COLUNA

João Pedro Fontes

[ELE/DELE]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em

The Core: Espaço, troca e presença em SP

Em entrevista ao [SSEX BBOX], Klaus Anibal fala sobre permanência, escuta, curadoria e o desejo de construir, ao lado de Enrico Paschoal, um espaço vivo no centro de São Paulo.

Reprodução: Imagem cedida

No centro de São Paulo, região tantas vezes reduzida à ideia de passagem, o The Core surge a partir de outro gesto: o de criar permanência. Cofundado por Klaus Anibal e Enrico Paschoal, o espaço articula cultura, moda e gastronomia não como frentes isoladas, mas como linguagens que se atravessam e produzem convivência, presença e troca.

Em entrevista ao [SSEX BBOX], Klaus define o ponto de partida do projeto a partir de um incômodo urbano e simbólico. “O centro de São Paulo é potência, mas muitas vezes ainda é tratado só como lugar de passagem, e não de permanência”, afirma. A proposta do The Core é se conectar de forma real com o território, criando um ambiente em que cultura, encontros e identidade deixem de funcionar apenas como discurso e se tornem prática cotidiana.

Segundo Klaus, o projeto nasce justamente dessa tentativa de construir relação com a cidade sem impor uma lógica externa a ela. “Faltava um espaço que não apenas ocupasse o centro, mas que se conectasse com ele de forma real”, diz. A formulação resume bem a ambição do The Core: existir menos como vitrine e mais como organismo em diálogo com o entorno.

Essa visão também aparece na maneira como o espaço entende a convivência entre gastronomia, moda e cultura. Em vez de tratar essas áreas como uma soma de operações, Klaus descreve o The Core como “um ecossistema”. Na lógica do projeto, a gastronomia aproxima, a moda comunica identidade e a cultura conecta, criando sentido e troca entre as pessoas. Quando essas dimensões coexistem de forma orgânica, o espaço deixa de ser apenas funcional e passa a ser vivido.

A mesma coerência atravessa a ideia de diversidade e escuta, que Klaus define não como ornamento institucional, mas como estrutura do próprio projeto. “Diversidade e escuta não são apenas valores institucionais – são método”, afirma. A frase ajuda a entender a proposta do The Core para além de um vocabulário já assimilado pela comunicação de marca: aqui, diversidade e escuta aparecem como condições de possibilidade para que o espaço não se feche sobre si mesmo. Sem escuta, ele se tornaria um lugar encerrado em sua própria linguagem. Sem diversidade, perderia profundidade.

Na curadoria, o critério também não é o formato, mas a intenção. Klaus resume esse processo em três eixos: autenticidade, conexão com o território e potência de troca. A pergunta central não é apenas o que combina visualmente com o espaço, mas o que ativa presença, diálogo e expressão. O que é “replicável, vazio ou desconectado”, por outro lado, não interessa ao projeto.

Esse posicionamento também desloca a relação entre consumo e experiência. Em vez de organizar o espaço para o giro rápido, o The Core aposta em permanência. Klaus explica isso de forma direta ao dizer que “o café não é só consumo – é pausa e encontro. A moda não é só produto – é linguagem e identidade. A programação cultural não é só entretenimento – é plataforma de expressão”. A operação, nesse sentido, tenta produzir contexto, e não apenas oferta. O objetivo não é que as pessoas apenas passem por ali, mas que vivam o espaço.

A construção dessa identidade, no entanto, exigiu cuidado. Um dos principais desafios foi evitar que a proposta se diluísse ao reunir múltiplas frentes. “O maior desafio foi não diluir a ideia”, diz Klaus. Em um cenário em que espaços híbridos podem facilmente se tornar genéricos, o The Core buscou consistência conceitual entre programação, design, operação e experiência. Havia ainda uma exigência mais funda: fazer com que o projeto nascesse da cidade, e não fosse simplesmente aplicado sobre ela.

Essa mesma lógica orienta a relação do espaço com artistas, criadores e cenas independentes. Em vez de funcionar como vitrine, o The Core quer operar como plataforma, abrindo espaço real para experimentação e presença. Isso aparece em ações como open mic, ocupações culturais e uma programação contínua que não reserva visibilidade apenas para nomes já consolidados, mas também para quem ainda está construindo trajetória.

No fim, o que o The Core parece propor é menos um destino de consumo e mais uma experiência de pertencimento. Klaus resume esse desejo ao dizer que a intenção é que alguém saia dali com a sensação de que “viveu algo – não só que foi a um lugar”. Entre fluxo, concreto e disputa, o projeto tenta afirmar outra possibilidade para o centro: a de um espaço em que presença, troca e permanência ainda possam ganhar corpo.

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João Pedro Fontes

[ELE/DELE]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade, aprofundou-se em suas raízes e tornou-se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter, com experiência em gestão de marcas, criação de campanhas e desenvolvimento de estratégias digitais com foco em cultura e identidade.

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