Revisitação da crítica da série Veneno, publicada no blog O Encantador de Serpentes em 2022.
“Travesti não tem namorado, tem problema”. A frase é de Marcinha do Corinto, lenda viva dos palcos brasileiros e europeus, dita com riso afiado no podcast Transex in the City. É a labuta de quem sabe que entre o desejo e o afeto, o corpo trans quase sempre tropeça. É sobre isso, também, que fala Veneno , a série dirigida por Los Javis que sangra e brilha em igual medida. Porque o que está em jogo ali, para além da construção da identidade de gênero, é o eterno desafio da afetividade. Da falta dela. Do anseio por ela. Da fantasia de ser amada como nos filmes, canções, romances. De ser, talvez, amada como um corpo cis?
A trama Veneno não se contenta em contar a vida e morte de Cristina Ortiz Rodríguez como se fosse um capítulo isolado da história da televisão espanhola. A série é uma travessia entre memórias e espelhos, entre o que foi e o que poderia ter sido. Cristina, conhecida mundialmente como La Veneno, mulher trans que explodiu nas telas dos anos 90, é recriada aqui em toda sua complexidade: carismática, ferida, contraditória, brilhante, soando, por vezes, quase que mentirosa ou fantasiosa em demasia. Mas o mais poderoso talvez seja aquilo que ela não diz com todas as letras: o desejo miúdo e urgente de ser cuidada. De ser amada. De ser, simplesmente, vista com verdade. Seja por seus parceiros românticos ou até mesmo por seu núcleo familiar.
É aí que Valeria entra. Jovem trans, vivendo sua própria transição, ela se aproxima de Cristina com o fascínio de quem reconhece uma igual. A faísca acontece durante uma reportagem. Cristina sai da prisão. Valeria, fã de longa data, vai atrás. O encontro acontece numa praça qualquer, mas o que se vê ali é um rito de passagem. Cristina olha Valeria e diz: una de nosotras. Uma de nós. Um selo. Uma bênção.
Essa cena não é apenas o cruzamento de duas trajetórias. É a fundação de uma afetividade possível entre dois corpos que se reconhecem. Uma espécie de adoção simbólica. Cristina e Valeria, com suas diferenças geracionais, se reconhecem na dor e na beleza de existir num mundo que insiste em não amar o que foge da norma.
E é justamente isso que Veneno dramatiza com delicadeza: o direito ao afeto. Um afeto que não romantiza a violência, mas a expõe. Que mostra que, entre o espetáculo e a solidão, a fama e a marginalidade, o que Cristina queria — talvez como muitas de nós — era o afeto assumido. Que não a abandonasse quando as câmeras desligassem, ou quando o dinheiro acabasse.
A série costura o presente e o passado com flashbacks que se dobram entre fantasia e trauma. Num deles, Cristina improvisa um vestido na infância e sobe ao altar da igreja, plena, diante de uma vila inteira. A imagem do pavão abrindo as penas sobrepõe a cena como metáfora visual do desejo de ser vista, de brilhar. Uma criança travesti de olhos arregalados diante da possibilidade de existir em paz.
Mas a paz nunca veio fácil. No núcleo familiar, há espancamento e rejeição. Na rua, competição e sobrevivência. Na televisão, uma fama feita às custas de risos maldosos e contratos custosos. E mesmo assim, entre tudo isso, Veneno se fez mito global.
Nisso destaco a presença de seu namorado italiano que é retratado na série como um amor muito sexual, mas que a fere e agride fisicamente. Utiliza da fama que Cristina conquistou como um traste usurpador. O quanto nós permitimos tirar pra admitir um relacionamento qualquer?
É por isso que Veneno pulsa diferente. Porque é uma série sobre o amor que falta — e o que sobra. Sobre os vínculos que se formam apesar do mundo. Sobre o modo como as travestis criam laços: entre amigas, irmãs, companheiras de estrada, de prostíbulo, de palco ou de dor. Vínculos que não cabem em moldes tradicionais, mas que sustentam, protegem, curam.
Ao escolher atrizes trans para viver Cristina em diferentes fases e ao dar protagonismo a corpos historicamente marginalizados, Veneno não só conta uma história. Ela restitui dignidade. Faz justiça. E nos oferece o mais precioso: ver no afeto T não um detalhe da narrativa, mas seu próprio coração. Talvez mulheres como Veneno e Marcinha tenham entendido que há caminhos árduos pra nossos corpos serem vistos como lugares onde residem o amor sem atravessamentos negativos, um caminho que ainda tentamos construir. Que se torne claro: AMEM AS TRAVAS EM VOZ ALTA — e urgentemente.
*Todos os travessões (—) foram colocados por mim; a única IA utilizada no texto foi para revisão ortográfica.
* Chegaram muitos relatos depois do último texto, e tenho amado ler cada um deles. No fim das contas, é isso: existe beleza e muito tesão em ser afeminada, feminina, como queiram chamar. Que a gente aprenda a se amar entre nós, a reconhecer umas nas outras aquilo que tantas vezes nos ensinaram a rejeitar. E que possamos seguir enfeitiçando o mundo sem abrir mão de quem somos.
*Sou cria total da escrita, mas tenho pensado em gerar algum conteúdo audiovisual pra coluna. Acham que seria uma ideia interessante? Quero ouvi-los (dm @cleogilaraujo)