Seu portfólio, que ele me enviou, “Caso me Fosse Útil”, é um livro. Fernando Brutto é ator pornô, historiador, performer de práticas sexuais extremas, pesquisador do patrimônio cultural imaterial. Fernando Brutto é Rodrigo.
Seu trabalho é o erotismo em potência máxima: o profundo, aqui, inquieta a superfície ao invés de apenas se opor a ela. De sentido político, Fernando Brutto é um criador de imagens do interdito, daquilo a que não se tem acesso por meio da norma. O interdito é como se houvesse uma sala com todas as janelas fechadas e se alguma das janelas abrir, há um derramamento profundo de questões – é o que é reprimido. O que é reprimido não é resolvido, observado ou analisado. A performance é o que Fernando Brutto decide fazer diante disso.
A prática sexual como a experiência de viver o interdito, de afirmar a vida até na morte, o que Bataille descreveu como uma experiência sagrada, para além de divina. Por que o divino é o amor por Deus, menos desconcertante, que o amor por um elemento sagrado. Que o erotismo, é, na consciência do homem, o que nele coloca o ser em questão. E é o que o próprio Rodrigo coloca como capaz de se tornar infinita, por ocupar um espaço público, por ser registrada. É como se a performance pudesse acontecer além do próprio tempo e espaço, e criar mais de um sentido, questionar, revelar, perturbar o que há de regulador mesmo dentro do próprio espaço social e subjetivo. Nossa conversa passa pelo corpo, pelo trabalho, pelo espaço, pelo tempo. A dimensão política da vivência sexual fica em evidência.
Antes de começar, deixo aqui a última coisa que Rodrigo – Fernando Brutto – me disse:
Fernando Brutto: Então acho que é basicamente isso, eu fico fico muito feliz com o convite. Eu acho que eu estava querendo realmente um espaço para a gente falar isso. E eu brinco muito, acho que a grande brincadeira sempre foi não se levar a sério. Uma vez meu marido, que é ator também, falou assim: “Cara, qual é o conceito da sua arte?” Meu amor, o conceito da minha arte são dois gays botando a mão no cu em cima de um palco, montado aqui com peruca, assim. Não devemos nos levar a sério, não, entendeu? Não devemos. Assim, somos queers assim, a gente tem que lutar pela nossa liberdade sexual e é isso. Acho que a gente não se leva muito a sério, as coisas são mais tranquilas, sabe. Não quer dizer não ter responsabilidade, não pensar sobre a questão política do que é. Não quero que limitem o meu corpo, não quero que limitem minha sexualidade, com valores que não são meus.
O que faz uma cena de fisting no palco um ato político?
O trabalho de Fernando Brutto na performance tem uma proposta estética. Se incorpora ao instante do tempo e do espaço por meio de construção cênica e criação de personagens – essa construção é o desejo: em conteúdo, forma e destino. Ultrapassa o limite dos seus poucos minutos e é criada como imagem de uma prática sexual livre, de um prazer visceral. Da experiência do que é colocado à margem da margem: o prazer queer. A performance concebe à esse corpo agência. É uma provocação.
Fernando Brutto: Então, vamos lá! Primeiramente, parto de que um: a gente tem o sexo, né? Ou qualquer imagem sexual por si que são, na esfera pública, um tabu. O sexo homossexual ou fora do padrão, maior ainda, o sexo fora das práticas consideradas tradicionais, mais tabu ainda. Então meu trabalho parte de uma visão muito política de que o sexo não é uma concepção natural do humano. E eu não parto de, não sigo, e eu não sou obrigado a seguir nenhum tipo de filosofia religiosa. Ou qualquer tipo de pensamento que sacralize o sexo, até porque cara, eu sou viado. Eu sou gay, eu já quebrei isso. Eu não preciso seguir mais isso e eu não sou obrigado a seguir esse padrão, e como eu não sou obrigado a seguir esse padrão eu não sou obrigado a ter essa sacralização. E eu acho que por isso eu quero naturalizar esse sexo e nos espaços que me cabem, nos espaços que são queer, nada mais natural que expor isso, né?
E aí eu gosto de dizer que assim como ele é muito extremo, ele acaba provocando inclusive a própria comunidade queer, ele acaba colocando isso, e eu acho que é muito engraçado essa provocação. Porque ele faz a gente refletir mesmo nos espaços mais progressistas, então eu gosto de brincar que quando o assunto é sexo pode ser que mesmo dentro da comunidade possam existir posicionamentos que vão ser conservadores. Então foge daquilo que é comum ou daquilo que é tradicional. A prática acaba ficando atrelada à norma, de certa forma, e isso atinge até quem já estaria na ‘margem’ dessa norma. Um tipo de prática que questiona isso já é por si só uma provocação. E aí eu brinco que vem a grande ironia, porque quando a gente fura bolha, quando eu faço uma cena de fisting numa festa de sexo, numa festa que tem isso, eventualmente essas coisas viralizam. E, sim, eventualmente isso sai da bolha. E quando você sai da bolha tem uma grande crítica que vem da própria comunidade, “ai isso não é natural”. Ironia das ironias, é que quando nós sofremos críticas dos homofóbicos, os héteros vão falar do sexo gay o que se fala? “Isso não é natural.” É isso que a provocação quer atingir.
Mas isso é qualquer outra forma de sexo, de pornografia que não seguem ou são o padrão. Olha só, que padrão será esse que a gente inventou como natural, né? Então essa é a provocação, por isso que podem ser outras práticas de qualquer tipo de sexo. Quando você traz isso – você – no palco, traz um sexo que você expõe e fala – por meio dele. Olha, tem isso aqui. Existem pessoas da comunidade que vão falar assim: “ai, meu Deus, isso não é natural” não! “o que é natural”. Então o que é natural?
Quem é você e o que é o seu corpo no palco durante uma performance?
Os espaços de subjetivação são espaços performativos. Há uma intenção deliberada de colocar o sexo em trabalho no espaço público. V de Viadão, Ultraffair, Galeria Verve, Horny Lab, Horny, Hole, Lust, Dildo, Dando. Em maio de 2026 Fernando Brutto completa seu terceiro ano como performer.
Fernando Brutto: Fernando bruto é Rodrigo, Rodrigo é Fernando bruto, né? Eu acho que essa coisa de associação não existe mais, eu brinco que a complexidade nos atravessa e o Fernando Brutto não existe sem o que eu sou como Rodrigo. Rodrigo como pensador político, como ativista. O Fernando só existe porque eu me coloco diante da ideia de que sexo não é natural, e que o meu corpo é um corpo político. Que a minha ação é uma ação localizada no tempo e num espaço na sociedade que eu estou então, o Fernando Brutto é a minha versão real também. Não tem essa coisa de que o Rodrigo é minha versão acadêmica, não. O Rodrigo e o Fernando Brutto são a mesma pessoa. Fernando Brutto é o nome que eu criei no início, pra minha mãe não botar o meu nome no Google e aparecer eu com uma mão no cu. É isso. E hoje em dia é a mesma pessoa, eu sou a mesma pessoa. O Fernando bruto lê poemas e gosta de história e o Rodrigo faz sexo no palco. Somos iguais, não existe isso de ‘são duas pessoas’. Não é mesmo, até porque é isso: o corpo do Fernando bruto é o corpo do historiador.
E eu falo isso muito claramente, quem está ali levando um punho, quem está ali fazendo sexo, quem está ali no Xvideos é o historiador. Quem está escrevendo, pensando, fazendo história é o ator pornô e isso é indissociável. Isso é indivisível, porque eu acho que é o que compõe a complexidade humana, é isso que dá o tom mais incrível da coisa, porque sem isso as coisas perdem sentido, sabe? Eu só ajo da forma que eu ajo, e só me ponho naquele momento ali porque eu realmente acredito que não tenho nem devo ter vergonha do meu corpo e da minha ação sexual num espaço queer. Porque isso é uma identidade que eu adoto. É um pensar no espaço: do club, da boate, da noite, como espaço essencial de manifestação da vivência LGBTQIAPN+. Espaços, por excelência, de socialização. Porque a gente por muito tempo não podia socializar num supermercado, não podia socializar na rua. Não podia socializar. E aí, querendo ou não, aquele espaço é um espaço nosso, que a gente criou para a gente dizer:
‘Eu não vou fazer sexo ali’, como é que é isso? Quem me constrange não entende o que a gente faz, isso é um lugar feito por viado, feito por sapatão, travestis. Por que que eu vou ter que agir ali como um heterossexual, e como? Então assim, o Fernando bruto e o Rodrigo. O ator pornô é o historiador, o meu corpo ali é o mesmo corpo que está na academia, sabe? Eu acho que isso é indissociável, eu detesto essa coisa. Inclusive porque muitas vezes as pessoas gostam de valorizar e botar o intelectual à frente. E eu faço questão de não fazê-lo, sempre que eu me apresento a primeira coisa que eu digo é que sou trabalhador do sexo e historiador. Até porque eu acho que é importante. Trazer isso à frente, porque o historiador querendo ou não, ele traz um outro estigma, mas eu não quero trazer isso, sabe? Eu tenho essa questão de realmente naturalizar e valorizar a ação e profissão sexual, ou trabalhar em mais uma profissão e ver isso igual. Então essa noção é muito clara para mim. Ela é muito política nesse sentido.
O que significa ensinar um fisting em uma performance?
Fernando Brutto: A oficina de fisting é uma referência a um outro projeto que começou na Horny, que é uma festa de Belo Horizonte. E veio porque eu já estava há um tempo fazendo performance de fisting. A Festa de BH resolveu me propor fazer uma outra prática porque queria trazer uma nova ideia, a de olhar para além das performances. Trazer um conteúdo novo, uma noção nova, eles propuseram: vamos fazer uma ação educativa mesmo. E aí na Horny de Belo Horizonte, e na Parada LGBTQIANP+ de fato. Eu e meu marido (Completasso) fizemos uma oficina de fisting, antes da festa. Foi uma palestra, eu sou professor, sou formado como professor e dei aula por muito tempo. Então a gente fez uma aula mesmo. Ensinando sobre prática, sobre consentimento, desde a preparação de lub, à mecânica da coisa. Mas também sobre a questão de como é um tipo de prática extrema que envolve muita concentração e muita confiança. Sobre consentimento, como é importante a relação mesmo quando é uma prática sexual, uma relação de confiança, então foi muito bacana. Foi muito legal.
Foi muito importante essa estruturação, e isso deu frutos, porque depois eu fiquei sabendo que em São Paulo, numa outra casa, tem um amigo meu, Marcelo Russo, produzindo as oficinas de fisting. Então tá acontecendo. Isso é interessante, o próprio Marcelo criou um folheto e as pessoas começaram a se interessar. Eu depois fiz um vídeo tutorial que está no Xvideos, que as pessoas podem assistir, que na oficina de fisting que teve a gente fez uma demonstração ao vivo. Então, foi feito outro processo: existiu esse processo educativo na parada de Belo Horizonte, um vídeo institucional, e o que está nesses vídeos deu frutos para essas práticas ocorrerem em São Paulo. E, para além disso, como foi muito inusitado, teve uma foto, a foto viralizou e a gente foi convidado a fazer uma performance na outra Novo Affair.
A Novo Affair não é uma festa de sexo, não é uma festa que tem prática. Então qual foi a brincadeira? Como eu sou um cara que faz performance e a gente foi fazer a performance lá, as pessoas estavam esperando o fisting. E brincamos com isso, a gente pega e puxa, o cartaz “vai ter uma oficina de fisting”, a gente faz toda a preparação. A partir da questão de começar com performance de sexo, eu vou trabalhando junto com meu marido, a gente começa a atuar e desenvolver novas atividades, novas formas. E a gente começa a brincar também com isso, então: “vai ter que ter sexo”, podemos brincar com essa indicação, e a gente fez toda essa palhaçada. A mesma coisa que fizemos na performance que teve agora na festa V de Viadão. E foi se desdobrando, a performance do vídeo deu frutos, e a gente brinca com ela em outras performances.
Qual é, pra você, o lugar que o fetiche ocupa na noite queer?
Fernando Brutto: Cara, eu acho que assim, o fetiche e a noite andam muito de mãos dadas – pelo menos nas Paulista e Carioca – é uma questão muito simples. Andam igual por definição. A cena de musicalidade tecnológica, desse tipo de festa por definição, são cenas que acolhem não apenas o discurso, mas uma parte também das práticas que fogem do padrão. Então, por exemplo, vai ter como a gente pensar numa sociologia, numa distribuição. Não apenas de uma diferença entre homossexuais heterossexuais, não apenas de sexualidade, não apenas a questão de classe e a questão de gênero.
Mas a gente vai ter dentro dessas divisões outras divisões de práticas, de gostos, de visões distintas. A cena do underground vai acolher quem vai ter práticas mais distintas, alternativas, fora do comum. Então por isso você vai ter essa associação, é normalmente quem vai a esse tipo de festa que tem esse tipo de aceitação. Festas, por exemplo, como uma Horny, apesar de não ser necessariamente uma festa de sexo, mas uma festa que aceita o todo em volta disso. E não só o fetiche, consequentemente são espaços que têm uma tendência a aceitar corpos de pessoas travestis, dissidentes. Então caminhamos juntos nessa cena também, outros corpos dissidentes e outras pessoas que acolhem exatamente aquelas que não estão na norma.
Que tipo de representação é criada a partir de você ser um nome e um corpo públicos por meio do sexo e do fetiche?
“São coisas que eu penso enquanto o meu corpo conta história dentro dessa cena.” Não tem muito mais o que dizer.
Fernando Brutto: A primeira coisa é que eu parto de um local de privilégio. Eu sou um homem branco de classe média com formação acadêmica, esse esse é o ponto de privilégio do qual eu parto, sou uma pessoa que pôde escolher trabalhar com sexo e pôde escolher trabalhar com a produção textual. Eu posso usar do meu privilégio para primeiro tratar e falar de questões e de grupos que são geralmente marginalizados, mas eu não posso falar de quem eu não sou, eu posso falar de trabalho sexual, eu posso falar sobre a prostituição. Posso falar, eu vou ter uma voz, então. Pessoas que têm privilégios na sociedade, pessoas que são brancas, pessoas que são homens cis gays têm por necessidade, quase que obrigação, de falar por serem mais ouvidos, é esse o modo de divisão, a gente é mais ouvido. Seriam outras coisas se eu fosse um corpo negro, se eu fosse um corpo dissidente, a gente tem que reconhecer isso porque está aqui, e eu tenho essa obrigação. Então esse é o primeiro ponto, essa é a primeira questão. E com isso eu consigo ser um corpo privilegiado que se destaca em uma posição, em uma fala de uma cena dissidente. Que é a do fetiche, do fisting, é a cena de uma profissão de trabalho sexual. Então eu acho que essa posição aqui é uma posição que me permite tratar e falar desse assunto, acho que essa é a questão.
O que eu também acho interessante é o fato de eu ser uma pessoa que é da história, e que reflete sobre vivência LGBTQIAPN+. Que tem uma visão de mundo livre, uma outra visão sobre o corpo, e que vivencia isso. Então cada vez mais eu sou um cara que tá estudando muito sobre história da pornografia, e vivendo isso, então acho muito legal. Eu acho isso muito interessante, trazer essa vivência, essa noção, essa história de ser. Porque cada vez mais eu acho que a gente sente a necessidade de sair daquela coisa de visão de fora. É o meu trabalho, e tem pessoas que vão dizer que é exploração do corpo. Não tem exploração do corpo nas 12 horas de trabalho 6 por 1 no shopping? 12 horas em pé é mais exploração da mais valia do corpo. Então pensar isso enquanto historiador, pensar nisso enquanto uma pessoa que tem um tipo de pensamento existencialista, é uma coisa interessante. São coisas que eu penso enquanto o meu corpo conta história dentro dessa cena.
Qual é a sua visão sobre o corpo queer e a construção de uma história do movimento LGBTQIAPN+ na sua cidade?
Fernando Brutto: Então, é muito interessante isso. Eu comecei a procurar sobre história LGBTQIAPN+ por meio do Devassos no Paraíso (livro de João Silvério Trevisan), e o Além do Carnaval (de James Naylor Green). Foi muito interessante, minha mãe tinha uma livraria em Friburgo, e quando eu me assumi pra ela, ela me deu esses dois livros. Comecei a fazer uma cartografia, e a compreender como ser gay no Brasil foi sendo definido e como isso aconteceu. Essa cartografia, pela cidade, foi sendo definida com esses corpos, como eles são e como são conduzidos pela cidade. E então, por exemplo, aqui (Rio de Janeiro) os pontos de encontro são os locais ou os bairros que a gente fala como bairros gays. Praticamente igual São Paulo, é metrópole: se você tem Ipanema e Copacabana no Rio, em São Paulo você tem a região da República.
Porque em primeiro lugar são áreas centrais, tem maior visibilidade das ruas, maior questão de segurança. As pessoas têm que ter um pouco mais de segurança, então é onde você consegue ter os encontros. Depois disso vão ter os cinemas públicos, sempre teve uma questão de encontros rápidos, esportivos. Tem a questão dos parques, também, então! Como quando a gente brinca, né? ‘O banheirão é uma resistência’, na verdade é. Se não é o parque público, o cinema público, as pessoas não têm onde se encontrar. As pessoas não tinham onde ter a sua vivência sexual, e elas precisam de ter essa vivência, e de lugares que as permitam. Então é muito bacana, a gente tem essa noção primeiro.
É a vivência pública da cidade, como espaço público. Era o espaço por excelência do encontro LGBTQIAPN+. Então entender que quando as pessoas faziam cruising nos parques, quando as pessoas faziam – ou fazem ainda – banheirão, é porque não tinham onde se encontrar. Vivendo em segredo, como foi por muito tempo a questão do HIV. Foi devastadora para nossa comunidade, foi devastador pagar com a liberdade sexual que a gente vivia. Marcou uma geração, mas a nossa tecnologia evoluiu. Como com a questão da PrEP evoluir, como é incrível que a gente hoje em dia possa fazer sexo de uma forma segura usando camisinha, usando PrEP, usando PEP.
Como existem várias maneiras incríveis, e como é um absurdo ver uma geração nova conservadora que ‘meu Deus do céu’ tem medo de PrEP, absurdo. Então: conhecemos a nossa história, conhecemos o que nossos ancestrais passaram, conhecemos como é que o movimento homossexual brasileiro sofreu por conta da epidemia, como isso foi uma tragédia. Sobretudo os corpos homossexuais, quem foi a autora mais censurada desse país? Não era um autor de livros de esquerda, não, era Cassandra Rios, autora lésbica. Então a gente vai ter uma liderança, o Herbert Daniel, que é um cara que vai conta corrente, como temos que aprender muito sobre nossa história. Eu lembro que tem uma frase no Além do Carnaval muito bacana que é: a gayzinha que entra no cinema de pegação, no banheiro, chega no banheirão do cinema e vê escrito: “aqui também é Brasil”. A história cria, a história gay, lésbica, trans, travestis, da nossa sexualidade também é a história do nosso país. E a gente não aprende isso, não aprendemos sobre quem foram. Quem foi Cassandra Rios, quem foi Herbert Daniel, esses nomes que mudaram o cenário, que fizeram parte da nossa construção social queer, é um absurdo não saber.
Que quem foi a pessoa responsável pelo Aterro do Flamengo não ser uma grande rodovia como a Avenida Brasil é uma mulher lésbica assumida e ainda de direita. Por que não uma sapatão de direita, né? Então assim, é importante. A gente tem que ter essa consciência.
Acho que a minha ideia é trazer um pouco disso. Eu também brinco que sou fã do transporte público, sempre fui. No meu perfil: ‘estou aqui fazendo mais uma gravação de pornô e tudo carbono zero, fui com o meu RioCard, meu velho.’ E eu sempre faço toda uma questão de divulgação do espaço público. É uma questão minha também, eu tenho uma política de não ter um segundo armário. Então eu nunca cheguei a me declarar assim ‘sou HIV positivo’, a minha declaração sempre foi assim: ‘gente, olha só, tem aqui meu teste de HIV! Vocês vão conseguir fazer o teste de vocês assim, assim…’. Então foi um momento de pegar e divulgar como fazer, ensinar a fazer, como pegar transporte público.
E a minha maior felicidade é quando eu tô na balada e chega uma gay e diz assim: ‘menino, consegui meu teste de HIV. Consegui aprender com você’. Então também divulgou coisas sobre como ter acesso. Às vezes vem gente inbox falar comigo, eu descubro o que ela precisa, ajudar com as questões judiciais, entender isso, entender o transporte público. Acho que a gente vai poder trabalhar aqui, é pensar como comunidade, escrever para comunidade, escrever para a gente. Acho que é essa ideia.
Qual é a dimensão da performance nesse processo de entender a história do nosso movimento?
Fernando Brutto: A performance entra no sentido de estarmos no momento das redes sociais, não é? Numa economia de atenção, a performance entra muito na questão de organização, ela é muito engraçada, porque ela é um contraponto muito incrível. Ao mesmo tempo que ela é extremamente efêmera, tem um potencial incrível de uma foto, um pequeno vídeo curto, viralizar e se estender e se expandir ao longo do tempo causando um efeito impressionante.
Correu rapidíssimo, mas por uma foto que se expandiu, viralizou, criou-se uma discussão. Digamos, um movimento, dentro das redes sociais – numa economia de atenção – que produziu todo um outro movimento. A mesma coisa quando a gente faz a performance por poucos minutos, ao mesmo tempo que ela é efêmera para um público extremamente pequeno, ela tem uma capacidade incrível de alcance gigantesco, pela organização.
Que ela vai cada vez mais alcançando o público diverso, se sair da bolha, às vezes que eu consigo falar de fisting é através das performances.
Mariana F.: Foi como aquela da Clementaum? Muito famoso esse set, todo mundo fala dessa performance. Ela nunca parou de acontecer.
Fernando Brutto: É isso, aquilo foi segundos. Chega para fora e a partir disso eu posso discutir, entendeu? Então o legal da performance é o efêmero, e ao mesmo tempo ela causa um mistério. Que fica assim: “ai, não consegui ver”, tá valendo a próxima. Ou então você sabe que até hoje – quase como efeito Mandela – tem gente que diz que teve fisting na Novo Affair. Tem essa brincadeira, e por isso tem uma capacidade de ação de mobilização significativa.
17/07/2026