Como a falta de financiamento tem impactado manifestações políticas LGBTQIAP+ no Brasil
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez da sua campanha para o segundo mandato na Casa Branca uma ode anti-diversidade. Ele proferiu ataques aos programas de inclusão e, ao assumir o cargo, em janeiro de 2025, de pronto assinou uma ordem executiva que deu fim às agências do governo norte-americano voltadas a programas de diversidade. Na sequência instaurou uma verdadeira censura aos sites federais e aos arquivos públicos removendo expressões do universo queer como “gay”, “lésbica”, “bissexual”, “LGBTQ”, “orientação sexual” e “transgênero”. “Agora só existem dois gêneros: masculino e feminino”, disse o mandatário em seu discurso de posse. A declaração se tornou política pública e o empresário passou a reconhecer oficialmente apenas os gêneros masculino e feminino.
O resultado foi um efeito em cascata. Desde então, vemos o recrudescimento dos discursos contrários às pautas progressistas que foram alavancadas no período em que Trump esteve fora do comando da nação norte-americana. Se o presidente dos Estados Unidos decide que os direitos das mulheres, da comunidade LGBTQIAPN+, a proteção do meio ambiente e o combate ao racismo não têm a devida importância que carregam, o mundo, então, segue a cartilha, temeroso e recuante. É a lógica capitalista: o mais forte dita a conduta dos demais atores dentro deste contexto.
No Brasil, temos um alarde neste momento. A 30ª edição da maior Parada LGBTQIAPN+ do planeta, a de São Paulo, completa neste ano três décadas e tem como tema “A rua convoca, a urna confirma”, um convite à reflexão sobre as eleições de 2026. É uma celebração, mas vem acompanhada de uma marca negativa porque houve um declínio significativo no patrocínio de empresas privadas: 60% comparado ao último ano. Nesta edição, o evento vai contar apenas com três marcas apoiadoras. Há dois anos, eram 12. Com isso, os tradicionais trios elétricos que levam artistas queer de diferentes envergaduras e regionalidades vão cair de 19 unidades para 14. Alguns destes performers já declararam que irão abrir mão de seus cachês em apoio à limitação da verba. Melody, Pepita e Diego Martins estão entre eles. Nelson Matias Pereira, presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP) afirmou, em entrevista ao Estadão, que algumas empresas justificaram o recuo no investimento devido às eleições e a Copa do Mundo que acontecem neste ano.
Além do impacto no valor social, esse declínio no patrocínio também representa um reflexo desanimador na economia da capital paulista. Em 2025, a estimativa de arrecadação com a Parada foi de R$ 548,5 milhões, segundo a Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Já para 2026 a previsão caiu 15% e está em R$ 466,2 milhões. No valor estão, principalmente, gastos com setores de serviço como bares, restaurantes, hospedagem e turismo pelo município. O Banco Mundial estima que o Brasil perde quase R$ 95 bilhões devido a barreiras impostas à comunidade queer, como acesso ao mercado de trabalho formal, por exemplo. Profissionais LGBT+ têm o dobro da taxa de desemprego no país, 15,2%, quando a média nacional é de 7,7%.
Olhe em volta!
Se observarmos com cuidado, mirarmos no arredor, há outros movimentos em simbiose com este desapoio à Parada LGBTQIAPN+ de São Paulo – reforçando, a maior do mundo. Contas no Instagram de espaços referência para a comunidade na capital paulista, como a Boate Zig, e de festas sexuais e de expressão queer como Homoteka e Kevin, foram banidas da plataforma. O perfil no X da Zig se manifestou informando que a justificativa da rede foi a de “proteger de uma possível invasão”. A Sleeping Giants Brasil, instituição sem fins lucrativos que defende uma internet mais regulada e democrática, afirmou que ao menos 30 páginas já foram derrubadas na rede social da Meta. A empresa justificou à entidade que está “ajustando os algoritmos para se adequarem às legislações brasileiras e que isso tem gerado muitos casos de ‘falsos positivos’”.
sim, menines, tanto o @instagram da ZIG quanto do ZIG Fest, da Homoteka (e também da KEVIN) foram derrubados hoje, faltando uma semana para Pride em SP, com a justificativa de que foram bloqueados 'para proteger de uma possível invasão'.
— ZIG (@boateZIG) May 28, 2026
tirando esse 'detalhe', todos os eventos… pic.twitter.com/9xq3w3avB4
Legislativo é o que importa
O pleito deste ano é de calendário geral, aquele em que temos o maior número de cargos para eleger: presidente, governador, senador e deputados federais, estaduais e distritais. O Executivo é de suma importância, mas é o Legislativo que controla de fato a pauta social brasileira. A Câmara de São Paulo, por exemplo, acaba de aprovar em primeira votação um Projeto de Lei (PL), de nº 50/2025, que proíbe crianças e adolescentes na Parada LGBT+ da cidade. O projeto ainda veda a interdição de vias públicas para a realização do evento, institui a execução da atividade apenas em espaços fechados e com controle de acesso e prevê multas que podem chegar a R$ 1 milhão em casos de descumprimento. O texto ainda precisa passar por uma segunda votação antes de seguir para uma eventual sanção do prefeito, Ricardo Nunes (MDB).
O “PL 50” é de autoria de Rubinho Nunes (União), vereador que em maio de 2025 teve seu mandato cassado e foi declarado inelegível por oito anos. Durante a campanha municipal no ano anterior, o parlamentar compartilhou um laudo médico posteriormente comprovado como falso, que atribuía ao então candidato à Prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL) o uso de drogas. O documento havia sido inicialmente divulgado pelo então candidato Pablo Marçal (PRTB), que depois foi condenado a pagar R$ 100 mil pela informação inverídica. Em novembro daquele ano, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) reverteu por unanimidade a decisão de primeira instância sobre o mandato de Rubinho. Segundo o tribunal, a conduta não foi suficiente para demonstrar desequilíbrio efetivo na disputa eleitoral. O mandato não foi cassado e ele voltou a se tornar elegível.
Além de ser autor de um projeto que visa minar a expressão pública e política da comunidade queer, o vereador também utilizou a Marcha do Orgulho Trans de São Paulo para espalhar fake news na internet, afirmando que o evento encerrou suas atividades neste ano, quando, na verdade, trocará de organização. A declaração foi dada em um contexto de comemoração à queda no apoio de marcas à Parada. O Instituto [SSEX BBOX], que comandava a Marcha desde sua criação, em 2018, divulgou um comunicado esclarecendo a saída da organização do evento.
Queer deixou de ser pop?
De tempos em tempos aparece uma sombra, uma névoa, que insiste em cobrir as expressões que fogem da previsibilidade, do aceito social e do reconhecido pelo Estado. O mundo muda, avança e retrocede. Dois passos à frente, três para trás. Contudo, a resistência está aí.
A comunidade LGBT+ sentiu, nos últimos anos, especialmente no mundo pré-Trump e pré-Bolsonaro, a sensação do mainstreaming. Virou pop ser queer. Tornou-se valioso ser aliado, comercialmente interessante, além de gerar alto engajamento nas redes sociais. No Mês do Orgulho, imediatamente as empresas mudavam suas fotos de perfis. Era símbolo de status. Uma espécie de performance de diversidade.
Agora, em 2026, a maior Parada LGBTQIAPN+ do mundo retrocede 60% do seu patrocínio privado. O pink money deixou de ser interessante? Talvez, mas, e daí? Nenhum movimento é estático quando falamos de paradigmas sociais. O mundo está em constante mudança. O progressismo avança e recua, assim como o conservadorismo. Duas forças antagônicas que andam lado a lado, disputando espaço e narrativa. Ficará para a história que a festa de três décadas de existência da Parada de São Paulo sofreu, de certa forma, um grande boicote. É um reflexo do seu tempo, mas não é uma sentença. O importante é lutar e continuar a caminhada, que não para nunca. Domingo será dia de celebrar!