COLUNA

Lyon Adryan Ror

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Artista social, educadore e pesquisadore da área de diversidade há pelo menos duas décadas

Carta aberta à comunidade Trans de Lyon A. Ror Fundadore da Marcha do Orgulho Trans de São Paulo

Hoje, 19 de setembro de 2026, acontece na sede do coletivo Travas da Sul, no Grajaú, a Assembleia Pública da Parada Trans SP, sob o tema “Parada Trans SP — Marcha não é marca”. A apenas oito quilômetros dali fica a Vila Inglesa, favela onde nasci, cresci e vivi até os 16 anos. Essa proximidade não representa apenas uma coincidência geográfica: ela me convida a revisitar minha trajetória, compreender tudo o que nos trouxe até este momento e reafirmar por que essa história também precisa ser contada. 

Essa distância sempre significou para mim muito mais do que geografia. Foi na Vila Inglesa que aprendi, pela primeira vez, o que a escassez, a desigualdade e o acesso limitado à educação e ao trabalho podem fazer com os sonhos de uma família; e onde comecei a imaginar um caminho para além dessas limitações. Quando criança, eu sonhava em ter um sofá e comer no McDonald’s com a minha família. Esses sonhos despertaram algo maior em mim: o desejo de empreender, construir um caminho para sair da escassez e transformar não apenas a minha vida, mas também a vida da minha família, de amigues e da vizinhança.

Sempre carreguei comigo essa versão de mim, sabendo que desejar superar uma situação de vulnerabilidade nunca significou negar de onde venho. Significou acreditar que pessoas trans e pessoas de comunidades periféricas têm tanto direito quanto quaisquer outras de viver com segurança, dignidade, prosperidade e abundância.

Temos o direito de superar a escassez e adotar uma mentalidade de sucesso. Temos o direito de criar empresas, crescer, ocupar posições de poder, mobilizar recursos, gerar empregos e imaginar vidas que vão além da mera sobrevivência. Sempre acreditei que o verdadeiro sucesso significa prosperar de uma maneira que abra portas para outras pessoas e que esse tipo de prosperidade também pode se tornar uma forma de transformação coletiva.

Minha neurodivergência também atravessa profundamente essa história. Ser uma pessoa com dislexia, autismo e com TDAH influenciou minha maneira de aprender, perceber o mundo, criar relações e desenvolver projetos. Muitas vezes, precisei encontrar caminhos próprios para lidar com estruturas que não foram pensadas para pessoas como eu. Ao mesmo tempo, essa forma singular de pensar, marcada pela intensidade, pelo hiperfoco, pela sensibilidade e pela capacidade de estabelecer conexões entre diferentes ideias,  tornou-se parte essencial da minha criatividade e da minha maneira de empreender. Não romantizo os desafios da neurodivergência, mas reconheço que ela participa de quem sou e da forma como imagino e construo futuros que ainda não existem. 

Foi nesse movimento entre a escassez e a imaginação de outros futuros que comecei a construir meu caminho. Aos seis anos, tive minha primeira experiência de trabalho: vendia para a vizinhança pequenos pedaços de mármore que recolhia das sobras de uma marmoraria próxima. Aos 16, criei uma empresa com o desejo de compartilhar oportunidades de trabalho com amigues. Anos depois, esse mesmo impulso de criar possibilidades deu origem ao Instituto [SSEX BBOX]. Criei o Instituto para ser o espaço que eu não encontrei quando precisei: um lugar de aprendizagem, escuta, experimentação, arte, cultura, pensamento crítico e construção de novas possibilidades para as vidas trans, travestis, não binárias e LGBTQIAP+. 

Antes de se tornar uma instituição, o [SSEX BBOX] já era uma pergunta: como podemos transformar a sociedade por meio de conversas mais livres, profundas e corajosas sobre gênero, sexualidade, corpo, raça, classe e território? Ao longo dos anos, essa pergunta evoluiu do meu trabalho individual para o trabalho de uma equipe que realizou encontros, conferências, pesquisas, produções artísticas, publicações, articulações políticas e projetos que reuniram outras pessoas, coletivos, organizações, empresas e comunidades.

Durante algum tempo, deixei São Paulo para conhecer outros mundos possíveis para pessoas trans em diferentes países — e vivi em São Francisco, aprendendo tudo o que podia sobre como as perspectivas queer e trans poderiam ir além daquilo que me havia sido apresentado em meu lugar de origem. Vi grandes eventos celebrando publicamente as vidas trans e desejei profundamente que São Paulo também tivesse algo assim — especialmente para as pessoas mais jovens, que talvez nem soubessem que um espaço como esse poderia existir. Um espaço onde pudéssemos existir com orgulho, reivindicar nosso lugar na cidade e celebrar nossas vidas sem pedir permissão. Com a colaboração de uma equipe, criamos a Marcha em 2018 e fizemos história ao realizar a primeira Marcha do Orgulho Trans da América Latina. Ao longo de oito edições, ela cresceu e se tornou a maior iniciativa do gênero na região, gerando oportunidades de trabalho, formação e desenvolvimento profissional para pessoas queer e trans. 

Nunca me apresentei como líder ou representante máximo do movimento trans, dos movimentos sociais ou da comunidade trans em sua diversidade. Minha trajetória sempre foi a de uma pessoa trans que tem paixão por criar e  empreender, e que criou organizações e reuniu condições para imaginar, produzir e entregar um evento dessa dimensão. Atuei como produtor visionário: alguém capaz de transformar uma ideia em projeto, mobilizar pessoas, articular recursos e construir uma plataforma para que muitas vozes, experiências e talentos pudessem ocupar o espaço público. Isso não significa falar em nome de toda uma comunidade, mas assumir com responsabilidade o papel que desempenhei na criação e na entrega que fizemos ano após ano. 

Nada disso foi realizado por uma única pessoa. Essa história foi construída por muitas mãos: inúmeros coletivos, equipes, artistas, profissionais, organizações parceiras, patrocinadores e pessoas da comunidade. Uma enorme quantidade de trabalho sempre aconteceu nos bastidores: reuniões, negociações, desenvolvimento de projetos, captação de recursos, produção, segurança, comunicação, prestação de contas, apoio e cuidado. Transformar uma ideia em uma estrutura capaz de acolher milhares de pessoas e oferecer educação, trabalho e formação para uma equipe exigiu visão de longo prazo, compromisso e recursos.

Desde o início, essa trajetória foi moldada pelo diálogo e pela negociação com diferentes grupos, porque nenhuma iniciativa comunitária deve se fechar em si mesma. Essas conversas nem sempre foram fáceis; os conflitos e as críticas, por outro lado, surgiram com facilidade. Ainda assim, construímos ótimas colaborações com projetos e pessoas que compreenderam a importância e a dimensão coletiva da iniciativa. Ao mesmo tempo, sempre existiram grupos que preferiram a oposição e acreditaram que aquilo que estávamos construindo não era bom o suficiente ou estava equivocado em suas intenções e em sua execução. 

As críticas são bem-vindas quando contribuem para o aprimoramento do projeto e para o fortalecimento da construção coletiva. Nenhuma iniciativa dessa dimensão está acima de questionamentos, e sempre estivemos dispostes a ouvir, refletir, rever decisões e aprender. Entretanto, existe uma diferença entre a crítica construtiva e as manifestações que buscam destruir, deslegitimar ou apagar uma trajetória, especialmente quando partem de dentro da nossa própria comunidade.

É possível discordar de nossas decisões e esforços, o mundo em que vivemos hoje é muito diferente daquele de oito anos atrás, e é impossível compreender tudo o que mudou sem ter participado dessa trajetória e dessa luta. É possível defender diferentes modelos de organização sem descredibilizar quem veio antes. Também é possível criar novas marchas, paradas, fóruns, assembleias e movimentos, e nunca enxerguei outras iniciativas como ameaças. Desejo que surjam cada vez mais iniciativas trans, sobretudo nas comunidades periféricas e nos territórios em que as instituições públicas e os recursos ainda são insuficientes. Quanto mais pessoas trans se organizarem, celebrarem suas vidas e criarem novos caminhos, melhor. O que defendo é que essa expansão aconteça de maneira coletiva, ética, respeitosa e responsável, reconhecendo nossas diferentes trajetórias.

Quando a Marcha começou, não éramos bem-vindes nos grandes eventos de Orgulho. Mas eu queria mostrar que as pessoas trans também eram dignas de uma grande celebração, uma produção de grande porte que refletisse a importância da nossa presença. O desenvolvimento da Marcha carrega um legado de memória, trabalho, relações e responsabilidades institucionais; algo sobre o qual podemos continuar construindo, com o qual podemos aprender e que podemos fazer evoluir, em vez de apagar. Preocupo-me profundamente com esse legado, Não se pode controlar o futuro, muito menos o passado, mas eu e milhares de pessoas testemunharam a realização, mas porque testemunhei o quanto tantas pessoas trabalharam para chegarmos até aqui e acredito que podemos continuar construindo a partir dessa história. Sempre terei um compromisso profundo com a preservação da história e do legado de tudo , e de todas as pessoas, que tornaram essa trajetória possível.

Hoje, quando olho para a Vila Inglesa, o lugar onde a minha caminhada começou, reconheço a distância que percorri, não apenas em quilômetros, mas também em experiências, aprendizados e transformações. Carrego comigo a pessoa trans da periferia que precisou imaginar uma realidade diferente antes mesmo de saber como alcançá-la.

Minha trajetória e minha história não são perfeitas, mas não precisam ser. Esta é a trajetória de alguém que escolheu transformar escassez em criação, ausência em presença e exclusão em possibilidade, algo que desejo para todas as pessoas que vivenciam circunstâncias semelhantes. Foi assim que nasceu o Instituto [SSEX BBOX]. Foi assim que nasceu a Marcha do Orgulho Trans de São Paulo.

E é com esse mesmo compromisso que continuo: reconhecendo os conflitos, acolhendo as críticas honestas, protegendo a memória do que construímos e acreditando que pessoas trans podem — e devem — ocupar todos os territórios, inclusive os territórios da prosperidade, da liderança e da abundância. A decisão de deixar de realizar a Marcha nunca teve relação com lucro ou percepção pública, mas com o reconhecimento de que existe uma oportunidade de crescimento para além daquilo que posso oferecer. Acredito que a melhor maneira de gerar e compartilhar o crescimento coletivo, neste momento, é disponibilizar o evento para que novos grupos possam desenvolver, dentro dele, seus próprios sonhos e suas próprias visões. A luta não é visível nos resultados finais, e administrar uma organização como o [SSEX BBOX] ou realizar um evento como a Marcha está longe de ser suficiente para escapar completamente da escassez. Mas isso proporcionou a mim e a outras pessoas envolvidas oportunidades extraordinárias, que espero que outras também encontrem na próxima fase dessa história. E, na maior parte do tempo, posso levar minha mãe para comer no McDonald’s , algo que nunca considero garantido. Acredito que pessoas trans podem ser e fazer qualquer coisa e que merecemos plataformas globais que celebrem nossas identidades espetaculares, nossa dedicação, nossa coragem, nossas habilidades e nossos talentos. Acredito verdadeiramente que as pessoas trans são o futuro. E espero celebrar todas as formas pelas quais esse futuro será construído.

COLUNISTA

PRI BERTUCCI

Lyon Adryan Ror

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Lyon Adryan Ror (Aka Pri Bertucci) é artista social visionárie e pós-ativista, dedicou mais de duas décadas trabalhando na interseção da diversidade, empreendedorismo e arte. Lyon A. Ror atua como CEO da [DIVERSITY BBOX], uma consultoria especializada em educação e inovação, e é fundadore do Instituto [SSEX BBOX], um projeto pioneiro sobre gênero e sexualidade que tem sido uma plataforma para justiça social em San Francisco, São Paulo, Berlim e Barcelona desde 2009. Lyon A. Ror também é reconhecide como um dos principais pioneiros do acrônimo LGBTQIA+ no Brasil desde 2013. Como palestrante, educadore e pesquisadore de renome internacional, Lyon A. Ror tem um compromisso profundo com o fomento do pertencimento e compreensão através das fronteiras culturais e pessoais. Identifica-se como pessoa não branca, trans não binária/gender queer e desafia as normas sociais. Celebrado internacionalmente como o pioneiro e co-criador do “SISTEMA ILE”, o primeiro pronome de linguagem neutra em português, Lyon A. Ror facilitou ativamente a introdução do sufixo neutro ‘E’ em palavras da língua portuguesa. Lyon A. Ror é ganhadore dos Prêmios TikTok 2022 e dos Prêmios da Fundação Brasil 2020. Ile também foi indicade para o “Advogado LGBTQIA+ Global do Ano” no Outie Awards de 2022 durante o Out & Equal Summit, o maior evento LGBTQIA+ do mundo. Como idealizadore e produtore executivo da Marcha do Orgulho Trans de São Paulo — o primeiro Trans Pride no Brasil — Lyon A. Ror utiliza suas habilidades criativas e artísticas para envolver-se com questões sociais e promover mudanças sociais. Seu trabalho, que combina arte multimídia, uma abordagem somática e Comunicação Não Violenta (CNV), possibilita a colaboração com pessoas e organizações em suas comunidades, introduzindo novas formas de pensar e ser, enquanto propõe desafios sociais ao mundo. Em 2023, fez uma contribuição significativa quando criou o primeiro tradutor de linguagem neutra em português e participando da criação da primeira inteligência artificial generativa não binária do mundo.
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No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.

As ações do Instituto incluem apresentar ferramentas, conteúdos educacionais, e soluções estratégicas visando o exercício do olhar interseccional para grupos sub-representados. Nossas atividades tiveram início em 2009, a partir de uma série de webdocumentários educacionais que exploram temas da sexualidade e gênero para promover mudanças sociais com base nos direitos humanos.

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