Do solarpunk ao symbiopunk, um pensamento além das divisões
Minha investigação nunca começou apenas na linguagem. Em meados de 2013, tive a oportunidade de encontrar uma solução linguística junto a Andrea Zanella para dar nome à línguagem neutra ou não binaria na língua portuguesa, criando o primeiro pronome de gênero neutro em português; ile / dile. Esse processo não foi apenas sobre linguagem, foi sobre percepção. Porque, desde o início, a questão não era só como nomear pessoas na binárias ou dar novos nomes a identidades, mas como pensar um mundo novo para além da polaridades.
Essas investigações me levaram a expandir esse campo para algo maior, que hoje entendo e nomeio como “non-binary thinking. Um pensamento que não opera por oposição, mas por integração. Usando como referência a natureza e as teorias quânticas de superposição. Um pensamento e visão de mundo que não precisa escolher entre polos, entre identidades fixas, mas que reconhece a coexistência, a interdependência e a fluidez como princípios estruturais da vida.
Masculino e feminino.
Natureza e tecnologia.
Corpo e espírito.
Humano e não-humano.
Essas divisões não são apenas conceituais. Elas organizam sistemas, criam hierarquias e moldam realidades. E, ao mesmo tempo, começam a mostrar seus limites. Foi nesse campo de busca que, em determinado momento, encontrei o solarpunk. E algo ali fez sentido de forma imediata.
O solarpunk é um movimento cultural, artístico e filosófico que propõe imaginar e construir futuros sustentáveis onde natureza e tecnologia não estão em conflito, mas em colaboração. Diferente das narrativas distópicas que dominam o imaginário contemporâneo, ele aposta em uma visão propositiva, onde a crise climática não é negada, mas enfrentada com criatividade, inovação e responsabilidade coletiva. No solarpunk, cidades deixam de ser estruturas rígidas e passam a funcionar como ecossistemas vivos. Telhados verdes, agricultura urbana, uso de energia solar e eólica, sistemas regenerativos que não apenas reduzem danos, mas restauram o equilíbrio ambiental.
A tecnologia, nesse contexto, deixa de ser ferramenta de exploração e passa a atuar como aliada da vida.
Mas o solarpunk não é apenas uma proposta estética ou urbana. Ele também traz uma dimensão social e cultural muito forte. Fala de comunidades mais autônomas, de redes descentralizadas, de práticas colaborativas e de uma ética do fazer coletivo. Existe ali um espírito de criação compartilhada, onde soluções emergem tanto da inovação tecnológica quanto da inteligência comunitária.
Visualmente, o solarpunk também rompe com o imaginário escuro e colapsado do futuro. Ele aposta na luz, no verde, na presença da natureza integrada aos espaços humanos. É um convite para imaginar futuros habitáveis, desejáveis e possíveis. E talvez seja exatamente por isso que ele dialoga tão profundamente com um pensamento não-binário. Porque ele não escolhe entre natureza ou tecnologia. Ele integra. Ele compõe. Ele cria continuidade onde antes havia separação.
Mas a pesquisa não parou ali. Mais recentemente, tive contato com o trabalho de Audax M. Gawler e com a proposta do symbiopunk. E foi como acessar uma camada ainda mais profunda dessa investigação. Se o solarpunk nos ajuda a imaginar como esses futuros podem se manifestar, o symbiopunk desloca a própria forma como entendemos a vida.
Inspirado nas ideias de Lynn Margulis, que demonstrou que a evolução acontece por cooperação entre espécies, e no conceito de Simbióceno de Glenn Albrecht, o symbiopunk propõe uma virada mais radical. Não se trata apenas de coexistir com a natureza, mas de reconhecer que já somos natureza em relação. Que nunca houve separação.
O symbiopunk desloca o humano do centro e nos convida a perceber a vida como uma rede complexa de interdependência. Um campo onde tecnologia, espiritualidade, emoção e ecologia não são dimensões isoladas, mas expressões de um mesmo sistema vivo.
Nas palavras de Audax, trata-se de imaginar e preparar o presente para que um futuro verdadeiramente simbiótico possa existir. E, nesse ponto, algo se revela com mais clareza. Talvez o que estamos vivendo não seja apenas uma transição ecológica ou tecnológica. Mas uma transição de consciência.
Do binário para o relacional.
Da separação para a integração.
Do controle para a colaboração.
O solarpunk e o symbiopunk não são respostas prontas. São campos de experimentação. São linguagens emergentes que nos ajudam a acessar outras formas de existir e de organizar o mundo. E, de certa forma, ambos apontam para a mesma direção. Não existe futuro possível fora da relação.
Talvez seja justamente nesse entre, entre gêneros, entre espécies, entre sistemas, que novas formas de vida estão começando a se desenhar. Não como promessa. Mas como prática viva, acontecendo agora.
E dentro dessa prática viva, eu sou um grande fã da prototipia. De testar no presente aquilo que ainda parece linguagem de futuro. É nesse espírito que nasceu RIE, a inteligência artificial não binária que desenvolvi junto com Cecilia Than, como um experimento concreto desses princípios. RIE não é apenas uma ferramenta tecnológica, mas uma tentativa de materializar esse pensamento não-binário, relacional e simbiótico em uma interface viva, capaz de provocar, ensinar e expandir percepções.
Você pode falar com RIE clicando aqui.
Leituras sobre symbiopunk e pensamento simbiótico
- Earth Emotions — Glenn Albrecht
Um livro fundamental para entender o conceito de Simbióceno. Albrecht propõe novas linguagens emocionais e ecológicas para nomear nossa relação com a Terra, abrindo caminho direto para o pensamento symbiopunk.
Clique aqui - Symbiotic Planet — Lynn Margulis
Uma obra essencial que desmonta a ideia de evolução baseada apenas em competição e mostra como a cooperação entre organismos é a base da vida. É uma das raízes científicas do symbiopunk.
Clique aqui - Symbiopunk Manifesto — Audax M. Gawler
Ainda circulando mais em textos, talks e produções experimentais, o pensamento de Audax sobre symbiopunk funciona quase como um manifesto vivo. Vale buscar entrevistas, artigos e registros das obras para acessar o conceito diretamente na fonte.
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Podcasts sobre solarpunk, symbiopunk e futuros regenerativos
- Green Dreamer Podcast
Um dos espaços mais consistentes para pensar futuros regenerativos, com conversas profundas sobre ecologia, cultura e alternativas sistêmicas. Frequentemente tangencia o imaginário solarpunk.
Clique aqui - Future Ecologies
Explora relações ecológicas, interdependência e pensamento sistêmico de forma narrativa e sensível. Ajuda a acessar a base conceitual que sustenta tanto o solarpunk quanto o symbiopunk.
Clique aqui - Solarpunk Presents
Focado diretamente no universo solarpunk, traz histórias e ficções especulativas que ajudam a imaginar na prática esses futuros possíveis, com diversidade de vozes e perspectivas.
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