Entrevista com Lourenço Capriglione sobre a Engorda de Ponta Negra, justiça socioambiental, energias renováveis e a luta das comunidades no Rio Grande do Norte.
Para a segunda entrevista do Pautando o Amanhã, trouxe alguém da minha região: Lourenço Capriglione, comunicador, gestor de projetos culturais e socioambientais e pré-candidato a deputado estadual pelo Rio Grande do Norte.
A Engorda de Ponta Negra e a destruição de um território do povo norte rio-grandense
A Prefeitura de Natal executou a obra de engorda da praia de Ponta Negra como medida eleitoreira para o pleito de 2024. Laudos técnicos foram ignorados, o diálogo com trabalhadores da orla, pescadores e comunidades locais foi atropelado. A draga chegou ao litoral potiguar sem as licenças definitivas do Idema. A intervenção avançou sem análise de impacto na biodiversidade marinha, comprometendo bancos de corais.
O resultado está visível. A nova faixa de areia alaga após chuvas intensas ou com a elevação da maré, e o trecho já ganhou apelido nas redes: “Piscinão da Engorda”. Uma perícia do TCU expôs o nível das irregularidades: foram encontrados canos de fachada no local, tubulações que não se conectavam a lugar nenhum ou serviam apenas como estruturas cenográficas.
Você sempre foi ativo em relação a engorda da Praia de Ponta Negra. O que você viu acontecer com as pessoas que vivem da orla nesse processo?
Lourenço Capriglione: O engajamento vem desde o período anterior à engorda, quando ela ainda era uma discussão. Desde essa época a gente via a prefeitura atropelando o processo legal exigido para uma obra dessa envergadura. Isso aconteceu tanto com desrespeito a características técnicas e ambientais, a partir da drenagem que está causando essas lagoas que se formam, quanto na relação com os trabalhadores. Eu lembro que fui entrevistar os trabalhadores da orla poucos meses antes da engorda começar, perguntando: a prefeitura já veio falar com vocês? Como é que vocês vão trabalhar durante a obra? Vocês vão receber algum tipo de auxílio? Os pescadores e os trabalhadores estavam completamente desinformados sobre como se daria esse processo. Não foram escutados, ou foram muito precariamente escutados.
A prefeitura, naquela sanha de executar a obra antes das eleições para ter esse ganho eleitoral, acabou passando por cima do processo técnico e legal. Meu papel sempre foi apontar essas irregularidades, essa forma eleitoreira de lidar com uma obra desse tamanho, e também apontar para as pessoas que estavam sendo injustiçadas, os pescadores, as comunidades tradicionais de Ponta Negra, os trabalhadores. Quem estava engajado nessa pauta, tanto a população local quanto os pesquisadores, já sabia que os problemas que a gente está vendo hoje iriam acontecer.
Eu não sou técnico de Meio Ambiente, não sou engenheiro. Sou publicitário, da área de comunicação, e depois fiz um mestrado em meio ambiente e desenvolvimento sustentável, com foco em eficiências sociais e políticas. Todos os meus vídeos partem de pesquisa e de escuta. Quando eu formo esse entendimento internamente, eu comunico.
De onde surgiu o Rolê Legal e como o projeto tem funcionado na prática?
Lourenço Capriglione: O Rolê Legal foi uma ideia minha em conjunto com o Rafael Dumaresq, que também é ativista LGBT daqui e uma pessoa da cultura. A nossa ideia era unir uma ação de impacto socioambiental concreta com as características de um rolê, um espaço divertido e acolhedor para a diversidade de corpos e sexualidades. Explorando a cidade, a gente descobriu um lugar na Via Costeira, a Praia de Mãe Heloísa, onde aconteceram as duas primeiras edições. Vimos que estava muito poluída com plástico, apesar de ser uma praia pouquíssimo movimentada, tinha muito resíduo vindo com a maré.
A recepção tem sido muito boa porque o formato é inusitado: tem limpeza de praia ou ação de educação socioambiental, mas ao mesmo tempo tem alguém vendendo bebida, tem DJ. O público foi bastante diverso, jovens em sua maioria, mas foram crianças, pessoas mais idosas também. A grande maioria nunca tinha ido nos lugares onde o Rolê Legal aconteceu. A ideia é que as pessoas não precisem de um Rolê Legal para frequentar esses lugares ou fazer limpeza de praia, que elas se apropriem mesmo do espaço urbano.
O Rolê Legal dialoga com o Trans Ecology Club, movimento que conecta dissidência de gênero e ativismo socioambiental, uma das iniciativas que o [Instituto SSEX BBOX] acompanha e apoia.
Seu conteúdo tem chegado a jovens que não necessariamente já pensavam assim?
Lourenço Capriglione: Isso dá para ver por métricas. No Instagram, o sistema mostra que grande parte do meu público tem entre 24 e 35 anos. O que eu percebo é que muitas vezes as pessoas enxergam as notícias fragmentadas, não têm acesso ao contexto do que está acontecendo. Por isso sempre priorizo vídeos mais explicativos, que tentam se aprofundar no tema costurando diferentes fatos para entender o histórico ou por que algo aconteceu.
Acho que isso também se dá porque as pessoas não têm educação política. É uma coisa que a gente devia ter nas escolas. A gente nunca aprendeu como nossos impostos são cobrados, não sabe o papel do Ministério Público, da Procuradoria Geral do Estado, da AGU, o que faz um vereador, o que faz um deputado, qual a diferença para o Executivo.
A regulamentação das redes divide opiniões até dentro dos movimentos progressistas. Onde você está nesse debate?
Lourenço Capriglione: Acho que a regulação das redes sociais é muito necessária. A internet ser tratada como terra sem lei é muito prejudicial para a democracia e para os direitos das pessoas. Parece um ambiente onde a impunidade impera: você pode ser LGBTfóbico, racista, transfóbico, pode inventar mentiras. É difícil fiscalizar sem uma regulação que ampare isso e, principalmente, que penalize as plataformas de big tech, que são as grandes responsáveis por lucrar em cima disso. O que a gente quer não é privar a liberdade de expressão. O que a gente quer é que crimes que acontecem dentro das redes sejam penalizados com mais agilidade.
Moradores de comunidades no Seridó relatam insônia crônica, depressão e ansiedade por conta do barulho constante das turbinas eólicas. Você pretende pautar isso?
Lourenço Capriglione: O que está acontecendo é um avanço de megaempreendimentos sobre cidades e comunidades que muitas vezes são muito pobres, com uma série de malefícios associados. O lucro frequentemente vai para grandes empresas nacionais ou até internacionais, e o prejuízo fica com as comunidades locais. É como um novo tipo de colonialismo pintado de verde, mas com a mesma lógica de operação.
O RN lidera há dois anos consecutivos o ranking dos estados que mais desmataram para energias renováveis. As grandes fazendas de energia solar e eólica, inclusive em topos de montanha que são os lugares de biodiversidade mais preservada, têm impactos sociais sérios. Os contratos estabelecidos com as comunidades são muitas vezes extremamente agressivos e fazem as famílias perderem a característica de agricultura familiar, perdendo acesso a crédito rural e políticas sociais.
Os data centers são uma pauta muito séria: a gente vive em municípios em crise hídrica permanente, e existem data centers previstos para o Rio Grande do Norte que consomem muita água. Querem se aproveitar do excedente de energia renovável, mas como colocar um município já em crise hídrica numa situação ainda mais grave? Ao mesmo tempo que se desmata a Caatinga, que é o que preserva a água que a gente tem. Grande parte do interior do RN está ameaçado pela desertificação, com núcleos onde esse processo já está acontecendo, podendo expulsar as pessoas dos seus territórios por falta de condições de vida.
O que te mantém em movimento diante de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo?
Lourenço Capriglione: Eu acho que a própria luta, a própria mobilização, é o que me nutre. Eu não conseguiria estar numa postura passiva em relação ao que acontece. Quando você está junto a movimentos, junto de pessoas que estão fazendo coisas, isso nutre.
O maior exemplo recente: uma travesti e uma bixa preta conseguiram aprovar, diante de todas as improbabilidades, a maior conquista trabalhista desde a promulgação da Constituição. A mobilização social muda a correlação de forças. As mesmas pessoas que estavam contra tiveram que se dobrar e passar a proposta, porque sabem que o constrangimento seria muito grande se não o fizessem.
Se você pudesse deixar uma marca no debate público daqui para frente, qual seria?
Lourenço Capriglione: A principal contribuição seria ver as pessoas, a juventude, a população como um todo se engajando nas diferentes pautas que atravessam a nossa existência. Dentro das casas legislativas a gente muitas vezes vai estar em minoria. Esses projetos só seguem se tiver mobilização das pessoas. Que a emergência climática seja tratada dentro da política com a importância que ela merece. Que as comunidades sejam respeitadas em seus modos de vida. E que as pessoas se mobilizem.
A mudança socioambiental no Rio Grande do Norte não depende de otimismo. Depende de quem ocupa os espaços de poder. Pessoas como Lourenço estão nessa disputa. O estado tem uma elite que historicamente bloqueou tudo o que ameaça seus privilégios, mas o campo progressista não para de avançar.
Para encerrar, deixo essa canção da Lorde. Ela diz, em música, o que as gerações mais velhas deixaram para trás melhor do que qualquer argumento político conseguiria.
“Fallen Fruit” fala de gerações que voaram sem pagar a conta. Deixaram um mundo deteriorado e esperaram que a próxima geração simplesmente aceitasse a herança. A pergunta que a música faz é a mesma que Lourenço traz para o centro do debate político no RN. A Caatinga desmatada, a orla privatizada, o semiárido virando zona de sacrifício. Esse caju já caiu e a questão é o que fazemos agora.