Da vanguarda queer à assimilação conservadora e como o limite do pink money afasta divas pop do movimento LGBTQIAP+.
Historicamente, o movimento LGBTQIAP+ possui o hábito de adotar as cantoras pop como símbolos de liberdade, rebeldia e pertencimento. Entretanto, nos últimos anos um fenômeno pode ser visto na indústria: divas que anteriormente se posicionaram como aliadas tornam-se musas de direita. Este texto nasce após um amigo me encaminhar o link da newsletter “Tudo me incomoda” sobre a carreira de Gwen Stefani e seus flertes com o conservadorismo.
Entendo que a indústria pop é um campo de disputa política e o declínio de figuras antes subversivas rumo ao reacionarismo é uma verdade amarga para nós: para muitas dessas artistas, a aliança com a nossa comunidade durou apenas o tempo da juventude e do lucro.
A ilusão de aliades e o limite do Pink Money
Durante décadas, fomos ensinados a celebrar qualquer migalha de representatividade. Contudo, precisamos questionar o próprio conceito de aliades na indústria cultural, lembrando que ser aliade é uma ação de combate à LGBTQIAP+fobia usando seu privilégio, e não apenas um rótulo. Diversas vezes, a apropriação de estéticas dissidentes e o aceno às pautas da comunidade não passam de uma estratégia de mercado bem articulada para capturar nosso dinheiro.
Quando as paradas de sucesso mudam e o dinheiro da comunidade já não é mais necessário, o verniz colocado na imagem dessas “aliadas” racha. Gwen Stefani é um de diversos exemplos, visível em sua associação ao aplicativo de orações Hallow, financiado por magnatas ligados a figuras como JD Vance, que lideram agendas ativamente hostis às nossas existências. Além do aplicativo, a artista recentemente usou suas redes para endossar conteúdos ligados a Tucker Carlson, deixando claro que, à medida que a estética da rebeldia perde a utilidade comercial, o privilégio de ser uma mulher branca e rica se torna o refúgio perfeito.
Este movimento não se limita apenas à Stefani. No cenário internacional, observamos artistas como Nicki Minaj e Lana Del Rey, que construíram bases massivamente queer para depois flertarem abertamente com o conservadorismo. No Brasil, a dinâmica é ainda mais cínica, evidente em trajetórias como a de Claudia Leitte, que construiu impérios sobre o público gay do Carnaval para emitir acenos velados ao conservadorismo, ou no caso didático de Jojo Todynho, que após ascender em boates LGBTQIAP+, assumiu o rótulo de “mulher preta de direita”.

A cultura queer é vanguarda, a direita é assimilação
Existe uma dinâmica predatória na indústria cultural: a comunidade queer, especialmente pessoas pretas e periféricas, é a verdadeira vanguarda cultural que dita a moda, a linguagem e o comportamento. As divas pop apenas assimilam essas tendências no seu auge. O conservadorismo é árido por natureza; ele não cria, apenas repete normas. O preço do flerte ideológico com o reacionarismo é, inevitavelmente, o declínio criativo.

O recente esforço de Stefani em emular uma estética rural tradicionalista norte-americana soa como uma tentativa desesperada de assimilação a uma América excludente. O resultado é uma obra engessada, que soterra a originalidade que a tornou famosa. Não podemos perdoar quando a aliança com a direita destrói o pilar subversivo que sustentava essas carreiras. Enquanto essas ex-aliadas se mantêm caladas diante do avanço de tiranias que ameaçam a vida de corpos trans e queers, aprendemos que nossa energia e nossa cultura não devem mais servir de trampolim para quem prefere o conforto de nossos opressores.