A artista britânica Emma Frankland chega ao Brasil com uma releitura poética do icônico show MTV Unplugged do Nirvana.
Nesta entrevista exclusiva ao Instituto [SSEX BBOX], a artista britânica Emma Frankland mergulha nas profundezas de sua peça No Apologies, que desafia as fronteiras do gênero e da cultura pop ao reimaginar o ícone do grunge, Kurt Cobain, sob uma perspectiva feminina trans.
Utilizando o “pensamento desejoso” como ferramenta política, Frankland ocupa o cenário ritualístico do MTV Unplugged para afirmar que corpos dissidentes sempre estiveram aqui, reescrevendo o passado para projetar futuros baseados na alegria e na celebração da identidade.
O espetáculo confronta as pressões biopolíticas sobre nossos corpos e nos convida a olhar o mundo, e a nós mesmes, verdadeiramente fora da caixa.
João Pedro: — Emma, sua peça parte de uma provocação central: e se Kurt Cobain fosse uma mulher trans? No [SSEX BBOX], acreditamos em olhar para o gênero “fora da caixa”. Como essa reinterpretação de um ícone do rock ajuda a iluminar verdades internas de pessoas trans que a cultura pop costuma ignorar?
Emma Frankland: — Acredito que seja sobre a importância do “pensamento desejoso” (wishful thinking). Se não nos for permitida a possibilidade de que Kurt pudesse ser trans, então não conseguimos imaginar vidas para nós mesmos que estejam fora da caixa. No [SSEX BBOX], vocês costumam citar Foucault dizendo que “o que não é nomeado não é percebido”; ao nomear essa possibilidade para Kurt, tornamos visíveis trajetórias que foram historicamente silenciadas.
João Pedro: — O cenário de No Apologies recria meticulosamente o icônico especial do Nirvana de 1993, com caixas de viagem, flores e velas. Qual é o peso político de ocupar uma estética tão associada à masculinidade grunge com um corpo e uma narrativa trans-dissidente?
Emma Frankland: — Centralizar um corpo feminino trans em um cenário tão reconhecível e amado ajuda a reescrever nossa compreensão do passado. Muitas vezes o passado é lido como um espaço onde corpos trans não existiam, mas a verdade é que sempre estivemos aqui. Ocupar esse palco é um gesto de rexistência — uma fusão de existência e resistência contra o apagamento histórico.
João Pedro: — Como você vê o papel da arte da performance no combate às ofensivas anti-direitos que tentam desumanizar identidades trans hoje?
Emma Frankland: — A performance tem o poder de criar espaços e sonhar novas realidades para que elas possam, então, existir no mundo real. Enquanto vemos o aumento da censura nas mídias tradicionais e a higienização do cinema e do teatro comercial, os palcos de arte de performance, punk e cabaré permanecem como lugares de resistência radical. Como vocês defendem, o “fervo também é luta”: a expressão artística é uma ferramenta política para suscitar reflexões onde o discurso formal muitas vezes falha.
João Pedro: — Em No Apologies, você argumenta que a expressão de gênero é fundamental para a felicidade humana. Em uma sociedade que foca apenas na “dor trans”, como seu trabalho ajuda a projetar futuros queer baseados na alegria e na celebração da identidade?
Emma Frankland: — Se não nos permitirem pensar de forma desejosa e alegre, acabaremos pensando com vergonha. É vital encontrar espaços de alegria ao lado do importante trabalho de resistência. Meu objetivo é projetar o que vocês chamam de protopia sonhada: um futuro onde a imaginação é a tecnologia mais antiga para valorizar e proteger a vida trans.
João Pedro: — Na sua reimaginação do mundo de Kurt, como você vê a figura de Courtney Love e a energia bruta e transgressora do Hole? Essa feminilidade “bagunçada” e sem remorsos também serviu como uma tecnologia de si ou uma referência para as verdades que você explora?
Emma Frankland: — Courtney foi uma influência enorme para Kurt e ambos colaboraram estreitamente; espero que a presença dela seja sentida no show. Estou definitivamente canalizando a energia dela em certos momentos, e meu batom rosa é uma homenagem a ela. Essa estética do “sujo” e do visceral desafia as normas polidas da sociedade e funciona como uma tecnologia de si, permitindo que identidades dissidentes se formulem fora do controle biopolítico e da moral ortodoxa. Afinal, ser travesti (ou trans) é o novo punk.