No dia em que completou 20 anos, Cocona publicou uma carta no Instagram do XG e se assumiu transmasculino não binário. A indústria que construiu impérios sobre a imagem da “garota perfeita” agora precisa lidar com um idol que é não binarie.
Foi em 6 de dezembro de 2025. Na carta, publicada no perfil compartilhado do grupo, Cocona escreveu: “I am AFAB transmasculine non-binary”, e revelou que já tinha passado por uma cirurgia de masculinização torácica no começo daquele ano.
Em inglês, usa os pronomes they/them e he/him. Por aqui, os fãs adotaram o ele.
Quem acompanha o mercado pop asiático sabe o tamanho disso. A indústria de idols funciona sob um contrato silencioso: o artista entrega uma imagem impecável de feminilidade ou masculinidade, e qualquer desvio vira escândalo.
Namoro escondido rende manchete. Um corte de cabelo rende teoria da conspiração.
Cocona, que já tinha raspado a cabeça em 2024 durante as gravações de “Woke Up”, foi muito além do desvio tolerável: nomeou quem é, em público, no auge do grupo.
O apoio veio de dentro antes de virar manchete
A resposta ao anúncio diz tanto quanto o anúncio. Simon Jakops, produtor executivo do XGALX, publicou apoio aberto.
Integrantes do aespa, Megan Skiendiel do KATSEYE e a atriz Han So-hee se manifestaram.
Os fãs, que costumam ser retratados como a parte mais conservadora dessa equação, se reconheceram nas cicatrizes dele, nas palavras da Teen Vogue.
E o grupo fez o gesto mais simbólico de todos: XG deixou de significar “Xtraordinary Girls” e passou a significar “Xtraordinary Genes”.
Em vez de empurrar o integrante para fora da caixa, redesenharam a caixa. Numa indústria em que contratos costumam prever cláusula de moralidade.
Já escrevi aqui sobre como Kim Petras precisou sair de uma gravadora gigante para retomar o controle da própria carreira. O caso de Cocona aponta o caminho inverso: a estrutura escolheu ficar do lado do artista o que é raro.
“Se aceitar não é um processo fácil”
Em janeiro de 2026, Cocona sentou com o Zach Sang Show e falou sobre o que veio antes da carta: contar para as colegas de grupo, contar para os pais, aprender a se aceitar.
Nada disso foi rápido nem confortável. Cocona descreve anos de conflito com a própria imagem, do tipo que a rotina de idol, com figurino, câmera e espelho o tempo inteiro, só amplifica.
A música apareceu nessa conversa como ferramenta de expressão. Faz sentido para quem viu Cocona rapear em três línguas desde a estreia do XG: o palco sempre foi o lugar onde a performance dizia o que a biografia não podia dizer.
Julian Santt faz movimento parecido no sertão paraibano, transformando vivência transmasculina em pop. Cocona faz isso diante de uma audiência global, dentro do sistema mais controlado da música pop.
Por que isso mexe com o Japão
O Japão ainda trata transição de gênero como assunto de tribunal.
Ver um idol em atividade, de um dos maiores grupos do país, falar de cirurgia e identidade em rede aberta quebra um tabu que a mídia japonesa administra há décadas.
A atriz e modelo Luna Oliver resumiu: alguém desse tamanho se assumir de forma tão vocal “é algo que não tinha sido feito no Japão nessa proporção”.
A cultura pop sempre soube esconder pessoas trans à vista de todos. O cinema fez isso durante um século, como no texto sobre os vilões queer que Hollywood fabricou sob o Código Hays. A pergunta que Emma Frankland faz sobre Kurt Cobain, e se sempre estivemos aqui, só que sem nome.
O coming out de Cocona não resolve o conservadorismo da indústria. Mas cria precedente para que os próximos idols que precisarem dizer quem são já não parte do zero.