COLUNA

Moon Kenzo

[ela/dela]

Travartista sobralense. Música, Literatura e comunicação.

Turistas da Submissão: quer o fetiche mas sem a disciplina?

Os turistas da submissão chegam ensaiados, de plug e calcinha, e fogem quando a verdadeira disciplina começa. O verniz sempre estala. 

O ponto de partida

Há um momento na vida de uma pessoa LGBTQIAPN+ em que se torna necessário escolher entre ter um fetiche, ser um fetiche, ou ser a songamonga que se sente superior apenas por ser medrosa demais para bancar essa escolha. Como uma travesti de 1,74m e mais de 100kg, posso contar incontáveis histórias de como o sexo abre portas, valida comportamentos, empodera corpos e, por sua vez, explora as fraquezas sociais e os desvios de caráter humano. Esse é o meu ponto de partida para essa conversa. Como parte de uma comunidade que ainda precisa lidar com homens cisgêneros, posso garantir: já é difícil o bastante lidar com eles quando a relação é baunilha. Mas e se eu te dissesse que, mesmo amarrados, vendados e com a bunda marcada de cera de vela e chibata, o homem contemporâneo ainda não consegue abrir mão do ego?

O verniz da autoimagem

Ele chega de plug e calcinha, com o vocabulário muito bem ensaiado de quem consome o suficiente da estética BDSM para achar que entende a dinâmica do poder. Entre as minhas paredes, no entanto, eu sou uma deusa. Ele quer as cordas, o chicote, a humilhação milimetricamente calculada, algumas velas acesas. Quer o meu stiletto, que ele se lambuza ao pôr na boca, tudo perfeitamente coreografado para não arranhar de verdade o verniz de sua autoimagem.

O turista da submissão

Ele implora para me ver pelo menos uma vez por mês. Eis o que chamo de “turista da submissão”: aquele que, mesmo casado, procura o roleplay apenas como um suvenir exótico para alimentar o próprio ego. O problema é que ele fica catatônico quando uma dominadora experiente como eu manda a real e exige o que ele, como um verme, é inapto a proporcionar: obediência irrestrita.

Que o homem contemporâneo está em crise com a própria masculinidade não é novidade. A preguiça masculina, até dos mais progressistas, em entender e estender as relações sociais, e até mesmo as de poder, já é discutida há anos por feministas brancas no alto de suas universidades. Mas até no submundo, onde a luz do sol não bate, ele trata a dinâmica de dominação e submissão como um jogo de RPG de fim de semana. É o escape depois de deixar a mulher ou a namorada no crossfit, ou em qualquer atividade em que ele não precise estar presente para manter as aparências: a gozada performática com hora marcada. Ele quer usar a coleira com o meu nome, mas, no fundo, exige segurar a outra ponta da guia também. É sempre cômico quando, entre a terceira e a quarta sessão, a atuação rasa acaba e a verdadeira disciplina começa. Nunca me esqueço dos olhares apavorados: eles piscam, lacrimejam, perdem o ar, o chão, usam a palavra de segurança assim que percebem que as rédeas não estão mais nas mãos deles.

A morte do ego

A verdadeira submissão não é sobre a carne marcada ou o quão fundo eu consigo ir com o meu pulso no seu ânus; é sobre a morte do ego. E para um turista, na maioria das vezes um homem cis, o ego é a única estrutura que o mantém de pé. Ele é covarde demais para entregá-lo na bandeja, e isso me entretém. Foi por isso que comecei essa prática.

A crise tem cheiro e textura

A já mencionada “crise da masculinidade” não é apenas uma pauta distante. Os conservadores acham que não existem mais homens como antigamente, os progressistas acham que os homens estão em eterna desconstrução, “tadinho deles”, e tem eu, que não confio nem na própria sombra e que, se não fosse pela atração sexual, nunca daria nem bom dia a esse gênero. No roleplay, a crise tem cheiro e textura. É a frequência exata do pânico que pulsa nos olhos de quem paga ou implora pelo chicote, mas se caga, literalmente, diante da submissão real.

A humilhação gourmetizada

Os turistas da submissão querem a humilhação gourmetizada. Querem a roupa de látex para postar nas redes sociais secretas que escondem do convívio social, apenas para facilitar a masturbação pós-sessão. Querem umas palmadas, mas “não bate tão forte”. Querem ser humilhados, mas trazem uma lista de temas proibidos. Eles exigem o cenário drástico de que eu os amarre de quatro, os vende e apague vários cigarros em suas línguas enquanto apoio minhas pernas sobre suas costas, mas só se puderem ditar quantos cigarros serão usados e quantos nós eu darei na corda. Querem voltar ilesos para o seu pacto de mediocridade na segunda-feira. No exato momento em que a brincadeira exige que encarem a própria pequenez, o verniz estala.

O trono de papel

Não estamos falando aqui sobre “homens sendo homens”. O xis da questão também não é a ausência de consentimento (a segurança física da prática está lá), mas sim o colapso psicológico daquele que consente com a cena, mas não suporta a rendição. Estamos eloquentemente verbalizando sobre a falência completa de uma estrutura vinílica extremamente frágil, que busca o teatro da rendição na tentativa de sentir algum estímulo, apenas para descobrir (ou se descobrir), sob a sola do meu stiletto, que o seu trono sempre será de papel.

A verdadeira dominância não se impressiona com quem compra a entrada para um parque de diversões, o que não quer dizer que eu não me divirta horrores. Eles desejam o fetiche, querem a narrativa para contar vantagem para si mesmos, mas não aguentam a fatídica disciplina. Porque brincar de submisso é fácil; estarrecedor mesmo é admitir que você nunca teve o controle de nada.

COLUNISTA

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Moon Kenzo

[ela/dela]

Moon Kenzo é uma artista multimídia sobralense: cantora, compositora, atriz e escritora. Graduanda em Letras-Inglês pela UVA, Moon transita entre a música, a literatura e o palco como extensões de um mesmo corpo trans, preto e gordo. Sua trajetória é movida pela recusa em aceitar as fronteiras que tentam impor à sua arte, fundindo R&B, Soul e Synthwave para narrar as fissuras da existência. Com presença em antologias como Embaixo do Cajueiro e Cerol e Navalha (2024), e prestes a lançar seu manuscrito Ávida (2026), Moon enxerga na escrita um exercício de sobrevivência. Ela não busca a neutralidade, busca o corte, sua voz é a ferramenta com a qual reescreve a própria história, devolvendo ao mundo a visceralidade que tentaram lhe negar. Para Moon, a arte é o lugar onde o confronto vira criação: “Se a língua é uma arma, a minha é submetralhadora carregada com infinitos pentes.
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