No segundo capítulo de EQUILIBRIVM, Anitta atravessa a espiritualidade afro-brasileira para reconstruir, encruzilhada após encruzilhada, quem ela é.
Lançado três meses depois de EQUILIBRIVM, Anitta abre EQUILIBRIVM II dividida em três altares: fé, carreira e desejo, e sua jornada até aqui tem emocionado qualquer pessoa que esteja vivendo alguma morte simbólica, ou está em busca de renascimento. Escrevo isso pro [SSEX BBOX] no Brasil e na América Latina, a partir do olhar de quem, assim como Anitta, teve que buscar a transformação na força do próprio Ori.
O chão que construiu o caminho
Se em EQUILIBRIVM Anitta estava entendendo o chão em que pisava, ao mesmo tempo em que tentava nos introduzir a uma narrativa fora da curva, trazendo uma sensação de descoberta, sem pressa de ter que fechar alguma mensagem, em EQUILIBRIVM II ela escolhe o caminho contrário. Recusando o roteiro mais comum do típico arco da jornada de herói, ela nos apresenta uma artista que não tem medo de se expor, da carne ao espírito, nos fazendo mergulhar em uma história sobre fé, desejos,encontros e desencontros consigo mesma, em um filme que é uma das obras audiovisuais mais emocionantes dos últimos tempos.
Carmen Miranda surgindo como espelho
A primeira imagem que Anitta escolhe para se apresentar é a de Carmen Miranda, cantando um trecho de “Tai”, um dos maiores sucessos dela na faixa de “Pra Você Gostar de Mim”. O paralelo é cirúrgico. Carmen exportou o Brasil pro mundo e foi ovacionada em Hollywood enquanto era detonada por aqui, presa em um relacionamento abusivo que acabou contribuindo com a sua morte. Anitta, que começou no funk, cria de Honório Gurgel, subúrbio do Rio de Janeiro, carregou e ainda carrega o mesmo desenho de aplauso lá fora e ataque aqui dentro. No filme, a imagem vai perdendo a cor conforme as duas figuras se misturam, fazendo do término de uma relação afetiva que começa bem e desanda, o ponto de partida para que ela se entregue à dor sem nenhuma economia de sentimento. É nesse contexto de cansaço entre o sucesso e a ausência de amor que ela busca a espiritualidade.
O encontro com a cigana
É desse lugar de muita dor que ela procura, pela primeira vez, uma resposta fora de si mesma. Uma cigana lê nas cartas o tamanho do sucesso que vem e o tamanho da sombra que esse sucesso projeta atrás, e devolve pra ela uma pergunta que conduz a principal narrativa do filme: “É preciso morrer pra renascer, tem coragem?”.
Nesse momento, ela topa deixar morrer uma versão de si mesma pra deixar nascer outras. Não é retórica de autoajuda, é um aviso do que essa jornada vai exigir. Cada morte simbólica que vem, vai cobrar essa mesma coragem, várias e várias vezes.
A encruzilhada como endereço principal
Anitta corre pra primeira encruzilhada, e encontra ali o povo de rua, na figura clássica do malandro, aqui incorporado pela inconfundível Mart’nália, na música “Feitiço”, e o refrão que embala esse encontro fala justamente de um feitiço jogado ali pra derrubá-la, que não pega, porque ela pertence àquele chão. Essa é a virada que me fez ter certeza do que estava prestes a contemplar aqui: o álbum não trata a encruzilhada como o lugar-comum do “beco sem saída”. Trata como endereço. Encruzilhada tem dono, tem povo, e o feitiço só funciona em quem esqueceu quem é de lá.
O culto ao Ori
A primeira morte simbólica acontece numa casa com teto de palha, em uma conversa emocionante com o babalorixá e antropólogo Rodney William, em um cenário com chão de terra batida. Ele conduz um ritual chamado Bori, dedicado ao Ori, a cabeça, onde reside a força que cada pessoa carrega, e devolve pra ela a necessidade de assumir a própria grandiosidade. Não é papo de superação, é a compreensão de que, parte do que atribuímos à inveja alheia, ao feitiço, à macumba do outro, pode ser a energia que deixamos de cuidar.
Sempre que escrevo sobre corpos dissidentes, me pego voltando a essa reflexão. A estrutura pesa, sim, mas existe uma camada de autocuidado da nossa própria existência que não se pode terceirizar ou abandonar. É aqui onde Anitta mergulha completamente na sua jornada e passa a buscar, em lugares conhecidos, o amor que deixou de se dar.
As matriarcas
Dali ela recorre ao amor que reconhece sem ambiguidade nenhuma, o de sua mãe. Uma homenagem que se consolida sob a figura das matriarcas e devolve a espiritualidade pro lugar mais concreto possível, o da criação, o útero, o ponto de origem, se envolvendo intimamente com o sagrado. Quando chega a imagem de Nossa Senhora, seu corpo passa a vestir uma humildade que não vira autodepreciação, ao reconhecer que não é santa, declara que sempre será acolhida por uma e segue a sua jornada de fé, em busca de se perdoar.
O cemitério
No cemitério, a única morte que não é simbólica, evocando a figura dos pretos velhos, uma entidade a benze e aconselha, interpretada pela grande Elisa Lucinda. É onde nasce a frase que me fez chorar ao lembrar do peso que tantos corpos parecidos como o meu, sentem a pressão de carregar: “O importante não é chegar primeiro, é abrir o caminho”.
A Terra e quem não abre mão de si
Quando o filme entra na floresta, entregando a narrativa pros povos originários , que fazem um manifesto urgente pela terra, exibindo seus próprios símbolos intactos, recusando a lógica colonial que sempre pediu assimilação em troca de pertencimento, eu não consegui ficar sentado. Ver Katú Mirim e Brô MCs finalmente ganhando destaque, em um trabalho desse tamanho, com uma música tão pulsante como OKE, me fez entender que realmente, é sobre abrir os caminhos.
Quando, logo em seguida, entra “Sal Grosso” com KBrum, nos levando às manifestações culturais mais presentes na periferia como o funk, o samba, a alusão ao baile charme e o dancehall, é a confirmação de uma coisa que sustenta o álbum inteiro: ela não está se reconstruindo sozinha. Está se reconstruindo a partir do coletivo que sempre a constituiu, e dar protagonismo de verdade a esse coletivo é parte do processo de se tornar inteira.
O desejo que a pombagira cobra de volta
O confronto mais impactante do filme acontece quando ela encontra uma pombagira, e a entidade não pensa duas vezes antes de fazer uma cobrança. É dando uma gargalhada que ela aponta que, mesmo com tanto conhecimento acumulado, Anitta entendeu tudo errado. Na busca por reconstruir seu ori, se voltou às matriarcas, tentou cuidar da própria energia, mas deixou o desejo de fora da conta. A pombagira a relembra que o sagrado e o profano sempre andaram juntos, desde que o mundo é mundo. Aqui, ela pede para que Anitta pare de se fatiar entre os dois. É hora de finalmente, se ver por inteira. É sobre pisar forte na terra encruzilhada, onde se resolve as próprias questões e girar!
Exu fecha o que a cigana abriu
Exu encerra os trabalhos, lembrando que ele é o equilíbrio entre a ordem e o caos, o trânsito entre os dois mundos, a energia vital e a força que movimenta a vida. É sempre reconhecido antes mesmo de aparecer, só pelo ritmo do tambor que anuncia sua chegada.
E com uma Anitta vestida de pomba gira, o filme termina afirmando que cada morte simbólica é, também, uma escolha de renascer, repetidas vezes, sem se esgotar nisso. O caminho se fecha exatamente onde a cigana abriu, morte e renascimento, só que agora numa energia que nunca cessa, guiando para um futuro onde todos os caminhos sempre serão energizados pelas forças das encruzilhadas.
Matar não é morrer
Ao lançar esse segundo álbum, dentro de um projeto audiovisual com um filme tão lindo como esse, Anitta compartilha com a gente uma visão artística sensível, disruptiva e cheia de significados sobre o que é a morte, a vida, o sucesso, a sensação de pertencimento, a busca por novas identidades. É um projeto grande demais pra caber inteiro numa resenha, porque a cada take, a cada faixa, eu sinto como se eu precisasse parar o mundo pra me perceber e entender quantas mortes simbólicas eu terei que enfrentar e quantos renascimentos vou presenciar. São dezenas de referências e artistas incríveis ajudando Anitta a contar uma história tão linda, que eu sei que provavelmente ainda farei muitas descobertas sobre essa obra. O alcance desse trabalho é maior do que qualquer texto dá conta de cobrir.
A certeza que eu tenho, me entregando a essa experiência é que, matar não é morrer. As mortes simbólicas que atravessam o filme inteiro não encerram nada, elas abrem espaço pra algo que sempre vem depois. E é isso que esse álbum cobra de quem mergulha nele: ir atrás daquilo que a gente tem dificuldade de confrontar dentro de nós mesmos, porque é ali que mora o que falta pra continuar sendo quem a gente é.
Espero encontrar Anitta pelas minhas andanças, seguindo essa força, renascendo em alguma encruzilhada.