans.

Recentemente, viralizou a história do ator de musical Andrew Bonomolo, que foi demitido uma hora antes de sua primeira apresentação do musical Bright Star pelo Cape Fear Regional Theatre, em Fayetteville, na Carolina do Norte, por terem descoberto seu passado como produtor de conteúdo adulto +18.

Irônico, não acham? Parece que o corpo do rapaz só pode ser consumido no OF e, por ter esse “rótulo”, está amaldiçoado a isso, eternamente. 

Essa lógica de que o corpo marginalizado existe para saciar um apetite de quem tem o poder, no entanto, não fica restrita à calçada ou à vitrine econômica. Ela penetra a fundo na intimidade e molda até os recantos mais íngremes do desejo, desejo esse socialmente construído, todos aqui sabem.

A coleira

Na última semana, um antigo colega de orgias estava na cidade e queria muito me ver, depois de um bom tempo sem nos cruzarmos.

Quando o conheci, anos atrás, foi ele quem me inseriu socialmente no mundo BDSM, o que tornou ainda mais irônico descobrir anos depois que ele ia casar nos moldes mais tradicionais possíveis, mas sem abandonar o chicote.

Ou seja, de dia Marido Ideal para sua digníssima esposa e, de noite, um puto sodomita viciado em bondage. Entre uma lembrança e outra sobre as antigas aventuras, voltei a notar algo que sempre me pareceu curioso nele.

Ele sempre foi forte, alto, negro retinto, com mais de um metro e oitenta, mas nunca tinha submissos negros. Um determinado dia, inocentemente como uma moça camponesa, perguntei o motivo disso, e ele respondeu sem dar muitas voltas que sentia tesão em ter escravos brancos porque sentia que estava vingando seus antepassados.

Eu olhei pra cara dele e comecei a rir alto. No meio de uma sala acolchoada com uma turma fudendo e uma galera amarrada, eu de bota e calcinha, percebi a ironia e a contradição na minha cara.

Hoje em dia, compreendo que nenhuma coleira ou chicote tem força suficiente para apagar as hierarquias de raça e de classe que nos moldam fora daquele quarto.

Não importa quanto mijo eu faça alguém beber, no fim do dia eu ainda corro risco de vida voltando pra casa. A sutil fantasia erótica nunca teria o endosso de ser neutra, porque ela é, de forma direta e violenta, o espelho distorcido das nossas maiores fobias coletivas, desejos irrefreáveis e comodidades vãs, provando que brincar com o poder no escuro é apenas a forma mais honesta de confessar quem realmente dita as regras na luz do dia. 

Moralismo de palanque, perversão de porão

Se no calabouço particular a história, o racismo e a dominação se disfarçam de fetiche, na alta política institucional a perversão ganha passe livre, impunidade, auxílio-paletó, terno, sigilo bancário e sigilo de 100 anos.

O que nos leva diretamente ao suposto caso recente do Banco Master e às alegadas orgias no Madame Satã, frequentadas por políticos de extrema direita, pastores ultra-religiosos e conservadores de fachada, cercados por “novinhas” e pelos milhares de conteúdos de nudes que teriam sido encontrados no celular de Daniel Vorcaro.

Eu sou completamente obcecada pela constatação de que o moralismo de palanque não sobrevive a quatro paredes e a uma tranca de fechadura, porque ele precisa visceralmente da perversão secreta e da certeza da impunidade para se sustentar.

Quanto mais rígida, ríspida e barulhenta é a fachada pública de um político ou de um líder religioso, mais grotesca, pervertida e desenfreada é a orgia no porão.

O segredo é a moeda mais valiosa do poder

Eu nunca tive acesso a nenhum político, mas líderes religiosos amam quando eu os levo pra passear de coleirinha, enquanto usam um plug cor de rosa com pompom, e amam beijar e engasgar nos meus pezinhos 44, pois afinal eu sou uma dama.

Existe uma coisa que é mais valiosa do que dinheiro para essa turma: seus segredos.

É irônico perceber que o poder institucional não apenas tolera esse submundo do sexo pago, festas clandestinas e tráfico de influência; ele acaba por alimentar ativa e continuamente a culpa que fabrica, transformando o indizível pecado privado na válvula de escape indispensável e intransponível para quem passa o dia inteiro legislando sobre a moral alheia. Sem mencionar que o medo de seus prazeres serem publicizados os joga em outro caminho, o de muitas vezes silenciar seus participantes menos poderosos.

Estamos aqui falando da aura de poder com a qual muitos se excitam, mas poder geralmente é munido de capatazes, armas e violência. 

Sexo e política: por que fingimos que são separados?

Isso tudo me joga de cara naquelas velhas indagações sobre o mito de que, no jogo do desejo, tudo vale e que entre quatro paredes só interessam as partes envolvidas. Mas será que sexo e política estão mesmo tão distantes assim?

Sou obcecada por narrativas como a da Senhorita Bira, que transformou em fantasia a missão de esvaziar o direitismo de Kim Kataguiri através do sêmen, ou pelas memórias ancestrais da mamada de repúdio. Seriam essas tecnologias de controle narrativo ou algo assim?

No fim das contas, a pergunta continua úmida, latejante e pulsante: o sexo é político, mas por que cotidianamente insistimos em negar isso?

Por que colocamos o sexo em um lugar neutro? Simplesmente não conseguimos nos dar bem com nossas próprias hipocrisias premeditadas pelo social? 

A política do corpo é ancestral

A resposta não é de hoje, ela vem de longe, ela vem de lá pequenininha.

Afinal, a política do corpo é ancestral, tratando o corpo como propriedade alheia, e foi desenhada desde a época em que mulheres eram negociadas como dotes para a manutenção de capital e a perpetuação de linhagens, passando pelas mulheres negras violentadas nas senzalas sob a força bruta da relação de poder colonial, até as travestis marginalizadas que foram obrigadas a se curvar à hipersexualização compulsória apenas para conseguir sobreviver na calçada.

O microcosmo também reproduz a engrenagem

Mas a engrenagem não poupa ninguém e se reproduz nos microcosmos.

Ela aparece quando gays reproduzem o ranço contra a afeminação alheia, cobrando dos outros a masculinidade tóxica que idealizaram para si ou para um parceiro, ou quando destilam preconceito contra corpos gordos, ou quando mulheres cis se recusam a aceitar trans como mulheres sob o pretexto patético de que vão roubar seus lugares, sem perceber que estão todas afundadas na mesma lama do machismo estrutural.

E, como se não bastasse, culmina na onda atual de influenciadores de direita ressuscitando campanhas abjetas contra o próprio voto feminino. 

Diante de tudo isso, a grande questão que fica é esta: como você ainda ousa fingir que a sua cama é um território neutro?

O que acontece entre você e um estranho no escuro de um quarto não é um desvio individual ou um refúgio inofensivo, mas o ponto exato onde todas essas correntes históricas, raciais, econômicas e patriarcais desaguam e se consumam sem pedir licença. 

A alcova não é refúgio: a história entra no quarto com a gente

No fim das contas, a máxima de que o pessoal é político não é slogan mofado: é uma tomografia nua e crua da nossa carne.

As regras do nosso tesão foram escritas pelo Estado, pelo racismo, pelo machismo e pelo capital, arrastando-se desde o dote mercantil e a senzala até a calçada, o fetiche do calabouço ou a orgia sigilosa da extrema direita. Insistir que a alcova é um refúgio neutro é um dos mais antigos delírios da humanidade.

Despir-se para quem quer que seja nunca foi, nunca é e nunca será fuga da realidade. Na hora da raposa molhar o rabo, a história inteira entra no quarto com a gente, escancarando sem filtros de quem nós realmente continuamos sendo reféns. Isso te assombra ou te alivia?

COLUNISTA

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Moon Kenzo

[ela/dela]

Moon Kenzo é uma artista multimídia sobralense: cantora, compositora, atriz e escritora. Graduanda em Letras-Inglês pela UVA, Moon transita entre a música, a literatura e o palco como extensões de um mesmo corpo trans, preto e gordo. Sua trajetória é movida pela recusa em aceitar as fronteiras que tentam impor à sua arte, fundindo R&B, Soul e Synthwave para narrar as fissuras da existência. Com presença em antologias como Embaixo do Cajueiro e Cerol e Navalha (2024), e prestes a lançar seu manuscrito Ávida (2026), Moon enxerga na escrita um exercício de sobrevivência. Ela não busca a neutralidade, busca o corte, sua voz é a ferramenta com a qual reescreve a própria história, devolvendo ao mundo a visceralidade que tentaram lhe negar. Para Moon, a arte é o lugar onde o confronto vira criação: “Se a língua é uma arma, a minha é submetralhadora carregada com infinitos pentes.
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