COLUNA

João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em

O cinema queer nordestino nunca teve um caminho só

Professor da UFRN e curador da Mostra Monstro, Rodrigo Almeida mapeia estéticas, filmes perdidos e a pesquisa de pós-doutorado que vai fazer sobre cinema queer no Norte e Nordeste do Brasil.

O Nordeste [SSEX BBOX] guarda um cinema queer que atravessou quatro décadas sem nunca virar disciplina obrigatória em faculdade nenhuma do Brasil.

Rodrigo Almeida conhece esse arquivo.

Professor no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), curador da Mostra Monstro e autor do e-book O Amargo Obituário do Cinema Pernambucano, ele conversou com o [SSEX BBOX] sobre filmes perdidos, estéticas dissidentes e a pesquisa de pós-doutorado que começa em agosto, quando muda para Belém do Pará para investigar o que batizou de Afetações Tropicais: os rastros do cinema queer no Norte e no Nordeste do país.

Ele faz questão de marcar o limite do que já sabe: existe um levantamento prévio, mas o mapeamento mais aprofundado é o próprio objeto da pesquisa, ainda por fazer.

Nenhum caminho único

Almeida resiste a fechar o cinema queer nordestino em uma fórmula. Para explicar por quê, recorre a um texto que reencontrou recentemente, “Os Respeitáveis Militantes e as Bichas Loucas”: o relato de um jornal de esquerda que convidou um grupo LGBT para assinar uma coluna e, assim que a linguagem começou a fugir do tom “respeitável” esperado, tentou corrigir o time.

“Essa é a forma que a gente existe”, respondiam os convidados. Para Almeida, essa disputa é a mesma que atravessa o cinema: de um lado, personagens queer pensados para serem assimilados sem atrito; do outro, corpos que se recusam a caber no enquadramento.

“Não é uma questão só de representatividade, eu acho que é uma questão de estética mesmo”, resume. Ele desconfia do personagem LGBT perfeito, aquele que nunca erra, nunca incomoda e existe só para provar que “dá para gostar dele apesar de”.

“Isso é péssimo, porque você cria um personagem perfeito e ele acaba desumanizado. Você tá meio que querendo higienizar esses seres.”

O interesse dele está nos personagens fluidos, nem vilões nem modelos de conduta, que carregam ao mesmo tempo mais de uma coisa sem precisar resolver a contradição.

Musicalidade, fetiche, território

A pesquisa que Almeida leva para o pós-doutorado não busca uma linha única de cinema queer nordestino, mas constelações que se cruzam.

Uma delas é a musicalidade, presente em boa parte da produção que ele cita. Outra é o fetiche, território que volta a aparecer no trabalho do coletivo Surto & Deslumbramento, do qual Almeida faz parte ao lado de André Antônio, Chico Lacerda e Fábio Ramalho.

Há também uma questão geográfica: cidades do interior e litorais aparecem como protagonistas mesmo quando o filme se projeta para um futuro especulativo.

Chamado de Brito e o obituário do cinema pernambucano

Antes de qualquer teoria, Almeida foi atrás de imagem perdida. Cita Jomard Muniz de Brito, cineasta pernambucano conhecido pelo debate público que travava com Ariano Suassuna, autor de filmes amadores em Super-8 como Noturno em Recife Maior (1981), sobre as desventuras de um vampiro bissexual no centro do Recife.

Grande parte dessa obra sobreviveu em estado precário até o projeto de restauração do Cinelimite assumir o trabalho de recuperar o acervo.

Foi nesse mesmo território de arquivo que Almeida escreveu O Amargo Obituário do Cinema Pernambucano, e-book sobre filmes que desapareceram ou se deterioraram por falta de recurso para conservação.

Uma das quatro histórias do livro é a de The Great Leopoldis, transformista que se apresentava antes das sessões de cinema em 1917 e que Almeida suspeita ser a primeira figura queer a dirigir um filme em Pernambuco, hoje perdido.

A época tolerava a transformação no palco, mas criminalizava o mesmo gesto na rua: uma pessoa vestida fora do gênero esperado virava notícia policial.

A escala do problema é maior do que qualquer arquivo isolado. Segundo Almeida, mais de 75% do que foi produzido no período do cinema mudo se perdeu no mundo todo, e ele credita à restauradora Débora Butrucci parte do trabalho recente de resgate desse acervo no Brasil.

Preservar filme, nesse cenário, depende de recurso público consistente, e é justamente aí que o sistema falha com mais frequência, como este espaço já mostrou ao cobrar transparência dos editais de cultura no Rio Grande do Norte.

A onda queer do Super-8 na Paraíba

Almeida também destaca os cinco filmes que compõem a chamada onda de cinema queer em Super-8 produzida na Paraíba nos anos 1980: Perequeté (1981), de Bertrand Lira; Closes (1982), de Pedro Nunes; Baltazar da Lomba (1982), do coletivo ativista Nós Também; Era Vermelho o Seu Batom (1983), de Henrique Magalhães; e Miserere Nobis (1983), de Lauro Nascimento. T

odos restaurados e disponibilizados pelo Cinelimite, que também assina a recuperação da obra de Jomard Muniz de Brito.

Quem quiser se aprofundar em dois desses títulos encontra a análise completa que Alysson Hayllon fez para este espaço sobre como Perequeté e Era Vermelho o Seu Batom transformam teatro e carnaval em espaço de existência.

Os limites do edital público

Muitos filmes queer não são aprovados em editais ou precisam ser amenizados em sua radicalidade, segundo Almeida.

A falta de incentivo público atinge sobretudo projetos experimentais que não se encaixam em rótulos pré-definidos: comitês que tratam direitos humanos como caixinha a marcar empurram o cinema para um modelo higienizado antes mesmo de a câmera ligar.

É o mesmo problema, em outra ponta, que esta coluna já documentou nos pareceres técnicos da Secretaria de Cultura do Rio Grande do Norte: um sistema de avaliação que trava justamente o tipo de projeto que mais precisaria de apoio.

Curadoria como debate

Na Mostra Monstro, que Almeida organiza, o padrão mais consistente de sucesso não é o filme em si, mas a presença de quem fez o filme para debater depois da sessão.

Sessões com trabalhos de conclusão de curso sempre lotam, porque estudantes levam amigos e família para o que costuma ser a primeira exibição pública do próprio trabalho. Entre os destaques recentes estão os curtas Carne Viva e Litorais Artificiais.

Outros momentos que ele cita como especialmente produtivos: a mostra “Não Um Realismo”, que abriu com o clássico brasileiro Anjos da Noite; uma sessão em parceria com a Torta Plataforma, coletivo de pessoas com deficiência, pensada para cruzar corpo dissidente e cultura queer; a maratona “Trilogia Apocalipse Adolescente”, com o Século de Lírio e o podcast Esqueletos no Armário, que lotou a sala com intervalo de dez minutos entre cada longa; e uma mostra de cinema marginal piauiense, também em parceria com o Cinelimite, que apresentou a Almeida um recorte de cinema que ele nunca tinha visto antes, com atores fazendo pinta em filmes dos anos 1970.

“Eu acho estranho cineclube que termina a sessão e as pessoas vão embora sem conversar sobre o filme”, diz. Para ele, esse momento de debate depois da exibição cumpre função pedagógica que a sessão sozinha não dá conta de cumprir.

Três caminhos nos TCCs

Orientando trabalhos de conclusão de curso, Almeida identifica três tendências recentes. A primeira, hoje em queda, foi durante anos a mais recorrente: filmes sobre saúde mental, contados de forma autobiográfica ou ficcionalizada, tema que este espaço já tratou em outro contexto.

A segunda é o interesse crescente por cinema de gênero, sobretudo terror e ficção científica, incluindo cruzamentos como vampiros bissexuais.

A terceira é uma mudança de foco dentro do próprio filme de amadurecimento: menos sobre sair do armário, mais sobre a incerteza de virar adulto, um deslocamento que Almeida associa à pandemia e aos anos de adolescência que uma geração inteira perdeu trancada em casa.

É nesse último grupo que ele encaixa Uma Noite, curta de conclusão de curso de Felipe Santelli que fecha uma trilogia sobre o amadurecimento e ainda não estreou.

Antes da teoria

Ao ser questionado sobre como começar a pesquisar cinema nordestino, o conselho de Almeida foi direto: monte uma tabela antes de ler qualquer teórico.

Vá aos filmes primeiro, deixe que a materialidade das imagens indique o caminho, e só depois busque o texto teórico que ajuda a pensar aquilo que já foi visto, não o contrário.

Ele lembra da própria crise no mestrado, quando quase abandonou a pesquisa por insistir em forçar um recorte teórico que não conversava com o objeto, até trocar de orientação e recomeçar pela obra.

Perguntado sobre o filme queer nordestino que mais gosta, ele não hesita: Inferninho.

Cita também Doce Amianto (2013), de Guto Parente e Uirá dos Reis, como um divisor de águas para o coletivo Surto & Deslumbramento, porque provou a eles que não estavam sozinhos fazendo cinema queer fora do eixo Rio-São Paulo.

Almeida embarca para Belém sem uma resposta fechada sobre o que une esse cinema todo.

Talvez essa recusa em fechar a questão seja, no fim, a resposta possível: um cinema que se nega a caber num adjetivo só segue sendo, quatro décadas depois, mais interessante do que qualquer coisa que já virou consenso.

COLUNISTA

DSCF1782-Edit (1) (2)

João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

João Pedro Fontes, nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter com foco em cultura e identidade.
Veja também

Slayyyter se pergunta por que foi traída no auge da sua vida

Comunicado à imprensa e movimento trans

Todas as encruzilhadas nos levam à Anitta

Renaissance: uma ode queer

Assista

No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.

As ações do Instituto incluem apresentar ferramentas, conteúdos educacionais, e soluções estratégicas visando o exercício do olhar interseccional para grupos sub-representados. Nossas atividades tiveram início em 2009, a partir de uma série de webdocumentários educacionais que exploram temas da sexualidade e gênero para promover mudanças sociais com base nos direitos humanos.

Nosso Contato

Newsletter [SSEX BBOX]

Copyright ©2026 Todos os direitos reservados | [SSEX BBOX]