Crescer sendo uma criança gorda e afeminada é um aprendizado diário sobre como as pessoas conseguem ser constantemente cruéis, com intenção ou não. E o pior é que, no meu caso, com exceção do imbecil do meu primo que me perseguia desde criança, gostava de me bater e me colocar apelidos traumatizantes, na época raramente vinha dos moleques da minha idade. Eles podiam até pensar, mas não verbalizavam. Vinha de onde deveria existir algum tipo de acolhimento: da minha própria família, dos amigos dos meus pais, do meu próprio pai e de vizinhos que achavam normal soltar apelidos gordofóbicos e homofóbicos na minha cara, disfarçando, claro, de preocupação ou só porque é socialmente aceito insultar gente gorda. Lembro da primeira vez no Teatro São João em que cantei e, assim que terminei, gritaram da plateia “Filho do Reginaldo!”, que era um professor gordo da Escola de Música da minha cidade, onde estudei por muitos anos, e todo mundo riu. E só porque eu cresci vocês acham que parou? Fui numa festa na capital e vieram me pedir foto, disseram que eu era a Rainha Matos, postaram e marcaram ela, nunca mais fui nessa festa. Essa dinâmica a longo prazo destrói qualquer confiança e provavelmente me fez acreditar, durante muito tempo, que todo mundo era um potencial agressor. Acabei me afastando dos esportes, engordei muito mais e deixei de me apresentar ao vivo, só voltando na faculdade.
Quando fiz 16 anos, a dinâmica mudou assim que caí num colégio de tempo integral que parecia um presídio militar. Se antes o veneno vinha dos adultos, agora o inferno também tinha a minha idade. A pressão para não parecer afetado e tirar nota boa, junto com os hormônios da puberdade, deixou minha cara cheia de espinhas e meu CC era colossal. Sem falar no abismo social: enquanto eu saía do colégio direto para o inglês e para a aula de canto, cursos nos quais eu era bolsista, os outros meninos iam para a academia e para o shopping com suas namoradas. O curso técnico de manutenção automotiva era o ambiente mais hétero possível e eu, uma gayzona militante na época, passei maus bocados ali dentro. A hora do banho era um pesadelo: 45 adolescentes num banheiro que parecia a entrada do inferno. Eles não ficavam confortáveis com um gay ali e eu só queria morrer por me expor daquele jeito. Eu nunca entendia como aqueles moleques tinham tanquinho enquanto eu parecia uma betoneira. Mas eu sempre fui geração incômodo: como posso te incomodar mais? Usava lápis de olho e rímel que pegava da minha mãe, enfrentando aquela hostilidade diária do jeito que podia. Quando finalmente me interessei por um garoto, a diretora mandou ele se afastar de mim porque ele já era marcado por ser outra gay de franja. Só fui descobrir isso anos depois,
e foi devastador. Fui expulsa daquele lugar e aí entra meu pai na história, que adorava gritar na minha cara o quanto eu era feio por ser gordo, todo santo dia. Quando viu que eu não seria o jogador de futebol que ele queria, decidiu que enquanto eu existisse num corpo gordo eu nunca teria paz, o que me fez ter anemia megaloblástica devido à alimentação restritiva e desequilibrada que ele me obrigava a ter. Não vivi nenhum amor adolescente, pelo menos não nesse período, saí de lá me sentindo uma escorraçada aberração monstruosa e doente, e foram precisos anos de terapia e amigos parecidos comigo para eu entender que eu nunca me encaixaria ali, e hoje está tudo bem.
Crescer sem o direito de existir humanamente no imaginário de alguém deixa marcas fundas. Você aprende a consumir histórias que não foram feitas para você, amores que não têm o seu rosto, corpos que não têm o seu peso. É por saber exatamente a dor desse vazio que o boicote cínico a obras como Quinze Dias soa como um tiro no joelho. Afinal, sejamos honestas: na era da banalização de bariátricas, plásticas, chip da beleza, Mounjaro, peeling de fenol e influenciador desinfluenciando, ser um corpo natural é estar exposta a uma pressão que nem é nossa e você não precisa ser gorda pra isso. E lançar um filme em que o protagonista é um adolescente gay gordo que tem como par romântico um rapaz magro pegou onde dói na bolha gay cis do Twitter e do TikTok, gerando um backlash fútil. A dinâmica entre o Felipe (Miguel Lallo), um gay gordinho apaixonante e insuportável na mesma medida, a mãe amorosa Rita (uma Débora Falabella impecável) e o visitante Caio (Diego Lira) é uma das coisas mais lindas que vi desde Alice Júnior. Quinze Dias, longa baseado no bestseller de mesmo nome, usa o pacote completo de comédia adolescente: ritmo rápido, humor de Twitter, estética colorida e uma trilha sonora excelente. Quando tocou “Gives You Hell” do The All-American Rejects, foi como ver a Rachel Berry cantando essa música na cara do Finn em Glee pela primeira vez, fica a dica meus amores, tudo se renova.
E o melhor recurso do roteiro foi a tentativa de recusar a fácil muleta do corpo gordo patologizado. Sendo cria de My Mad Fat Diary, e vendo nos minutos iniciais um flerte direto com o tema, principalmente em relação à saúde mental do Felipe com a piscina e com situações sociais, achei que iria pelo mesmo caminho. Mas ver o Felipe não se vitimizando ou se diminuindo desnecessariamente me fez cair mais rápido nas graças do personagem, horizontalizando no roteiro as inseguranças corporais entre outros personagens da trama e dando motivações palpáveis para superá-las.
Os contrastes entre a dinâmica familiar do casal principal e como as redes de apoio se modificam conforme as relações em casa diferem tornam visível a complementação narrativa muito bem feita em volta do Felipe e do Caio: um é isolado, tímido e inseguro, com uma mãe super amorosa e cuidadosa, enquanto o outro tem pais super rígidos e distantes emocionalmente, mas construiu uma relação com amigas maravilhosas que o abraçam e acolhem. Roteiro bom, direção de arte maravilhosa e trilha sonora marcante, eu realmente gostei do filme.
Mas é impossível resenhar sem ver como a repercussão nas redes escancarou feridas abertas até hoje em tanta gente amargurada. Muita gente no Twitter e no TikTok insistiu em dizer que aquilo jamais aconteceria na vida real, puramente por não aceitarem que um garoto gordo possa ser desejado e amado por um menino magro e dentro do padrão, então, acontece, teve até thread no Twitter com vários casais exemplificados. E mesmo sendo uma pessoa que se permite ter um nível elevado de amargura e que, por exaustão, desistiu de ser amada tem alguns bons anos, eu preciso te dizer que o filme não é feito para você, NÃO É PARA VOCÊ, cacura amargurada do Twitter viciada em pornografia. Existe uma dimensão pautada na realidade fora dos fóruns online em que pessoas gordas são amadas, o que me chamou atenção é que essa pauta só se acopla na comunidade gay cis, não temos essa mesma discussão por exemplo sobre o filme Empire Waist ou Tamanho Real disponível na HBO Max ou no Hairspray, então quando são dois homens, o lugar do corpo gordo imundo surge e todo mundo trata com naturalidade.
Cogitar livremente que um corpo gordo não é desejado é se manter nesse lugar obscuro e preconceituoso. Namorar e se relacionar é muito mais complexo do que a aparência, mas eu sei que você não sabe disso, porque quando o namoro é pautado em aparência ou em apenas uma interpretação unilateral de cor, corpo ou status, não dura muito.
A contradição fica ainda mais escancarada quando essa mesma turma aclama produções hiperidealizadas como Heated Rivalry, Vermelho, Branco e Sangue Azul, qualquer BL da GMMTV, mesmo quando Quinze Dias segue sendo celebrado e apoiado no seu trajeto internacional via streaming. E não meu amor, você não é obrigado a ficar com pessoas gordas, namorar pessoas gordas, ninguém é obrigado a ser feliz, mas você é obrigado a calar a sua boca, principalmente porque não te contempla, você já tem Heartstopper, nem tudo é sobre você. Piadas à parte, se hoje eu tivesse 14 anos novamente, teria sido incrível assistir ao Felipe e me reconhecer nele, me traria um pouquinho de esperança no caminho que eu iria percorrer à frente. Por muitos anos lutamos por representações reais nas telas de pessoas LGBTQIAP+, humanizamos e romantizamos ladrões, serial killers, estelionatários, mas gordo não. Gordo é inadmissível e quando conseguimos um bom exemplo, deixamos as redes de cinema sabotarem e ainda ostracizamos a obra. Quanto orgulho, hein!