COLUNA

Rafael Nascimento

[ele/dele]

Jornalista com mais de sete anos de atuação. Foi editor e repórter de Sexualidade LGBT+ no Portal iG

“Será que estou louca” é um livro jovem e pop

Em seu livro de estreia, o potiguar João Pedro Fontes parte de sua experiência com doença rara para falar sobre afetividade e amadurecimento

O publicitário João Pedro Fontes, natural de Marcelino Vieira, no Rio Grande do Norte, levou 22 anos para receber o diagnóstico de PFIC, doença rara hepática e progressiva. Há mais de um ano o jovem briga pelo ácido ursodesoxicólico, medicação que pacientes da doença precisam para sobreviver. O remédio está em falta com frequência no Sistema Único de Saúde (SUS), segundo João. 

Em março deste ano, durante uma consulta na Unidade de Transplante de Fígado do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, em Recife, o autor recebeu a notícia de que o transplante do órgão virou uma questão de tempo. É a partir de toda esta experiência de dor que o comunicador social inicia a jornada de escrita de “Será que estou louca?”, seu primeiro romance. 

O livro se apresenta ao leitor como uma obra auto-ficcional que utiliza da figura de um fantasma para traduzir os dilemas que um paciente de PFIC enfrenta durante o tratamento da doença. Na obra o protagonista está morto, uma condição que provavelmente é refletida pelo autor em vida. Com este distanciamento, ele tece uma análise mais crítica à sua trajetória e vai desenvolvendo-a ao longo dos capítulos.

“Desde os 12 anos, eu sabia que o meu tempo tinha vindo descontado. E isso não me tornou uma pessoa apressada – me trouxe, na verdade, um senso de urgência. Me tornou alguém que precisava viver cada dia como se fosse o último, porque, francamente, qualquer um poderia ser […] Carregar no corpo uma sentença e, ainda assim, precisar provar que se merece existir: talvez essa tenha sido a minha primeira forma de assombração”, diz o narrador-personagem, quando João, de forma ficcional, denuncia a LGBTQIAPN+fobia que sofre no tratamento da PFIC. 

Durante o texto, o autor ainda se utiliza da voz do fantasma para apontar a realidade dura que o condiciona a “diagnósticos tardios, dificuldade de acesso ao tratamento adequado, pressão psicológica constante, risco de evolução para transplante e falta de políticas públicas destinadas à PFIC.”

Contudo, ao passar da leitura, o legente percebe que as circunstâncias que envoltam a doença são na verdade um ponto de partida para contar outra história: o clássico coração partido com pitadas de raiva, ressentimento, mágoa e redenção.

“Este texto é a minha libertação do castelo de migalhas que ele construiu para mim”

Bem é o “grande vilão”. Pelo menos até certa parte do livro. Toda a história é de fácil reconhecimento e em muitos momentos relembrei de experiências próprias em que não me senti contemplado afetivamente e, por consequência, me identifiquei.

“Ele gostava do que eu oferecia. Não era só afeto: ele sentia à vontade para compartilhar comigo até as frivolidades mais bestas da vida, das inseguranças às ideias criativas. Era nesses momentos que a nossa conexão florescia, que tudo parecia virar mágica. Às vezes, eu tinha a impressão de que éramos irmãos de outras vidas, reencontrados por acaso”, diz trecho do livro.

O fantasma-narrador-personagem, apesar de estar em outro plano, tem memória viva e conta em detalhes os sentimentos experienciados com o amado Bem, que, na versão contada pelo protagonista, não estava preparado para assumir as belezas e as fraquezas de uma relação afetiva madura – e não monogâmica. 

Um romance, por essência, contemporâneo

Além de abordar a forma antônima à monogamia relacional, João utiliza do narrador para expressar sua não-binaridade e faz uso de pronomes masculinos e femininos ao longo do texto – o que é possível observar, inclusive, no título do livro. A obra também é embalada por músicas-temas que aglutinam sentido a cada capítulo. Tove Lo, Taylor Swift, Allie X, Panic! At The Disco, Kylie Minogue, Katy Perry , Gaby Amarantos, Potyguara Bardo, entre outros nomes, embalam o romance. A playlist completa toca direto no site do livro, integrada via Spotify.

João Pedro Fontes, autor de ‘Será que estou louca?’ (Divulgação)

No discorrer das linhas, o protagonista deixa claro que se sentiu vítima de uma experiência de gaslighting – tipo de abuso psicológico em que uma pessoa manipula informações, distorce a realidade ou nega fatos para contradizer o outro. Contudo, em dado momento, João, ou seu fantasma, confessam que não apenas de ressentimentos se construiu a história com seu amado. 

“Sei que, ao longo destas páginas, fiz o possível para expor o pior de Bem. Mas dizer que não havia nada de bom nele seria desonesto. Afinal, eu o amei”. Como em todo romance, os sentimentos são hiperbolizados, especialmente em tenra idade. 

“Será que estou louca?” é uma obra de fácil leitura e reconhecimento, é possível se assemelhar às fraquezas do protagonista, enxergar a poesia em um narrador-personagem-fantasma que se beneficia de sua morte para desentalar o que não conseguiu fazer em vida, e sua jornada do herói ao ser capaz de analisar que esteve em um relacionamento tóxico e conseguir sair desta situação. 

Em resumo, é jovem e pop. Mas, acho que caberia tratar de forma mais alongada a questão da PFIC. Fiquei intrigado em saber os pormenores que envolvem a experiência da doença, uma vez que se trata de uma história que se arrasta por mais de duas décadas. Quem sabe, uma segunda obra? Deixo a dica, João!

O livro está disponível na Amazon no Kindle Unlimited de forma gratuita e por R$14,99 o Epub. Dez por cento dos direitos autorais vão para o fortalecimento institucional da PFIC Brasil, associação que reúne famílias de pacientes da doença. 

COLUNISTA

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Rafael Nascimento

[ele/dele]

Rafael Nascimento é um jornalista homem gay cis natural da Baixada Fluminense com mais de oito anos de experiência. Já desempenhou funções como editor, repórter e produtor de conteúdo em diferentes veículos. É graduado pela Universidade Veiga de Almeida e pós-graduando em Direitos Humanos e Questões Étnico-Sociais pela PUC-PR. Atualmente, além da coluna no [SSEXBBOX], é jornalista na Secretaria de Cultura e Turismo de Duque de Caxias. Foi editor assistente na Marie Claire. Foi também editor de Homepage e Redes Sociais no Portal iG. No mesmo site, foi repórter e depois promovido a editor em Queer, atuando na pauta de Sexualidade LGBTQIAPN+. Foi repórter freelancer na Editoria E+ (Cultura, Comportamento e Entretenimento) do Estadão e trainee no 11º Curso de Jornalismo Econômico, também do jornal paulista. Participou do “Lab 99 + Folha de São Paulo: Tecnologia para Todos” em que produziu e apresentou o podcast “Dinheiro para Todos: Bancarização e Soluções Digitais”. O projeto levou o 2º lugar no Prêmio 99 de Jornalismo.
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