Kim Petras retoma o controle de sua carreira em Detour após anos de poda criativa na Republic Records. O eletropop sujo voltou e é libertador.
Acompanho a carreira de Kim Petras desde que ela lançou o primeiro volume de seu álbum de Halloween, o icônico Turn Off The Light. Acompanhar essa trajetória, porém, foi uma experiência cada vez mais deprimente depois que ela assinou com a Republic Records.
A originalidade que a Republic Records tentou apagar
Parecia que toda a sua originalidade havia se perdido em um amontoado de tentativas de transformá-la em uma grande pop-star.
A gravadora esqueceu que o que mais chamava atenção no trabalho dela era exatamente essa originalidade, algo muito difícil de encontrar nos projetos que lançou sob o selo.
Detour chega com singles muito bem apresentados e com o toque de Kim que eu não via há muito tempo.
O álbum não é um grande trunfo comparado com o magnum opus da sua carreira (o projeto de Halloween), mas mostra que a identidade dela está ali, intacta, insistente.
O jeito de escrever está um pouco mais desbocado e próximo do que quem acompanhava seu trabalho nos primeiros anos de carreira vai reconhecer com certa nostalgia.
Need For Speed e o ajuste de contas com o mainstream
Em Need For Speed, que é o ponto mais alto de Detour, ela abre o jogo sobre como foi difícil sustentar a imagem de pop-star enquanto a gravadora só pedia singles com apelo comercial.
E vamos combinar: quando uma música é uma tentativa desesperada de atingir o mainstream, ela perde sua mágica.
Em Detour, ela constrói uma persona que foi tirada dela durante sua passagem pela Republic, onde conseguiu um #1 na Hot 100 e um Grammy. Esses feitos são gigantescos para uma mulher trans na indústria mainstream. Kim não recebeu as mesmas oportunidades que outras divas pop, esteve presa em um contrato com o problemático Dr. Luke e ainda assim construiu uma carreira de êxitos.
O eletropop sujo como retorno à identidade
Freak It, I Like Ur Look e Brutalist são os outros pontos altos do álbum. A sonoridade frenética está presente nas duas primeiras e marca o retorno de Kim para um eletropop mais pesado e sujo.
Para concluir: Detour é um ótimo álbum para quem gosta do seu trabalho. Quem curte o estilo de músicas que ela faz vai gostar, e para ela, isso basta.
Detour não precisa do mainstream para importar
É muito provável que esse disco não seja um sucesso comercial, mas Detour é suco de Kim Petras depois de vários anos testemunhando uma poda criativa na carreira da mesma.
Para quem quer entender o contexto mais amplo de representatividade trans nos espaços culturais mainstream, o caminho que Kim percorreu faz ainda mais sentido.