Sexualidade Afirmativa, consentimento e autoria erótica: uma investigação sobre desejo, pertencimento e imagens íntimas.
O workshop
Recentemente facilitei um workshop chamado Quem enviou esse nude? dentro do festival de cinema P-Rec focado em sexualidade, corporalidades e diversidade, em São Paulo.
Ao final de um exercício aparentemente simples, ficou evidente algo que venho investigando há anos através da fototerapia erótica, do consentimento somático e daquilo que chamo de Pornografia Pessoal:
Nós não enviamos corpos. Nós enviamos imaginários.
O que costumamos discutir sobre nudes
A discussão pública sobre nudes costuma ser previsível. Falamos sobre segurança digital, vazamento de imagens, sexting e exposição corporal. São temas importantes e urgentes. Mas, se olharmos mais de perto, perceberemos que um nude nunca é apenas uma imagem. Ele é um encontro entre imaginários; um ato de comunicação carregado de expectativas, vulnerabilidades e projeções.
O exercício: desenhando o pedido
Talvez seja justamente por isso que duas pessoas podem olhar para o mesmo pedido e imaginar cenas completamente diferentes. O que circula entre nós nunca é apenas um corpo, mas também histórias, referências, fantasias, inseguranças e desejos aprendidos ao longo da vida.
A proposta era simples. Em duplas, uma pessoa faria um pedido de imagem para a outra. Algo como:
“Você pode me mostrar você saindo do banho?” ou “Você pode me mostrar você relaxando na cama?”
Antes de qualquer fotografia, ambas precisavam desenhar a imagem que imaginaram. Quem fazia o pedido desenhava o que gostaria de receber. Quem recebia o pedido desenhava o que acreditava que estava sendo solicitado.
Universos que se revelam
Os resultados foram fascinantes. O que parecia um pedido simples revelava universos singulares. Enquanto uma pessoa imaginava um corpo inteiro, outra desenhava apenas um detalhe. Enquanto uma imaginava sensualidade, a outra imaginava intimidade. Enquanto uma pensava em ângulo, a outra pensava em luz. Uma em erotismo, a outra em conforto.
Naquele momento ficou evidente que nunca estamos falando apenas de imagens. Estamos falando de mundos internos.
Nem todos os imaginários nascem iguais
Mas nem todos os imaginários nascem sob as mesmas condições. Alguns corpos cresceram vendo pessoas parecidas consigo mesmas, sempre sendo celebradas, desejadas e erotizadas. Outros cresceram aprendendo exatamente o contrário. Aprendendo que eram demais. Ou de menos.
Demasiado gordos. Demasiado afeminados. Demasiado masculinizados. Demasiado velhos. Demasiado trans. Demasiado monstruosos. Demasiado queer.
A pergunta por trás da pergunta
Quando esses corpos enviam uma imagem, a pergunta nem sempre é apenas: “Será que vão gostar?” Às vezes o que vem antes é: “Será que meu corpo pode existir aqui?” Talvez por isso a pergunta mais interessante sobre um nude não seja: “Quem recebeu e como recebeu essa imagem?” Mas: Quem enviou esse nude?
A primeira resposta parece simples. Foi a pessoa do outro lado da conversa. E, convenhamos, quem nunca recebeu um nude não solicitado que atire a primeira pedra. Mas existe uma segunda camada – quem, dentro de mim, decidiu enviá-lo?
A pessoa apaixonada? A pessoa que quer brincar? A pessoa que deseja provocar? A pessoa que quer ser vista? A pessoa que deseja pertencer? A pessoa que está celebrando seu próprio corpo? A pessoa que busca validação? Ou a pessoa que está tentando preencher uma ausência?
Porque dentro de nós convivem muitas pessoas, e às vezes todas elas apertam “enviar” juntas.
Consentimento como tecnologia
É exatamente aqui que entra o consentimento. Não como uma regra chata, um protocolo burocrático ou um contrato jurídico, mas como uma tecnologia de comunicação e autonomia.
Se os nudes são encontros entre imaginários, o consentimento é uma das ferramentas que temos para diminuir a distância entre aquilo que desejamos expressar e aquilo que a outra pessoa compreende. Ele nos convida a formular pedidos mais exatos, ouvir respostas mais honestas e assumir responsabilidade pelos nossos próprios desejos.
A dificuldade de dizer não
Ao longo do workshop, diante da pergunta “Posso te mandar um nude?”, ume participante compartilhou algo que sempre me atravessa profundamente quando trabalhamos o consentimento – a dificuldade de simplesmente dizer “não” diante de um pedido. O impulso imediato era justificar. Explicar. Amenizar. Negociar. Como se um simples “não” precisasse vir acompanhado de uma defesa.
Uma participante resumiu isso de forma brilhante ao dizer que a primeira resposta que lhe vinha à cabeça era: “não precisa”. Não um “não”, mas um “não acompanhado de justificativa”. Como se estabelecer um limite exigisse uma explicação.
Fomos socializades, especialmente mulheres, pessoas queer e outras dissidências, a administrar o conforto alheio antes do nosso próprio. Aprendemos a suavizar recusas, antecipar expectativas e evitar conflitos. Muitas vezes, dizer “não” parece mais difícil do que suportar algo que não desejamos.
Talvez por isso o consentimento seja tão transformador. Ele nos lembra que limites não precisam de defesa. Eles precisam apenas existir.
O que uma imagem pergunta
Outre participante conseguiu observar que enviar nudes não era apenas sobre desejo. Era também sobre expectativa. Sobre aquilo que esperamos encontrar no olhar de quem recebe. E talvez seja aí que a conversa sobre nudes encontre algo muito maior do que os próprios nudes. Porque muitas vezes não estamos compartilhando apenas uma imagem, estamos compartilhando uma pergunta.
“Você me vê?” “Você me deseja?” “Você me acha bonite?” “Você acha que eu existo?”
O desejo de ser testemunhade
Muitas vezes o desejo de enviar uma imagem não nasce do exibicionismo nem do tesão pura e simplesmente, nasce do desejo profundamente humano de ser testemunhade.
Durante muitos anos eu mesme acreditava que a dor residia na rejeição. Hoje ouso dizer que ela costuma aparecer antes. Ela surge quando confundimos expressão com validação. Quando aquilo que criamos deixa de ser um presente e se transforma numa cobrança silenciosa. Uma das maiores viradas da minha relação com a sexualidade aconteceu quando comecei a investigar essa diferença.
O que é meu desejo? E o que é minha carência? O que estou compartilhando porque me dá prazer? E o que estou compartilhando porque espero receber algo de volta?
As culturas dos nudes
Ao longo dos anos facilitando processos de fototerapia erótica aliado ao consentimento somático, percebi que os nudes também carregam culturas. Existem padrões que aparecem com frequência.
Há quem envie genitais como apresentação. Há quem envie atmosferas. Há quem envie mistério. Há quem envie fragmentos. Há quem esconda justamente a parte do corpo que acredita ser mais difícil de desejar. Há quem tenha coragem e faça exatamente o contrário.
Como se dissesse:
“Antes que você rejeite essa parte de mim, vou mostrá-la primeiro.”
Quem estamos sendo quando nos mostramos
Talvez por isso eu tenha cada vez menos interesse em discutir apenas o que mostramos. O que me fascina é investigar quem estamos sendo quando decidimos nos mostrar.
Quais desejos estão falando. Quais histórias estão sendo contadas. Quais partes de nós estão pedindo passagem.
Pornografia Pessoal
Essa investigação me levou ao conceito de Pornografia Pessoal, um conceito que venho desenvolvendo há anos através da fotografia, da facilitação de grupos e da investigação dos imaginários eróticos. Não como produção de conteúdo adulto, nem como performance para uma audiência, mas como uma prática de autoria erótica. Uma forma de construir imagens que não respondam apenas às expectativas do olhar alheio. Mas que também expressem algo verdadeiro sobre quem as cria.
A pornografia dominante costuma nos ensinar como um corpo desejável deveria parecer. A Pornografia Pessoal nasce de outra investigação – a prática de criar imagens eróticas não para corresponder a um ideal de desejo, mas para investigar quem somos quando desejamos.
Por isso a pergunta que me interessa não é:
“Como posso parecer mais desejável?”
Mas:
“Como meu corpo deseja aparecer quando ninguém está dizendo como ele deveria ser?”
Sexualidade Afirmativa e autorização do desejo
Dentro da Sexualidade Afirmativa, costumo dizer que o trabalho não é aprender a ser outra pessoa, tampouco aprender novas formas de desejar. É construir condições para reconhecer, nomear e autorizar os desejos que já existem. Nem sempre o desafio é descobrir o que queremos. Muitas vezes o desafio é admitir que queremos e bancar comunicar isso, independente do resultado disso. Afirmar o próprio desejo como prática de amor próprio.
Imagens mais autorais
Talvez a mesma lógica possa ser aplicada aos nossos nudes.
Talvez o desafio não seja aprender a produzir imagens mais desejáveis.
Talvez o desafio seja produzir imagens mais autorais.
Imagens que expressem nossos desejos, nossos corpos, nossas fantasias e nossos imaginários com mais honestidade.
Porque um nude nunca é apenas uma imagem. É um encontro entre imaginações. Um pequeno artefato erótico carregado de desejos, fantasias, medos, expectativas e perguntas.
Antes de apertar enviar
São perguntas como essas que movem meu trabalho com a Sexualidade Afirmativa através da arte e da imaginação.
E talvez sejam também algumas das perguntas que vamos explorar por aqui.
Enquanto isso, da próxima vez que você apertar “enviar”, experimente uma pequena pausa, perceba seus fluxos de prazer, suas necessidades latentes, e pergunte:
Quem enviou esse nude?