COLUNA

Rafael Nascimento

[ele/dele]

Jornalista com mais de sete anos de atuação. Foi editor e repórter de Sexualidade LGBT+ no Portal iG

Renaissance: uma ode queer

O primeiro ato da trilogia em curso lançada por Beyoncé em 2023 completou quatro anos nesta semana. O impacto ainda ecoa para as pessoas negras e queers

Cozy abre o álbum com um desfile de cores emprestando peso emocional à jornada que a faixa descreve, do preto ao dourado, terminando num passeio de iate por Capri.

Black like love too deep

Dance to the soles of my feet

Green eyes envy me

Paint the world pussy pink

Blue like the soul I crowned

Purple drank and couture gowns

Gold fangs a shade God made

Blue, black, white and brown

Paint the town red like cinnamon

Yellow diamonds, limoncello glisterin’

Rainbow gelato in the streets

Renaissance, yachtin’ in Capri

Trecho da letra de Cozy, de Beyoncé (Renaissance, 2023)

Beyoncé tinha um plano todo já arquitetado quando pegou o mundo de surpresa – mais uma vez – ao anunciar em 29 de julho de 2022 o lançamento de Renaissance, o primeiro ato de uma trilogia que ainda está em curso. Aos poucos, o planeta foi entendendo que a artista estava decidida a resgatar os créditos da comunidade negra a gêneros musicais criados originalmente pela tal, mas que foram usurpados por pessoas brancas.

A psicóloga social, escritora e ativista Cida Bento elabora no best-seller O Pacto da Branquitude um conceito homônimo que ela define como um “pacto narcísico não verbalizado que mantém o mesmo segmento, em geral masculino e branco, nos lugares de poder do país e em todo tipo de instituição”.

“Esse pacto, ao mesmo tempo que fortalece o mesmo grupo, exclui quem não faz parte deste grupo. É um pacto que sustenta as desigualdades”. Provavelmente Beyoncé não conhece a intelectual brasileira, e nem O Pacto da Branquitude, mas a partir de sua trilogia está materializando o combate a esta estrutura de opressão e segregação.

Foi sabido posteriormente que Renaissance seria o segundo ato do projeto que, ao que tudo indica, ainda vai se aventurar pelo universo do rock, após as eras disco e country. O álbum com raízes country, Cowboy Carter, encabeçaria os lançamentos, mas a crise sanitária da Covid-19, entre 2019 e 2023, mudou o curso da história. Beyoncé entendeu que o mundo precisava dançar, se divertir e respirar. Renaissance fazia mais sentido naquele momento e foi uma escolha muito acertada. Desde então, estamos testemunhando o projeto mais arriscado e ousado da cantora norte-americana, que já está acostumada a lançamentos audaciosos e impactantes, como Beyoncé (2013) e Lemonade (2016), ambos álbuns visuais.

Uncle Jonny made my dress

Tina e Jonny, mãe e tio de Beyoncé

Na dedicatória no encarte do álbum, Beyoncé revela que os três atos foram gravados durante todo o período da pandemia e que no processo esteve “no auge” de sua criatividade.

“Minha intenção era criar um espaço seguro, um lugar sem julgamentos. Um lugar para se libertar do perfeccionismo e do excesso de reflexão. Um lugar para gritar, extravasar e sentir liberdade. Foi uma bela jornada de exploração”. Esse sentimento expressa a sensação que os admiradores da cantora sentiram nas primeiras audições do álbum. Foi uma catarse coletiva, especialmente para a audiência negra e LGBTQIAPN+ de Beyoncé. A saudação carinhosa que a cantora fez ao seu tio gay Jonny, que falecera vítima de HIV, tornou a atmosfera ainda mais acolhedora às pessoas queer que se sentiram tocadas com o projeto.

“Um grande obrigado ao meu tio Jonny. Ele foi meu padrinho e a primeira pessoa a me apresentar grande parte da música e da cultura que serviram de inspiração para este álbum”. Na letra de Heated, uma das canções que mais exaltam a cultura Ballroom no disco, Beyoncé cita nominalmente o tio, que costumava costurar vestidos para ela e que a introduziu ao universo imaginativo e celebrativo que a comunidade LGBT+ se permite viver.

Ao receber o Vanguard Award no GLAAD Media Awards em 2019, por sua contribuição e apoio à comunidade queer, Beyoncé citou uncle Jonny com a voz embargada. “Ele foi o homem gay mais fabuloso que eu já conheci, e ajudou a criar eu e minha irmã [Solange]. Ele viveu sua verdade, foi corajoso e destemido numa época em que esse país [EUA] não era tão receptivo. Testemunhar sua batalha contra o HIV foi uma das experiências mais dolorosas que eu já vivi […] “Direitos LGBTQI são direitos humanos.”

A fala viralizou de novo entre fãs anos depois, prova de como o momento segue ecoando.

Outros nomes importantes da comunidade LGBTQIAPN+ também fizeram parte do projeto e merecem menção. Big Freddia, “Queen of The Bounce”, teve Explode sampleada no lead single do álbum, Break My Soul, que expressa a necessidade de se libertar de amarras – a temática combinou perfeitamente com aquele momento em que todos estavam traumatizados pelo isolamento social.

A DJ e produtora trans Honey Dijon, ícone da house music contemporânea, esteve envolvida nas faixas Alien Superstar e Cozy – esta última ainda conta com um sample de um vídeo viral da atriz, produtora e apresentadora trans, Ts Madison.

Em Pure/Honey, Beyoncé sampleia Feels Like, de um dos DJs mais importantes da cena Ballroom contemporânea, MikeQ. A música original conta com a voz de Kevin JZ Prodigy, um dos MCs mais conhecidos dos balls de Nova York e que trouxe a atmosfera exata das competições de Ballroom para o álbum. Kevin chegou a participar de um dos shows da Renaissance Tour, como ato de abertura em um set de DJ. A drag queen Kevin Aviance também é sampleada em Pure/Honey com a faixa CUNTY. Miss Honey, de Moi Renée, é outra música contida na faixa do Renaissance e se tornou um dos trechos mais icônicos de todo o álbum.

A canção da performer jamaicana é uma das primeiras “bitch tracks” que se tem conhecimento. O subgênero da house music e da Ballroom music, do início da década de 1990, é caracterizado por frases repetitivas e afrontosas, típicas de movimentos como o “reading”, em que a ofensa e o deboche entram no campo da performance.

Grace Jones e Donna Summer, embora não LGBTs, mas ícones para a comunidade queer e para a house music, também estão presentes no álbum. Em uma entrevista à Vogue norte-americana em 2022, Jones revelou ter relutado em participar da colaboração em Move, já que é do tipo “garota que nasce sozinha, morre sozinha e canta sozinha”.

Mas, Beyoncé, com todo o seu jeito carinhoso e sulista-texano convenceu o ícone pop para o ato raro de participação. “Me recordo de dizer: ‘Beyoncé, você sabe que não costumo fazer esse tipo de coisa’ […] Ela foi muito gentil, então eu disse que sim. Na verdade, já a encontrei algumas vezes — na igreja do meu irmão em Los Angeles. Então, além de sermos cantoras, tínhamos também essa conexão com a igreja.”

Grace Jones

Poderia escrever mais e mais sobre todas as referências queer que Beyoncé e seu time utilizaram em todo o projeto Renaissance, que fez jus à memória Ballroom e da house music, mas é importante evidenciar que também houveram críticas, especialmente pela falta de representatividade trans no palco em holofote junto à cantora – e não apenas quando “as cortinas estão fechadas”, como na produção do disco.

Apesar da presença de Honey Balenciaga, um ícone trans da cena vogue, muitos fãs notaram a falta de pessoas da sigla T durante a turnê do álbum. “Ninguém está imune a críticas; não se deixe enganar pela idolatria. Eu também amo a Beyoncé, mas por que há pessoas abertamente homofóbicas se apresentando em um palco que deveria ser dedicado a pessoas queer? Por que não há nenhuma mulher trans (até onde sabemos) neste palco fortemente inspirado na cultura Ballroom?”, escreveu a drag queen Eva Styles em 2023 em referência a apresentação do rapper Offset como ato de abertura em um dos shows.

O rapper já havia se envolvido em uma série de episódios LGBTfóbicos até então, tendo, inclusive, sido explicitamente queerfóbico em uma participação numa música alheia, dizendo que não conseguia se identificar com pessoas queer e se comparando a um urso arisco, uma fala que foi devidamente apontada por fãs na época.

Apesar deste equívoco, e que foi devidamente apontado, não podemos negar a relevância que é uma artista mainstream do porte de Beyoncé colocar em tamanha evidência o legado e a contribuição de pessoas que pavimentaram a cultura Ballroom e LGBTQIAPN+. Foi de grande satisfação se sentir representado, abraçado e celebrado, em um momento em que artistas se retraem e se isentam de responsabilidades coletivas que suas carreiras lhe impõem.

Mesmo na turnê do Cowboy Carter, Beyoncé fez questão de manter elementos da cultura Ballroom nas apresentações, afirmando seu compromisso de criar um projeto coeso e que dialoga entre si, mostrando que a comunidade negra tem potência, inteligência, excelência e multiplicidade. Ela trouxe autoestima, história e conhecimento ao seu público. Fez sua obrigação, com todo o aparato que a circunda e todo o investimento que está ao seu alcance. É este tipo de entrega que o mundo espera – e precisa – de artistas com esta envergadura.

O mais importante é que ainda não acabou! Prince, Tina Turner e tantos outros que ainda nem conhecemos estão a caminho. Beyoncé já deixou pistas, e não resta mais dúvida de que o rock ‘n’ roll nos aguarda no Ato III. Tudo o que nos cabe agora é esperar, pacientemente, pelo tempo da rainha. Quando ela estiver pronta, saberemos.

COLUNISTA

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Rafael Nascimento

[ele/dele]

Rafael Nascimento é um jornalista homem gay cis natural da Baixada Fluminense com mais de sete anos de experiência. Já desempenhou funções como editor, repórter e produtor de conteúdo em diferentes veículos. É graduado pela Universidade Veiga de Almeida e pós-graduando em Direitos Humanos e Questões Étnico-Sociais pela PUC-PR. É jornalista na Secretaria de Cultura e Turismo de Duque de Caxias e editor freelancer na Marie Claire. Foi editor de Homepage e Redes Sociais no Portal iG. No mesmo site, foi repórter e depois promovido a editor em Queer, atuando na pauta de Sexualidade LGBTQIAPN+. Foi repórter freelancer na Editoria E+ (Cultura, Comportamento e Entretenimento) do Estadão e trainee no 11º Curso de Jornalismo Econômico, também do jornal paulista. Participou do “Lab 99 + Folha de São Paulo: Tecnologia para Todos” em que produziu e apresentou o podcast “Dinheiro para Todos: Bancarização e Soluções Digitais”. O projeto levou o 2º lugar no Prêmio 99 de Jornalismo.
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