COLUNA

Lyon Adryan Ror

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Artista social, educadore e pesquisadore da área de diversidade há pelo menos duas décadas

Ignorâncias naturais e mecanismos de defesa

Movimentos sociais nascem, quase sempre, de dores reais. São respostas coletivas a séculos de violência, invisibilização e exclusão. O movimento trans, em particular, emergiu como um espaço de sobrevivência, resistência e construção de dignidade para pessoas que historicamente foram empurradas para as margens da sociedade. No entanto, como acontece em muitos processos humanos, nem toda dinâmica que surge dentro de um movimento necessariamente fortalece sua missão original.

Um dos fenômenos mais delicados que podem surgir nesse contexto é o encontro entre ignorâncias naturais e mecanismos de defesa psicológicos. Ignorâncias naturais são aquelas limitações humanas inevitáveis: ninguém nasce sabendo tudo, ninguém compreende imediatamente todas as complexidades sociais, e todos estamos em processos contínuos de aprendizagem. Já os mecanismos de defesa são estratégias psíquicas que utilizamos para proteger nosso ego diante da dor, da frustração ou da ameaça.

Em outro texto que escrevi, abordo dois conceitos que ajudam a compreender melhor essas dinâmicas: o narcisismo das pequenas diferenças e aquilo que chamei de a ditadura do mais fraco. O primeiro conceito, inspirado na psicanálise, descreve como grupos muito semelhantes entre si acabam concentrando sua agressividade justamente nas pequenas diferenças internas, criando rivalidades intensas onde, em tese, deveria haver maior identificação e solidariedade. Já a “ditadura do mais fraco” descreve um fenômeno contemporâneo em que determinadas pessoas passam a utilizar pautas sociais legítimas como ferramentas de coerção moral, transformando o sofrimento ou a identidade em um instrumento de poder. Nesses casos, a opressão não ocorre de maneira inconsciente: muitas vezes ela é exercida deliberadamente, movida por medo, ressentimento ou ignorância, como forma de controle dentro do próprio grupo.

Esse tipo de controle também pode ser compreendido através de um outro conceito importante para entender dinâmicas coletivas: o triângulo do drama, descrito pelo psicólogo Stephen Karpman. Nesse modelo, as relações passam a se organizar em três papéis recorrentes: o vilão (ou perseguidor), a vítima e o salvador. O vilão é aquele que é apontado como culpado ou agressor; a vítima é quem ocupa o lugar do sofrimento e da injustiça; e o salvador é quem surge para “corrigir”, “proteger” ou punir o vilão em nome da vítima. O problema é que esses papéis são altamente instáveis e as pessoas frequentemente transitam entre eles. Quem hoje aparece como salvador pode amanhã ser tratado como vilão, e a posição de vítima pode se alternar entre diferentes atores. Em vez de resolver conflitos, esse triângulo mantém o grupo preso em ciclos emocionais de acusação, defesa e heroísmo moral, dificultando processos mais maduros de diálogo, responsabilização e reparação.

Quando esses elementos se encontram em ambientes altamente politizados e emocionalmente carregados, pode surgir uma dinâmica preocupante: a transformação da luta coletiva em disputa interna por legitimidade, espaço e poder simbólico.

Dentro do próprio movimento trans, não é incomum observar situações em que iniciativas, projetos ou lideranças são atacados por outras pessoas do mesmo campo político. Em vez de cooperação, surgem conflitos marcados por acusações públicas, tentativas de deslegitimação e campanhas de isolamento social. Em muitos casos, a disputa deixa de ser sobre ideias ou estratégias e passa a ser sobre quem tem o direito de ocupar o lugar de fala, o reconhecimento ou os recursos disponíveis.

Escrevo sobre isso não apenas como observadore, mas como alguém que tem vivido essas tensões de forma direta. Ao longo de mais de 17 anos de atuação dentro do movimento trans no Brasil, tenho sentido na pele uma quantidade de ataques, deslegitimações e episódios de bullying que, paradoxalmente, nunca experimentei com a mesma intensidade no chamado mundo exterior — o mundo estruturado pelo cis-heteropatriarcado. Essa constatação é dolorosa, porque revela uma contradição profunda: muitas vezes, a violência que esperamos enfrentar fora acaba sendo reproduzida dentro dos próprios espaços que deveriam ser de cuidado, solidariedade e construção coletiva.

Uma metáfora poderosa para compreender esse fenômeno é a do “tanque de caranguejos”.

Quando vários caranguejos são colocados em um balde, nenhum deles consegue escapar. Sempre que um tenta subir para sair, os outros o puxam para baixo. O resultado é que todos permanecem presos.

Essa imagem ilustra um comportamento coletivo no qual a ascensão de uma pessoa ou iniciativa é percebida como ameaça, e não como avanço para o grupo como um todo. Em vez de colaboração, instala-se uma lógica de sabotagem mútua. Cada tentativa de crescimento é interrompida pela força do próprio coletivo.

Esse tipo de dinâmica costuma surgir em ambientes marcados por escassez estrutural — poucos recursos, pouca visibilidade, pouca validação institucional. Quando oportunidades são raras, cresce a sensação de que o sucesso de um representa automaticamente a perda de outro. A cooperação se enfraquece e a competição se intensifica.

Mas há também uma camada mais profunda nesse fenômeno. Muitas dessas dinâmicas podem ser compreendidas como efeitos de patriarcado internalizado. O patriarcado não é apenas um sistema externo de dominação masculina; ele também é um modelo cultural que ensina formas específicas de lidar com poder, conflito e reconhecimento.

Dentro desse modelo, poder é frequentemente associado à hierarquia, à disputa e à eliminação do adversário. Assim, mesmo dentro de movimentos que surgem para desafiar estruturas opressivas, padrões patriarcais podem ser reproduzidos inconscientemente. A lógica deixa de ser comunitária e passa a operar segundo o princípio da competição destrutiva.

COLUNISTA

PRI BERTUCCI

Lyon Adryan Ror

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Lyon Adryan Ror (Aka Pri Bertucci) é artista social visionárie e pós-ativista, dedicou mais de duas décadas trabalhando na interseção da diversidade, empreendedorismo e arte. Lyon A. Ror atua como CEO da [DIVERSITY BBOX], uma consultoria especializada em educação e inovação, e é fundadore do Instituto [SSEX BBOX], um projeto pioneiro sobre gênero e sexualidade que tem sido uma plataforma para justiça social em San Francisco, São Paulo, Berlim e Barcelona desde 2009. Lyon A. Ror também é reconhecide como um dos principais pioneiros do acrônimo LGBTQIA+ no Brasil desde 2013. Como palestrante, educadore e pesquisadore de renome internacional, Lyon A. Ror tem um compromisso profundo com o fomento do pertencimento e compreensão através das fronteiras culturais e pessoais. Identifica-se como pessoa não branca, trans não binária/gender queer e desafia as normas sociais. Celebrado internacionalmente como o pioneiro e co-criador do “SISTEMA ILE”, o primeiro pronome de linguagem neutra em português, Lyon A. Ror facilitou ativamente a introdução do sufixo neutro ‘E’ em palavras da língua portuguesa. Lyon A. Ror é ganhadore dos Prêmios TikTok 2022 e dos Prêmios da Fundação Brasil 2020. Ile também foi indicade para o “Advogado LGBTQIA+ Global do Ano” no Outie Awards de 2022 durante o Out & Equal Summit, o maior evento LGBTQIA+ do mundo. Como idealizadore e produtore executivo da Marcha do Orgulho Trans de São Paulo — o primeiro Trans Pride no Brasil — Lyon A. Ror utiliza suas habilidades criativas e artísticas para envolver-se com questões sociais e promover mudanças sociais. Seu trabalho, que combina arte multimídia, uma abordagem somática e Comunicação Não Violenta (CNV), possibilita a colaboração com pessoas e organizações em suas comunidades, introduzindo novas formas de pensar e ser, enquanto propõe desafios sociais ao mundo. Em 2023, fez uma contribuição significativa quando criou o primeiro tradutor de linguagem neutra em português e participando da criação da primeira inteligência artificial generativa não binária do mundo.
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No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.

As ações do Instituto incluem apresentar ferramentas, conteúdos educacionais, e soluções estratégicas visando o exercício do olhar interseccional para grupos sub-representados. Nossas atividades tiveram início em 2009, a partir de uma série de webdocumentários educacionais que exploram temas da sexualidade e gênero para promover mudanças sociais com base nos direitos humanos.

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