Fotógrafo usa homofobia familiar como combustível para arte e transforma pai em drag
O que acontece quando um filho gay, que cresceu em uma fazenda no interior tentando corresponder às expectativas de masculinidade impostas pela família e pela comunidade, convida o próprio pai, um homem do campo, de origem humilde e valores conservadores, a se despir de preconceitos a partir da arte drag?
É a partir desta premissa que Danilo Zocatelli Cesco, de 37 anos, artista brasileiro radicado em Londres, constrói “Querido Pai”, uma série fotográfica que investiga masculinidade, memória, afeto e identidade queer a partir da relação com seu pai, Joãozinho, de 63.
O trabalho mais recente do artista, com curadoria de Renato Negrão, chegou ao Brasil neste sábado (12), na Galeria O Jardim, em São Paulo, e estará em exposição até o dia 17 de outubro.
Em entrevista à coluna, Zocatelli aborda os bastidores do projeto, sua infância no interior do Paraná, cercado de heteronormatividade, sua ida a Londres, onde concluiu um mestrado em fotografia pelo Royal College of Art, a mais prestigiada escola de artes do mundo, e sua experiência como uma pessoa queer imigrante.

Danilo Zocatelli Cesco (Divulgação)
[SSEXBBOX]: A ideia da exposição parte de experiências homofóbicas que você viveu em sua cidade natal, Marialva, no interior do Paraná, correto? Você chegou a citar o termo “golo” como parte das ofensas que recebia. Pode explicar a palavra e falar um pouco sobre essa experiência LGBTfóbica rural?
Zocatelli: “Esse termo ‘golo’ começou como um ponto de partida para dois projetos: ‘VIADO’ e ‘Querido Pai’. É uma palavra que está no ‘dialeto’ da minha família paterna, que veio da Itália. Quando chegaram ao Brasil, eles pararam de falar italiano, porém algumas palavras foram transformadas em expressões de sentimentos bons e ruins. ‘Golo’ significa ‘viado’, ‘viadinho’. Se você tivesse cabelo comprido, era ‘golo’; se tivesse brinco, era ‘golo’; se tivesse tatuagem, era ‘golo’. Sofri uma homofobia bem velada, de exclusão. Poucas vezes foi algo falado na minha cara. Me sentia um pouco deslocado e ficava distante daqueles rituais familiares. Em ‘Querido Pai’, nós recriamos essas experiências: o momento em que meu pai mata o carneiro, em que cuida da terra, em que joga futebol… São todas partes que perdi por estar ‘de fora’, não conectado com aquele ambiente, com aquele vínculo familiar. Assim, como toda criança-viado, passei homofobia na escola. Quando ‘saí do armário’, que fui ‘tirado’, na verdade, todos os meus amigos pararam de falar comigo. Fui filmado beijando um menino.”
[SSEXBBOX]: “Querido Pai” está em desenvolvimento desde 2023, correto? Como foi a reação do seu pai ao ouvir a proposta? Você optou por realizar a maquiagem nele. Como foi a experiência?
Zocatelli: “‘Querido Pai’ nasceu quando comecei meu mestrado no Royal College of Art, em 2023. Eu tinha a vontade de criar algo que fosse muito importante, que fosse deixar meu nome. A gente que é viado gosta de chocar, né? Eu já vinha pensando sobre a minha família. Eu queria olhar de volta para a minha casa e a imagem do meu pai matando o carneiro apareceu na minha cabeça. Eu pensei: ‘Nossa, eu tenho acesso a essa família, a esse homem, a essa realidade que ninguém aqui a minha volta tem’. O fato do meu pai estar em drag é porque na época eu trabalhava no Royal Vauxhall Tavern, um dos pubs gays mais antigos da Inglaterra. É o pub onde a Princesa Diana ia disfarçada com o Freddie Mercury. Eu estava trabalhando como videógrafo de uma apresentação burlesca e muito influenciado pela cultura gay, queer e drag, sabe? Morava, inclusive, com uma drag, a Vick Diamond, minha melhor amiga. Ela me ensinou a fazer a maquiagem. Testei primeiro no meu namorado e depois na própria Vick. Quando liguei para meu pai, para falar do projeto, contei um pouco sobre a minha história. Não estávamos tão conectados como agora. ‘Papi, eu preciso que o senhor me ajude. Não vai ser fácil. Nós vamos falar de coisas que nunca falamos antes, provavelmente vamos chorar. Mas a gente vai ter que ser forte. E isso inclui pintar o seu rosto em drag com maquiagem’. Ele foi muito sábio. ‘Eu só faço se você me trazer uma peruca bonita e uma pra sua mãe’. Entre a ligação e as fotos, foi tudo muito rápido, cerca de um mês e meio ou dois. Fiquei duas semanas no Brasil fotografando e o coloquei em drag cinco vezes. Quando voltei para Inglaterra, tinha quase 3 mil fotos e não sabia o que fazer. Lembro de me sentir muito ansioso, eu sabia que tinha uma história, mas como ela iria tomar forma? Ainda não sabia.”

‘Querido Pai, parece que ir embora foi necessário para que eu entendesse que precisava voltar’, trecho da carta escrita por Zocatelli a seu pai e que compõe a exposição (Divulgação)

‘Querido Pai, Te olhar na sua roupa de sítio com a cara pintada e usando uma peruca enorme foi como todo filho deveria ver seu pai um herói’, trecho da carta escrita por Zocatelli a seu pai e que compõe a exposição (Divulgação)
[SSEXBBOX]: Na exposição você também utiliza o recurso da escrita como apoio às fotografias. Por que a escolha desta ferramenta? Se trata de uma carta sua a seu pai, correto?
Zocatelli: “Uma professora me disse que eu tinha que pensar no nome da obra. ‘Você tem que informar para as pessoas que esse homem é seu pai’. Um dia, cheguei em casa, depois da aula de mestrado e, do nada, escrevi uma carta. Depois de uns dias, eu imprimi. Um dia, chego em casa, e minha amiga drag, Vick, estava chorando. Ela tinha lido a carta. Eu mostrei a carta para meu namorado, ele chorou muito também. Essa carta não era algo que deveria se tornar público, era para mim, para entender o que eu estava passando. Traduzi a carta e mostrei para a minha professora, que entrou em prantos. A carta se tornou um ‘fenômeno’, todas as pessoas que liam, choravam. O título era: ‘Querido Pai’. ‘Está aí!’, pensei na época. Queria que cada imagem na exposição tivesse um pedaço dessa carta. Dividi o texto e os fragmentos viraram os títulos das obras. Hoje em dia eu ofereço uma cópia da carta para as pessoas que vão à exposição. Geralmente elas não leem a carta no local, o que vira uma continuação. Recebo muitas mensagens depois sobre a carta. Ela se tornou esse pedaço importantíssimo da obra, já foi traduzida para cinco idiomas, porém, nunca vai ter o peso que tem em português.”
Zocatelli maquiando o pai em vídeo com a leitura da carta em inglês.
[SSEXBBOX]: Para o Brasil, há alguma adaptação ou modificação da exposição? Ou algo novo?
Zocatelli: “Vamos ter um painel com fotos nunca mostradas antes, incluindo imagens da casa e de todo o processo que envolve o projeto. Também será a primeira vez que meu pai e minha mãe vão ver as obras expostas pessoalmente, que meu pai vai poder olhar para as fotos na parede. No dia 16 de setembro, vou fazer, pela primeira vez, uma fala mais detalhada sobre os bastidores de ‘Querido Pai’. Vou trazer fotos do meu sketchbook e contar o processo todo de criação do projeto, algo que ainda não fiz da forma que irei fazer”.

‘Querido Pai, quero olhar para você e ver meu reflexo me olhando de volta, como um espelho’, trecho da carta escrita por Zocatelli a seu pai e que compõe a exposição (Divulgação)

‘Eu lembro de algumas vezes entrar no vestiário, as camisetas de time penduradas na parede verde’, trecho da carta escrita por Zocatelli a seu pai e que compõe a exposição (Divulgação)
[SSEXBBOX]: O que a ida a Londres representou na sua experiência de identidade queer? Como essa vivência no exterior influencia seu trabalho?
Zocatelli: “Eu estou em Londres há 14 anos, me mudei para lá em 2012, eu tinha 22. Concluí o mestrado em 2024 e agora nesse mês começo o doutorado. A minha experiência como pessoa queer em Londres mudou totalmente a minha vida. Acho que expandiu o meu nível de entendimento sobre queeridade a um patamar que imagino que ainda não conseguimos chegar no Brasil, infelizmente. Lá eu senti o que é realmente fazer parte de uma comunidade sem divisões. Na Inglaterra, foi a primeira vez que fui a um show de drag. Foi a primeira vez que comecei a entender quais são as vertentes, os gêneros e as formas de expressões da nossa comunidade e como ela se solidifica e funciona dentro da sociedade. Hoje me sinto um homem gay queer, ou melhor, um homem queer. É muito interessante se sentir dessa forma.”
[SSEXBBOX]: E como foi retornar ao Brasil depois deste período fora e da transformação que experienciou em Londres?
Zocatelli: “Voltar para o Brasil é sempre mágico. Eu gosto muito de voltar para cá. Eu costumo falar que começo a voltar quando ainda estou no aeroporto lá em Londres. O brasileiro é diferente, né? Eu sou brasileiro, não nego, eu vivo a minha brasilidade da minha forma, mas também quando estou na Inglaterra eu vivo lá; existe uma separação inconsciente. Quando comecei a criar esse projeto [Querido Pai], não imaginei que poderia mudar tantas vidas. Eu fiz com a intenção de mudar a minha. Virou um ponto de partida, de conversa. Quando estou na galeria, sou abordado o tempo todo. Ouço histórias lindas e muito tristes também. As pessoas pedem conselhos. Elas se abrem e se sentem livres para poderem falar sobre elas, sobre suas experiências. Então, quando descobri que ‘Querido Pai’ tinha esse poder lá fora, eu pensei: ‘Preciso que volte ao Brasil’. Esse projeto é para a minha comunidade queer brasileira, para toda criança-viada que sofreu e passou por tudo o que eu passei. Eu não consigo mensurar em palavras o quão importante é estar de volta a este país.”
[SSEXBBOX]: “Reimaginando a família, a masculinidade e a paisagem” são temas que passam pelos seus trabalhos. Gostaria de tratar especificamente do conceito “Nature queer”, que você cita como parte das suas exibições. Poderia explicar o termo e a relação dele com seus projetos?
Zocatelli: “Em boa parte da minha vida fui guiado a olhar as coisas através de olhos que não eram os meus. Então, hoje, tudo o que olho, tento refletir através de uma perspectiva queer. Acho que é muito sobre isso, reimaginar, né? Mesmo quando estamos sob comandos de outros, com visões diferentes da nossa, a gente ainda tem o poder de reimaginar aquilo da nossa forma. ‘Querido Pai’ me trouxe de volta para o sítio, me fez olhar novamente para as minhas raízes. Mexi muito com terra, fui no mandiocal do meu pai, fiz cultura de argila, teve o crochê da minha mãe… Comecei a olhar para a natureza e me entendendo como um ser que nasceu e cresceu nela. Depois que terminei o projeto e meu mestrado, me mudei para o interior da Inglaterra. Hoje moro em Lymington, uma cidade ao mar e dentro de uma floresta, a maior reserva natural da Inglaterra, a Newforest. Essa mudança partiu de uma vontade de começar a enxergar a natureza através de uma perspetiva queer. ‘Nature queer’ é um conceito relativamente novo e isso me deu vontade de começar a explorar. No meu primeiro projeto, ‘VIADO’, por exemplo, uso a natureza como um plano de fundo, como uma espécie de colaboradora. A natureza é um espaço onde não existe julgamento, não existe gênero e que pode ser reinventado, recriado através das suas próprias perspectivas. É um espaço neutro. É a ideia do ser humano se igualar e estar naquele mesmo espaço. Existe um olhar igualitário, é uma experiência ‘nossa’.”

‘Posso ser um monstro para você, mas é quando mais sou eu mesmo’. Imagem e texto da exposição ‘VIADO’ (Divulgação)
SERVIÇO
Exposição: Querido Pai, de Danilo Zocatelli
Curador: Renato Negrão
Local: O Jardim, galeria de arte
Endereço: Rua Ilansa, 185, Mooca – São Paulo/ SP
Horário: 15h – 20h
Período de visitação: 12/09 a 17/10