10 anos da estreia de Linn da Quebrada e 8 do álbum “Pajubá.
“Ai meu Deus, o que que é isso quéssas bixa tão fazendo?
Pra todo lado que eu olho, tão todes enviadescendo”
Dez anos depois da explosão de Linn da Quebrada na cena cultural brasileira, e oito anos após o lançamento de Pajubá, seu disco de estreia, ainda é difícil encaixar sua obra em categorias estáveis. Talvez porque ela nunca tenha querido caber. Desde o começo, Linn apareceu menos como uma artista disposta a ocupar espaços já existentes e mais como uma força interessada em desorganizar os próprios critérios que definem quem pode falar, cantar, desejar, existir, tornar-se explícito.
Quando Pajubá chegou, em 2017, muita coisa remexeu. Era uma ruptura estética e política. O título já anunciava isso: pajubá, língua de sobrevivência travesti, código produzido historicamente entre bixas, travas e pessoas trans para existir em meio à violência. Linn não traduz essa linguagem. Não suaviza. Não oferece mediação confortável. Ela desloca o centro da escuta. Pela primeira vez, muita gente teve que ouvir sem dominar completamente o código — e isso é profundamente político.
Em faixas como “Enviadescer” e “Talento”, o que emerge é uma estética da afronta. Não há tentativa de tornar o corpo trans palatável para consumo cisheteronormativo. O desejo aparece cru, debochado, excessivo. O peito, o cu, o close, a “arriação” com a cara dos machos. Esses códigos deixam de ser signos de vergonha e passam a operar como linguagem e ataque. Há uma recusa consciente da higienização, transformada sobretudo em uma estética bem brasileira, colorida, muito bixa ou, melhor dizendo, muito Bixa Travesty.



Nas encruzilhadas que nos moldam em multiplicidade, acabamos nos afastando daquela imagem ingênua destinada à feminilidade disciplinada. Os gritos e berros ressoados junto com batidas de funk ressoam como a própria Linn já explicou: palavras ditas em voz alta que ela mesma precisava ouvir, e oito anos atrás não tinha ninguém as cantando. As travas, as bixas, as NBixas são as senhoras de si. De suas próprias invenções, ficções. Em Pajubá: a recusa em baixar o tom, o movimento de transição de gênero e as coisas que a carregam. Como esses corpos se relacionam, em quais vias eles precisam denunciar quando sucumbem, mas também os deleites encontrados ao se fazer vista, até mesmo por si própria. Transicionar, enviadescer (EM VIA DE SER).
“Travas contra o topo”, deseja Sofia Favero. “Travas contra o mundo”, reforça Jota Mombaça. E não como povo, mas como peste. Em “O mundo é meu trauma”, Mombaça escreve: “eles virão para nos matar, porque não sabem que somos imorríveis”. A frase parece atravessar também o que se constrói com a trajetória musical de Linn da Quebrada. Há uma potência específica em corpos cuja existência social foi construída em meio à ameaça constante. Corpos feitos entre apocalipses, que aprendem a proliferar justamente nas rachaduras, criando seus traquejos, seu gozo, sua possibilidade de viver, brilhar e arrasar.
Talvez seja isso que Pajubá tenha inaugurado com tanta força na música brasileira recente: a travestilidade e a bixaria não como identidade fixa, mas como contágio. Uma forma de desorganizar linguagem, desejo e humanidade normativa. Não como povo, mas como peste — espalhando-se pelas frestas, contaminando estruturas, sobrevivendo pela multiplicação.
Essa sensação reapareceu com força no último show de Linn no Festival Aurora, em Natal. Em cena, cantando clássicos da carreira e músicas novas, com os seios à mostra, o corpo coberto de suor, pulando, gritando e encarando o público, ela parecia novamente atravessada pela energia bruta dos primeiros anos de carreira. A memória me salta às cenas de performance de Bixa Travesty, seu documentário de 2018. Havia algo daquela trava inicial ali: intensa, desobediente, por vezes quase à beira da explosão, transformando o palco em confronto. Dez anos depois, aquela é uma outra travesti. Mesmo depois da institucionalização crítica, das premiações e da circulação ampliada, Linn continua mais potente quando ameaça transbordar.
Quando a performance deixa de ser apenas espetáculo e vira risco. No Aurora, isso aparecia no suor, na respiração ofegante, nas palavras arremessadas ao público. Os gritos, as coisas que ela mesma precisava ouvir. A presença travesti em estado de intensidade.

Linn da Quebrada no Festival Aurora.
Hoje, oito anos depois de Pajubá, muita coisa mudou no campo da visibilidade trans. Corpos dissidentes passaram a ocupar mais espaços, disputar narrativas e produzir novas centralidades culturais. Criticamos a Bella Longuinho, que monetiza ao máximo sua transição; se Pedro Fassoni, sendo uma bixa não binária, pode ou não interpretar uma mulher trans numa série; se travestis devem ou não usar o banheiro feminino. Mas talvez o movimento mais interessante ainda seja aquele sugerido por Linn em “Enviadescer”, há dez anos: experimentar, enviadescer, proliferar, transicionar feito peste.
Que possamos criar cenários em que todas as cirurgias desejadas sejam possíveis, pois somos riquíssimas. Que pessoas trans também passem a interpretar corpos cis no cinema e na dramaturgia. Que existam tantas travestis que os banheiros femininos já não deem conta das filas enormes de travas, uma atrás da outra.
Mas as tentativas de captura seguem operando: querem corpos traduzíveis, aceitáveis, organizados para consumo. Corpos higienizados.
Pajubá continua importante justamente porque resiste a isso. Porque segue excessivo, incômodo e vivo demais. Sua força ressoa numa nova leva de artistas trans na música, especialmente no funk, como Vita Pereira, Katy da Voz e As Abusadas, Urias e tantas outras que reconhecem onde a peste começa a se espalhar e continuam encontrando rachaduras por onde fazer acontecer a vida, a música, a arte e o grito que precisa ser ouvido.
- Todos os travessões (—) foram colocados por Gil Araújo; a única IA utilizada no texto foi para revisão ortográfica.
- Esse texto faz par com o próximo da coluna, intitulado “Antes de tudo, é preciso ser Bixa”, no qual prolongo a discussão iniciada nesta publicação.