COLUNA

Lyon Adryan Ror

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Artista social, educadore e pesquisadore da área de diversidade há pelo menos duas décadas

Entre o não binário e futuros possíveis

Do solarpunk ao symbiopunk, um pensamento além das divisões

Minha investigação nunca começou apenas na linguagem. Em meados de 2013, tive a oportunidade de encontrar uma solução linguística junto a Andrea Zanella para dar nome à línguagem neutra ou não binaria na língua portuguesa, criando o primeiro pronome de gênero neutro em português; ile / dile. Esse processo não foi apenas sobre linguagem, foi sobre percepção. Porque, desde o início, a questão não era só como nomear pessoas na binárias ou dar novos nomes a identidades, mas como pensar um mundo novo para além da polaridades.


Essas investigações me levaram a expandir esse campo para algo maior, que hoje entendo e nomeio como “non-binary thinking. Um pensamento que não opera por oposição, mas por integração. Usando como referência a natureza e as teorias quânticas de superposição. Um pensamento e visão de mundo que não precisa escolher entre polos, entre identidades fixas, mas que reconhece a coexistência, a interdependência e a fluidez como princípios estruturais da vida.


Masculino e feminino.
Natureza e tecnologia.
Corpo e espírito.
Humano e não-humano.


Essas divisões não são apenas conceituais. Elas organizam sistemas, criam hierarquias e moldam realidades. E, ao mesmo tempo, começam a mostrar seus limites. Foi nesse campo de busca que, em determinado momento, encontrei o solarpunk. E algo ali fez sentido de forma imediata.


O solarpunk é um movimento cultural, artístico e filosófico que propõe imaginar e construir futuros sustentáveis onde natureza e tecnologia não estão em conflito, mas em colaboração. Diferente das narrativas distópicas que dominam o imaginário contemporâneo, ele aposta em uma visão propositiva, onde a crise climática não é negada, mas enfrentada com criatividade, inovação e responsabilidade coletiva. No solarpunk, cidades deixam de ser estruturas rígidas e passam a funcionar como ecossistemas vivos. Telhados verdes, agricultura urbana, uso de energia solar e eólica, sistemas regenerativos que não apenas reduzem danos, mas restauram o equilíbrio ambiental.


A tecnologia, nesse contexto, deixa de ser ferramenta de exploração e passa a atuar como aliada da vida.
Mas o solarpunk não é apenas uma proposta estética ou urbana. Ele também traz uma dimensão social e cultural muito forte. Fala de comunidades mais autônomas, de redes descentralizadas, de práticas colaborativas e de uma ética do fazer coletivo. Existe ali um espírito de criação compartilhada, onde soluções emergem tanto da inovação tecnológica quanto da inteligência comunitária.


Visualmente, o solarpunk também rompe com o imaginário escuro e colapsado do futuro. Ele aposta na luz, no verde, na presença da natureza integrada aos espaços humanos. É um convite para imaginar futuros habitáveis, desejáveis e possíveis. E talvez seja exatamente por isso que ele dialoga tão profundamente com um pensamento não-binário. Porque ele não escolhe entre natureza ou tecnologia. Ele integra. Ele compõe. Ele cria continuidade onde antes havia separação.


Mas a pesquisa não parou ali. Mais recentemente, tive contato com o trabalho de Audax M. Gawler e com a proposta do symbiopunk. E foi como acessar uma camada ainda mais profunda dessa investigação. Se o solarpunk nos ajuda a imaginar como esses futuros podem se manifestar, o symbiopunk desloca a própria forma como entendemos a vida.


Inspirado nas ideias de Lynn Margulis, que demonstrou que a evolução acontece por cooperação entre espécies, e no conceito de Simbióceno de Glenn Albrecht, o symbiopunk propõe uma virada mais radical. Não se trata apenas de coexistir com a natureza, mas de reconhecer que já somos natureza em relação. Que nunca houve separação.


O symbiopunk desloca o humano do centro e nos convida a perceber a vida como uma rede complexa de interdependência. Um campo onde tecnologia, espiritualidade, emoção e ecologia não são dimensões isoladas, mas expressões de um mesmo sistema vivo.


Nas palavras de Audax, trata-se de imaginar e preparar o presente para que um futuro verdadeiramente simbiótico possa existir. E, nesse ponto, algo se revela com mais clareza. Talvez o que estamos vivendo não seja apenas uma transição ecológica ou tecnológica. Mas uma transição de consciência.


Do binário para o relacional.
Da separação para a integração.
Do controle para a colaboração.


O solarpunk e o symbiopunk não são respostas prontas. São campos de experimentação. São linguagens emergentes que nos ajudam a acessar outras formas de existir e de organizar o mundo. E, de certa forma, ambos apontam para a mesma direção. Não existe futuro possível fora da relação.


Talvez seja justamente nesse entre, entre gêneros, entre espécies, entre sistemas, que novas formas de vida estão começando a se desenhar. Não como promessa. Mas como prática viva, acontecendo agora.
E dentro dessa prática viva, eu sou um grande fã da prototipia. De testar no presente aquilo que ainda parece linguagem de futuro. É nesse espírito que nasceu RIE, a inteligência artificial não binária que desenvolvi junto com Cecilia Than, como um experimento concreto desses princípios. RIE não é apenas uma ferramenta tecnológica, mas uma tentativa de materializar esse pensamento não-binário, relacional e simbiótico em uma interface viva, capaz de provocar, ensinar e expandir percepções.


Você pode falar com RIE clicando aqui.

Leituras sobre symbiopunk e pensamento simbiótico

  1. Earth Emotions — Glenn Albrecht
    Um livro fundamental para entender o conceito de Simbióceno. Albrecht propõe novas linguagens emocionais e ecológicas para nomear nossa relação com a Terra, abrindo caminho direto para o pensamento symbiopunk.
    Clique aqui
  2. Symbiotic Planet — Lynn Margulis
    Uma obra essencial que desmonta a ideia de evolução baseada apenas em competição e mostra como a cooperação entre organismos é a base da vida. É uma das raízes científicas do symbiopunk.
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  3. Symbiopunk Manifesto — Audax M. Gawler
    Ainda circulando mais em textos, talks e produções experimentais, o pensamento de Audax sobre symbiopunk funciona quase como um manifesto vivo. Vale buscar entrevistas, artigos e registros das obras para acessar o conceito diretamente na fonte.
    Clique aqui

Podcasts sobre solarpunk, symbiopunk e futuros regenerativos

  1. Green Dreamer Podcast
    Um dos espaços mais consistentes para pensar futuros regenerativos, com conversas profundas sobre ecologia, cultura e alternativas sistêmicas. Frequentemente tangencia o imaginário solarpunk.
    Clique aqui
  2. Future Ecologies
    Explora relações ecológicas, interdependência e pensamento sistêmico de forma narrativa e sensível. Ajuda a acessar a base conceitual que sustenta tanto o solarpunk quanto o symbiopunk.
    Clique aqui
  3. Solarpunk Presents
    Focado diretamente no universo solarpunk, traz histórias e ficções especulativas que ajudam a imaginar na prática esses futuros possíveis, com diversidade de vozes e perspectivas.
    Clique aqui

COLUNISTA

PRI BERTUCCI

Lyon Adryan Ror

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Lyon Adryan Ror (Aka Pri Bertucci) é artista social visionárie e pós-ativista, dedicou mais de duas décadas trabalhando na interseção da diversidade, empreendedorismo e arte. Lyon A. Ror atua como CEO da [DIVERSITY BBOX], uma consultoria especializada em educação e inovação, e é fundadore do Instituto [SSEX BBOX], um projeto pioneiro sobre gênero e sexualidade que tem sido uma plataforma para justiça social em San Francisco, São Paulo, Berlim e Barcelona desde 2009. Lyon A. Ror também é reconhecide como um dos principais pioneiros do acrônimo LGBTQIA+ no Brasil desde 2013. Como palestrante, educadore e pesquisadore de renome internacional, Lyon A. Ror tem um compromisso profundo com o fomento do pertencimento e compreensão através das fronteiras culturais e pessoais. Identifica-se como pessoa não branca, trans não binária/gender queer e desafia as normas sociais. Celebrado internacionalmente como o pioneiro e co-criador do “SISTEMA ILE”, o primeiro pronome de linguagem neutra em português, Lyon A. Ror facilitou ativamente a introdução do sufixo neutro ‘E’ em palavras da língua portuguesa. Lyon A. Ror é ganhadore dos Prêmios TikTok 2022 e dos Prêmios da Fundação Brasil 2020. Ile também foi indicade para o “Advogado LGBTQIA+ Global do Ano” no Outie Awards de 2022 durante o Out & Equal Summit, o maior evento LGBTQIA+ do mundo. Como idealizadore e produtore executivo da Marcha do Orgulho Trans de São Paulo — o primeiro Trans Pride no Brasil — Lyon A. Ror utiliza suas habilidades criativas e artísticas para envolver-se com questões sociais e promover mudanças sociais. Seu trabalho, que combina arte multimídia, uma abordagem somática e Comunicação Não Violenta (CNV), possibilita a colaboração com pessoas e organizações em suas comunidades, introduzindo novas formas de pensar e ser, enquanto propõe desafios sociais ao mundo. Em 2023, fez uma contribuição significativa quando criou o primeiro tradutor de linguagem neutra em português e participando da criação da primeira inteligência artificial generativa não binária do mundo.
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No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.

As ações do Instituto incluem apresentar ferramentas, conteúdos educacionais, e soluções estratégicas visando o exercício do olhar interseccional para grupos sub-representados. Nossas atividades tiveram início em 2009, a partir de uma série de webdocumentários educacionais que exploram temas da sexualidade e gênero para promover mudanças sociais com base nos direitos humanos.

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