Um ensaio sobre autoerotismo, culpa e liberdade, refletindo como o prazer de corpos queer desafia tabus e normas que regulam o desejo.
Em um país onde a educação sexual ainda é atravessada por silêncios e pela influência de valores religiosos, falar sobre masturbação continua sendo um desafio, sobretudo quando atravessa experiências queer. Ao partir de uma experiência íntima, o [SSEX BBOX] reflete sobre como o autoerotismo, longe de ser apenas uma prática individual, também evidencia os mecanismos históricos de controle dos corpos e do desejo. Recuperar esse prazer pode ser, antes de tudo, um gesto de liberdade e de reconciliação consigo mesmo.
Comprei um consolo. Assim que abri a caixa, percebi que havia chegado um diferente daquele que eu tinha pedido, consideravelmente mais grosso. Chegaria em casa, tomaria um banho e o usaria. Assim fiz. Forrei a cama e, sendo bem sincero, eu não saberia o que esperar. As mais de quinhentas reviews diziam que você “pararia de sair com homens” e que aquilo era fonte definitiva de prazer.
Deitei-me na cama e comecei a imaginar o melhor cenário possível. Fantasiar o autoamor normalmente é carregado de certa dificuldade, por ser difícil se desenhar num cenário tão privado e pouco discutido nas rodas de colegas, diferente do ato de transar, que é comentado, comparado e sentido. A masturbação está na vida da humanidade desde a antiguidade, mas dar sentido e palavras a esse prazer é uma tarefa que ainda parece recente.
Afinal, nossos afetos e práticas ainda são colonizados por uma moral sexual fortemente influenciada pela tradição judaico-cristã, ou seja, qualquer prática sexual que não leve à procriação é objeto de punição, pecado e silêncio. Pelos nas mãos, cegueira, acne e tantas outras ameaças que ouvimos quando éramos crianças não eram apenas mitos inocentes. Eram maneiras de ensinar que o prazer precisava ser vigiado. Antes mesmo de compreendermos o próprio corpo, aprendíamos que havia algo de perigoso em tocá-lo. O controle do prazer sempre foi, em alguma medida, uma forma de controle dos corpos. Talvez seja por isso que algumas pessoas são ensinadas tão cedo a desejar o outro e tão pouco a desejar a si mesmas.
A masturbação é tabu, mas nunca foi um tabu distribuído igualmente. Alguns aprendem desde cedo que desejar faz parte de ser homem. Outros aprendem que até o próprio desejo precisa permanecer escondido. Há uma espécie de autorização social para que alguns sintam desejo, enquanto outros devem apenas existir sob o olhar do desejo alheio.
Por ser quem sou, tenho uma facilidade em tentar-desejo. Assim que comecei a introduzir o consolo, lembrei da primeira vez em que introduzi algo em mim. Nem lembro do toque, lembro do susto. Da sensação de que meu corpo tinha descoberto alguma coisa antes de mim.
Havia um menino ali, antigo, sentado à beira da cama da memória, olhando tudo em silêncio. Um menino que aprendera cedo que certos desejos precisavam existir escondidos. Aprende-se que o prazer precisa ser justificado. Se ele produz filhos, é aceito. Se fortalece um relacionamento, é tolerado.
Mas quando existe apenas por existir, quando o único destino do prazer é o próprio corpo, ele incomoda. Afinal, um corpo que encontra satisfação em si escapa, ainda que por alguns instantes, das normas que insistem em ditar como devemos desejar, amar e viver.
O corpo leva tempo. Experimenta, como quem procura uma forma de existir sem culpa. Eu tentei várias. De bruços, depois de lado. Até que o corpo encontrou seu próprio caminho. Fiquei assustado de perder o objeto e ter que ir ao pronto-atendimento mais próximo… Quando finalmente consegui relaxar, veio o espanto. O corpo reagiu antes do pensamento.
Encontrava nervos, arrancava espasmos, devolvia ao corpo uma espécie de vertigem. Eu me contorcia sobre a cama e, por um instante, perdi a necessidade de compreender o que estava acontecendo. Restou apenas um som, involuntário, vindo de um lugar do corpo que eu ainda não conhecia.
Percebi então que não era o corpo que tremia primeiro; era a memória.
Havia em mim um viadinho antigo sentado à beira da cama, olhando tudo com a culpa que deram a ele. O prazer, descobri tarde, chega como uma espécie de perdão. E eu fiquei ali, entre o gozo e a carne, aprendendo que existir também pode ser uma forma de se tocar.