COLUNA

João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em

Guilherme Cortez e a batalha pela geração Z

Guilherme Cortez debate o impacto da geração Z e a luta da esquerda nas redes para renovar a comunicação política rumo a 2026.

Pautando o Amanhã: 001 

Que a extrema-direita usa o pânico moral como combustível eleitoral, já sabemos. O que muda é o alvo de cada vez.

No dia 30 de maio, Rubinho Nunes escolheu a Marcha do Orgulho Trans de São Paulo para espalhar fake news pelas redes: disse que o evento acabou quando, na prática, trocará de organização. O pretexto era comemorar a queda no apoio de marcas à comunidade LGBTQIAP+.

Essa é a cartilha: pegar um fato incompleto, distorcer, e viralizar antes que alguém corrija.

O problema é que funciona com quem não vai verificar. Mas o cenário não é sombrio. Ainda existem marcas que apoiam a comunidade de forma real, sem performance de calendário, e pessoas dispostas a enfrentar esse tipo de narrativa dentro do campo político.

Uma delas é Guilherme Cortez, deputado estadual por São Paulo e pré-candidato a Deputado Federal nas eleições de 2026, que entrevistei para abrir a série Pautando o Amanhã.

Você estudou na Unesp Franca e é engajado em pautas estudantis. De que forma a sua vivência universitária e política impacta na criação de seus vídeos, permitindo que você traduza pautas complexas em pílulas de informação acessíveis para quem não entende?

Guilherme Cortez: [Começou no movimento estudantil, onde aprendeu a fazer política.] Isso permitiu conhecer melhor os problemas do Estado de São Paulo, a realidade de diferentes regiões, onde depois eu me elegi. Por ser um representante de uma nova geração na política, eu sempre me vi na responsabilidade de me comunicar com essa geração.

Eu acho que tem um problema hoje na comunicação da esquerda com essa nova geração. As pesquisas mostram que a maior parte desses jovens se inclina para a direita […]. Eu não acho que a geração Z é conservadora porque nenhuma geração é predeterminada à sua ideologia. É uma geração que cresceu em um mundo com muitos problemas, um mundo repleto de frustrações. As pessoas têm dúvidas se elas vão conseguir entrar na faculdade, se vão se aposentar, se vai ter mudança climática, se elas vão poder ser elas próprias. É uma panela de pressão.

E, diante disso, a direita dialoga melhor porque aprendeu a utilizar o veículo, que é a rede social […] e fala sobre inseguranças legítimas, dando respostas simplistas sobre corrupção, violência, emprego. Então, eu tenho tentado nesse mandato me comunicar de uma outra maneira […] para me comunicar com essa geração que a direita investe e a esquerda, que historicamente sempre foi mais ligada à juventude, tem se descolado.

Geralmente, no ambiente acadêmico, a gente está muito acostumado a grandes textos, a uma hiper racionalização das coisas, que eu acho super importante, mas que definitivamente não é a forma como as pessoas se informam sobre política. Tenho tentado permanentemente aprimorar a minha maneira de me comunicar, porque eu acho que a direita está vencendo a batalha da comunicação e, sobretudo, da disputa da minha geração.

Em 2022, um corte seu com Ricardo Salles viralizou e teve projeção nacional. A partir desse momento, você teve uma virada de chave sobre a força que esse tipo de conteúdo tem na internet?

Guilherme Cortez: Quando eu me elegi, foi uma eleição absolutamente improvável. Foi a zebra da eleição, porque eu venho de uma cidade do interior que nunca tinha eleito ninguém à esquerda, eu não era vereador, não tinha recursos. Esse episódio deu uma repercussão imensa, que a gente não esperava. Muita gente pôde me conhecer a partir da repercussão disso, pessoas que não me conheceriam de outras maneiras, porque eu não tinha dinheiro para chegar a minha campanha até elas.

Foi a primeira vez que uma coisa que a gente posta na rede teve uma repercussão nacional, saiu em veículos de imprensa e mostrou para mim essa potência da comunicação na rede. […] Há 30 anos atrás, a minha eleição teria sido impossível. Você só conseguia se comunicar com as pessoas se você já fosse muito conhecido, se tivesse espaço na TV ou condição financeira de fazer sua campanha chegar. A rede dobra isso.

Olha que exemplo maravilhoso a gente está tendo agora com a escala 6×1. A gente está prestes a provar o fim de uma escala de trabalho abusiva que começou com um vídeo no TikTok do Rick Azevedo. Foi um vídeo muito simples, muito autêntico, feito por uma pessoa que vivia naquela escala […]. Isso desencadeou um movimento que mudou a história do Brasil no limite.

@rickazzevedo

Até quando essa escravidão?? 😡 #clt #escala6x1 #fy

♬ som original – Rick Azevedo

Legenda: Vídeo sobre escala 6×1 postado por Rick Azevedo

O problema é que a esquerda geralmente só fala dos problemas da rede, como se a gente pudesse negá-la. […] A intervenção tradicional também nunca teve do nosso lado e a gente aprendeu estratégias para conseguir disputar ali. A mesma coisa com a rede social.

Desde então, no mandato, a gente tem se provocado para sempre ser mais criativo, ser menos pedante, ser mais acessível. Geralmente, a gente faz muita comunicação do seu ponto de vista, do que você quer falar […] meio que um exercício de mostrar o quanto você sabe. Eu acho que a comunicação política tem que ir além disso.

Legenda: Foto cedida

Sua trajetória é muito ligada ao interior do Estado. Quando chegou ao mandato, teve algum embate com políticos da capital? E de que forma essa vivência entre os dois mundos impacta no seu fazer político?

Guilherme Cortez: Eu nasci na capital, me mudei para o interior para fazer faculdade, depois continuei morando em Franca e me elegi para viver entre os dois lugares. Isso me deu várias vivências, de ter crescido na maior cidade do país e depois ter me mudado para uma cidade do interior.

O interior tem vários chavões. A direita diz que é uma terra tranquila, apaziguada, enquanto acusa os grandes centros de serem espaços de baderna e globalismo. Isso não é verdade, porque as cidades do interior têm uma série de problemas que a população sente sozinha. As pessoas geralmente se sentem desprestigiadas, sentem com menos atenção do que os grandes centros. […] Ao mesmo tempo, a esquerda às vezes trata o interior como um todo conservador, atrasado, antiquado. Também não é verdade, porque tem muita gente criativa, moderna, muito movimento, muita luta rolando no interior.

Quando eu me elegi, fui o primeiro deputado de esquerda da minha região, o primeiro bissexual, o mais jovem. Foi um perfil que a política da minha região nunca tinha tido e que dizia-se que nunca teria. Me sinto com a responsabilidade de dialogar com essa geração e, por ser um dos poucos parlamentares da esquerda no interior, de representar esse território, que é predominantemente dominado pela velha política, pela direita, pelo conservadorismo.

E, ao mesmo tempo, eu tenciono o meu campo para dizer que o interior não pode ser abandonado. A gente ganha na capital e na região metropolitana nas eleições, só que eles ganham no interior. […] Se a gente quiser mudar o Estado, a gente precisa disputar o interior, desatar esse nó do conservadorismo. Às vezes, você encontra cinco pessoas numa cidade, mas são as cinco pessoas de esquerda que estão lá levantando uma parada LGBT, organizando um coletivo feminista, montando um partido. São as cinco pessoas que estão batendo de frente com esse sistema. Se você apoia, isso floresce.

Em um cenário em que o ódio avança cada vez mais, o que te mantém motivado a lutar pelo que você acredita? O que você tem a dizer às pessoas mais novas do movimento que se veem sem esperança?

Guilherme Cortez: Nós somos de uma geração em que é fácil perder a esperança. Pela primeira vez as pessoas olham para o futuro como sinônimo de medo, e não mais como uma coisa motivadora, gloriosa, que gera expectativa. E as gerações mais novas sentem isso diretamente, porque estão lidando com uma série de frustrações que eu acho muito injusto.

Eu aprendi no movimento estudantil que, quando as pessoas se juntam e decidem que querem mudar alguma coisa, tem uma frase que eu gosto muito do Trotsky: quando chega a hora, o que antes parecia impossível se torna inevitável.

Eu ocupei escola em 2015 e milhares de estudantes com menos de 18 anos conseguiram derrotar o governo na época. […] E, como eu sempre gostei de história, aprendi que ela está recheada desses exemplos. Há 100 anos atrás, as mulheres sequer podiam votar no Brasil. Durante três séculos, a maior parte da população brasileira estava escravizada. Durante 21 anos, o Brasil viu uma ditadura. E quem questionava isso pagou caro. Quando as pessoas confiam nas forças que têm, se juntam e decidem mudar o que acham que está errado, elas conseguem mudar qualquer coisa.

Eu tenho rodado pelas universidades, faculdades, cursinhos e escolas para tentar convencer essa geração das suas próprias forças. Agora a gente está com uma greve. Os estudantes da USP em campo, coisa que eu não imaginava ver. Fazia dez anos que as universidades não entravam em greve […]. Eu não imaginava que ia ver, de novo, os estudantes das universidades fazendo coisas tão grandes, tão bonitas, tão criativas. É isso que me enche de esperança e me confirma a minha certeza de que, quando as pessoas querem, elas conseguem mudar o que querem.

Nota editorial: No primeiro ano de mandato, Guilherme travou uma das batalhas mais concretas do seu gabinete: a luta contra a privatização da SABESP. O que parecia pauta técnica se tornou realidade na conta de água de milhões de paulistas. Assista abaixo.

Guilherme Cortez anunciou nesta segunda, dia 1º de junho, sua pré-candidatura a Deputado Federal nas eleições de 2026. A aposta é na força que já construiu nas redes e no estado de São Paulo para, agora com olhos em Brasília, enfrentar as attention whores de extrema-direita que transformaram o Congresso em palco de circo. 

Quem acompanha seus vídeos sabe que ele tem uma habilidade rara: desmontar narrativa no tempo de um corte.

Saí da chamada com mais esperança do que entrei. Tem gente que não se conforma com o estado atual da política brasileira, e é esse inconformismo que move quem quer um mundo diferente. Uma última coisa: não amplifique quem vive de atenção. A extrema-direita precisa de silêncio.

COLUNISTA

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João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

João Pedro Fontes, nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter com foco em cultura e identidade.
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