COLUNA

Matheus Theodore

[ele/dele]

Cronista de tensões culturais, estrategista de comunicação e fundador da moral.it.

Melly e o álbum que reacende a chama por dentro

No novo álbum, Melly não oferece roteiro pra atravessar o caos. Ela oferece companhia dentro dele. Uma obra política, espiritual e visceral.

Em tempos de dúvidas coletivas, Melly nos convida para uma dança com as nossas próprias pulsações, em busca de caminhos que nos levem sempre de volta à vida.

Construído a partir de muitas declarações de amor, “Mais Forte do que a Dúvida”, novo álbum de Melly, me conduziu à uma força de movimento tão gostosa, que me obrigou voltar a sonhar, dançar e vivenciar uma paz diferente, discretamente ousada e provocativa. Poucas vezes durante a minha trajetória de vida, me peguei refletindo sobre onde vivia a fonte da minha força, e onde passei a escondê-la. Até mergulhar nessa trilha. A cantora e compositora baiana, Melly construiu sua identidade sonora a partir do R&B e da sua afrobaianidade, criando uma estética única que a projetou para o cenário nacional, justificando sua indicação ao Grammy Latino em 2024 por melhor álbum de pop contemporâneo em língua portuguesa. Ela nunca foi uma artista que chegou pedindo licença, e seu novo disco não busca um motivo para existir. Ele não oferece um roteiro para atravessar o caos que é a vida. Simplesmente nos convida a mergulhar nela, a deixar que os sentidos nos façam confiar que, no meio da turbulência, as pulsações que nos constituem sempre falarão mais alto do que qualquer busca por respostas. É uma filosofia construída em tempo real, faixa a faixa, onda a onda, e que tem me pegado, escuta após escuta.

O som que não para

A produção de “Mais Forte do que a Dúvida” me parece viver no registro de um pop que não raspa o fundo da conveniência comercial, e nem busca fazer parte dela. Aqui tem percussão que nos traz a base de muitas raízes, há arranjos que nos traz um novo respiro, há uma leveza que não é superficialidade, é fluidez bem sincopada. Do pagodão ao arrocha, trazendo participações que vão de Luedji Luna, à Liniker, passando por Anitta e Léo Santana, Melly nos provoca a buscar novos movimentos. E esses movimentos não cessam. As músicas não pedem pausa, exigem presença. A textura sonora imita o comportamento da água: ela não estagna, não aguarda permissão para seguir. Ela simplesmente corre, e arrasta tudo que encontra. Ouvir e sentir parecem o mesmo gesto.

A filosofia que nasce das pulsações

Melly não agrupa suas faixas em torno de uma narrativa linear de superação, como estamos acostumados. O que ela faz é mais sutil e mais honesto: ela mapeia as pulsações. Quando ouvi pela primeira vez, a sensação foi a de experimentar músicas que são declarações de amor, a si mesma, às pessoas, à natureza, ao desejo de futuro. Não consegui definir uma faixa preferida, mas muitas frases ecoaram durante dias na minha cabeça. “Preciso aprender a ser eu, mais ninguém”, “Eu só presto para continuar fazendo as coisas que eu amo”, “Vai que em janeiro a maré pode mudar”. Essas frases, assim soltas, que não são afirmações de chegada, bateram dentro de mim em momentos que eu não esperava. Parecem atos de fé no movimento. Algumas me levaram a encarar partidas e o luto afetivo sem me fazer mergulhar na dor. Ela aparece aqui, é reconhecida, mas não romantizada. E há um fio condutor espiritual, que me lembrou muito a força de Oxum, que me fez sentir na pele essa sensação de água corrente, me lembrando que a alma tem direção própria quando a deixamos falar. Juntas, todas essas camadas formam uma jornada de recolhimento e reafirmação, nos afastando do ruído externo não para isolar, mas para escutar o que ainda se mantém vivo dentro dela.

O tempo em que esse disco habita

Não me parece coincidência que essa obra chegue agora. Vivemos décadas construindo o reconhecimento das identidades plurais, das existências diversas, dos afetos que não cabem no molde. E assistimos, nos últimos anos, a um sistemático movimento de retrocesso político, cultural e simbólico. E isso tem se intensificado. O mar parece ter ficado mais violento e nessa situação, a tentação é acreditar que a única saída é esperar o navio naufragar ou resistir até o nosso esgotamento. Melly oferece uma terceira via. Nos provoca não ignorar a tempestade, mas encontrar dentro dela os próprios sentidos. Quem sou eu? O que eu amo? Quem eu amo? O que eu desejo? Essas perguntas, nada ingênuas, são antídoto real contra a desesperança. O álbum é político sem ser panfletário. Ele não organiza passeata. Ele reacende a chama de dentro. Me fez sentir que a força pra encarar tantos retrocessos ainda existia e pulsava a partir da minha pele, dos meus sonhos, da minha alma.

O que ficou

“Mais Forte do que a Dúvida” crava um lugar importante no cenário do mundo atual, como uma obra de autodomínio num tempo de dúvida coletiva. Melly não busca justificar uma afirmação (o que seria mais forte do que a dúvida?), ela te impulsiona a buscar mil possibilidades de interpretação, baseadas em sentidos. E talvez seja exatamente isso que nos faltava, nada de mais uma resposta pronta. Aqui nasce uma filosofia viva que nos lembre que o mar não deixa de ser mar no caos. Que a turbulência é parte da natureza da água, e que seguir em movimento, sentindo, amando, pulsando, é o que nos faz continuar sendo nós mesmos. E ser quem somos, como somos, é a nossa força espiritual, física e política. É como se ela sentisse que, as coisas, sendo como elas são, não podem ter o poder de nos fazer deixar de ser quem somos. Não existe muito a se dizer, mas existem muito a se sentir. Eu ainda estou sentindo, ainda estou ouvindo o que esse álbum tem a me dizer, e te convido a mergulhar comigo nessa experiência, que ainda me trará muito o que falar.

COLUNISTA

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Matheus Theodore

[ele/dele]

Matheus Theodore é cronista de tensões sociais, estrategista de comunicação e fundador da moral.it, hub criativo voltado à construção de narrativas, posicionamento e linguagem a partir das perspectivas de cultura, comportamento e disputa simbólica. Graduando em Publicidade e Propaganda, desenvolve sua atuação entre comunicação, análise cultural, produção audiovisual e construção de posicionamento, articulando repertório crítico e leitura social na criação de projetos, estratégias e experiências narrativas. Iniciou sua trajetória no ativismo através do Coletivo Encrespades, onde atua desde 2017 em ações voltadas ao fortalecimento de juventudes e territórios. Posteriormente, expandiu sua atuação para a produção cultural por meio do Programa Jovem Monitor Cultural, transitando entre terceiro setor, cultura, entretenimento e comunicação política. Ao longo de sua trajetória, participou de produções audiovisuais, campanhas publicitárias, premiações e projetos ligados à música, televisão e plataformas digitais como MTV MIAW, TikTok Awards, Netflix e Canal Bis, atravessando diferentes linguagens e ecossistemas da comunicação contemporânea. Sua escrita transita entre crônica, análise cultural e provocação narrativa, abordando temas como sexualidade, gênero, pertencimento, desejo e relações de poder. Atualmente, desenvolve o Fissura, projeto autoral vinculado à moral.it voltado à investigação de rupturas culturais, comportamento e narrativa contemporânea.
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