Nos dias 9 e 10 de setembro, quem passasse pelo Margem Hub, em Natal, podia entrar e colar um desenho na parede.
Não precisava se inscrever, não tinha lista de espera. Só chegar.
Foi assim que Djanete construiu a primeira exposição individual da carreira: em mutirão, com o público colando cópias xerocadas dos próprios desenhos e gravando, sem perceber, os sons daquele encontro — conversas, risadas, o barulho da fita adesiva grudando no papel.
“Gravaturas” abre no dia 12 de setembro, às 19h, e fica em cartaz até 10 de outubro, com entrada gratuita de quarta a sábado, das 10h às 19h.
A mostra reúne mais de 350 desenhos originais produzidos em dez anos de prática, impressos em réplicas e colados pelas paredes da galeria, ao lado de uma escultura sonora inédita: os registros do mutirão, mixados e transformados em uma peça que toca em loop durante todo o período expositivo.
Existe um contraste ali que vale reparar. Uma exposição individual construída por muitas mãos. Perguntado sobre isso, Djanete não hesitou:
“No meu trabalho a performance e o happening sempre estiveram de mãos dadas com o desenho, o áudio e a escrita. Eu gosto de tentar aproximar o público da minha prática artística para construir algo que não consigo fazer sozinho em estúdio.”
Ele é potiguar, formado em Letras Português pela UFRN, e conta que boa parte dos desenhos nasceu dentro de sala de aula, num tédio que só o lápis resolvia.
Fundou em 2017 o coletivo Disconexa, que virou gravadora e selo independente, com políticas afirmativas de gênero e cotas para pessoas trans — mais de 60 ações culturais em Natal desde então.
Dez anos depois daqueles primeiros rabiscos, ele diz que a exposição também é sobre desmontar a ideia do artista isolado:
“Sou filho único, sempre tive uma personalidade mais introvertida. A montagem colaborativa é uma forma de tornar visível essa dimensão coletiva. As pessoas que participam deixam uma marca na exposição antes mesmo de ocuparem o lugar de público.”
Visualmente, o que sobe às paredes são desenhos abstratos em preto e branco, feitos com nanquim, muitas vezes com escritos junto — um processo que ele descreve como intuitivo, às vezes inconsciente.
“As figuras podem remeter a seres místicos com rostos, olhos, rabos, ou signos, dígitos, inscritos de um idioma desconhecido”, ele diz.
Nada ali foi feito no computador: só papel e tinta, exceto pelo escaneamento que, ironicamente, é o que dá às peças aquele acabamento entre ilustração digital e xerox.
Quem assina a curadoria é Sofia Porto Bauchwitz, doutora pela Universidade Complutense de Madri e pesquisadora do corpo sem forma nas práticas artísticas contemporâneas.
No texto da mostra, ela escreve: “Em Gravaturas, o gesto artístico é marcado por um corpo que escuta e espera, um corpo que pensa em ação. A atenção aos detalhes e o respeito pelo próprio desejo emergem como gestos de resistência à lógica da produtividade e do rendimento.”
A exposição foi contemplada pelo Edital de Fomento às Artes Visuais nº 09/2024 da Política Nacional Aldir Blanc, com realização do Governo do RN, do Ministério da Cultura e do Governo Federal — o mesmo tipo de política pública que sustenta boa parte da produção potiguar que já passou por aqui, como Rastros, de Jorake.
O trabalho também toca em algo que já escrevi sobre gênero e reinvenção em Transicionar é um portal: a ideia de que uma identidade se constrói em coletivo, nunca sozinha.
A abertura tem visitação guiada com recursos de acessibilidade, e a audiodescrição fica disponível por QR Code durante todo o período expositivo.
O Margem Hub fica na Rua da Sheelita, 59, Lagoa Nova, e a entrada é gratuita e livre. Se você mora em Natal, sábado que vem é uma boa desculpa pra sair de casa.