Juni Albuquerque ainda produz no mesmo lugar onde começou: o quintal da oficina de pintura automotiva do próprio pai, em Jaboatão dos Guararapes.
“Até hoje eu ainda produzo nesse ateliê improvisado”, conta. Foi ali que aprendeu toda a técnica com ele, num universo que ile mesme tinha repulsa em entrar. “É um universo totalmente masculino. Até hoje minha presença ali causa um certo incômodo.” Fazer arte dentro desse espaço, define, é meio que subversivo.
A herança que reivindica não é o objeto. É o saber. “É como se fosse a minha herança mesmo”, diz, sobre dar continuidade a essa técnica através de outra vivência: a dile, artista não binárie, num espaço que ainda estranha sua presença.
O material central do trabalho são ossos de carcaça de animal, recolhidos principalmente em forma de costela e partes da bacia. “As formas orgânicas foi o que me arrebatou”, lembra sobre o primeiro contato. Mas o osso carrega um peso simbólico específico para quem é do Nordeste: a imagem histórica de seca e pobreza construída sobre a região. Juni inverte essa lógica. “O osso tá na imagem da margem, do que apodrece, do que ninguém quer saber. Quando faz a transformação, ele passa a ter lugar de desejo”, explica. É aí que mora a transgressão, e também a questão do corpo híbrido, não binário: osso, substância orgânica, potencializado por tinta industrial. “Duas substâncias opostas que, quando se unem, renascem numa atmosfera nova. Um povo híbrido que não é nem natural, nem industrial.”
O acabamento vem direto da oficina do pai. A mesma tinta automotiva que cobre carros cobre osso, e o resultado engana: “As pessoas acham que é cerâmica, que é impressão 3D.” Para Juni, isso tem a ver com desejo. “O carro em si é um objeto de desejo. Quando aplica a pintura automotiva no osso, ele transcende. Vai do limbo ao luxo.”
Em junho, Juni esteve em três exposições simultâneas em São Paulo: a coletiva “Sertão” no CCBB, com mais de 70 artistas brasileiros, uma retrospectiva de seus primeiros trabalhos aos mais recentes, e uma mostra na Galeria Luisa Strina, um marco que chama de sonho realizado. A repercussão do momento artístico paulistano, aliás, é assunto recorrente na coluna sobre o The Core, espaço que também aposta em permanência no centro de SP.
A partir de agosto, entra em residência na FAAP até dezembro, com um projeto batizado “Estudo sobre ossos: a sustentação do corpo urbano”, vai experimentar suportes em metal e bronze para as esculturas, numa pesquisa que descreve como “uma coisa cyborg”. No fim do ano ou início de 2027, estreia também uma exposição solo itinerante pelo Nordeste inteiro, aprovada em edital do Banco do Nordeste Cultural, tema que a gente já discutiu de perto nos textos sobre editais de cultura no RN. A itinerância deve passar por Sousa, na Paraíba, com negociações também para Fortaleza, Juazeiro do Norte e Mossoró.
Os próximos passos miram fora do Brasil. “Agora eu quero Nova York, Londres”, diz, ainda estudando residências internacionais. Enquanto isso, segue expandindo o próprio vocabulário, no CCBB, a convite do curador Lucas de Lacerda, pintou pela primeira vez com pincel, sem aerógrafo, misturando cores num experimento bidimensional inédito.
Segue o trabalho da Juni: @juniarrra