Formado por Katy da Voz, Palladino Proibida e Degoncé Rabetão, o trio paulistano vem se consolidando como um dos nomes mais potentes da cena independente LGBTQIAPN+.
Entre o funk, o pop experimental e o eletrônico underground, suas produções partem de um lugar muito específico: o cotidiano das periferias, atravessado por humor, ironia e putaria, sem de forma alguma deixar de tornar o som também político.
Desde os primeiros trabalhos, o grupo já deixava claro um princípio: fazer da precariedade linguagem e da dissidência, método. Reimaginar faixas, colar com produtores independentes, expandir a própria identidade sonora, tudo isso aponta para uma lógica disruptiva ao mercado conservador da música brasileira.
Quando essas três travestis do funk chegam a grandes eventos, não há exatamente uma adaptação ao circuito mainstream. O que acontece é o contrário, elas tensionam esse circuito por dentro, em cima do palco.
No MADA 2025, não foi só a música que dividiu o público, foi o sentido do que estava acontecendo ali. Criado em 1998, em Natal (RN), o Festival MADA — sigla para “Música Alimento da Alma” — se consolidou ao longo de mais de duas décadas como um dos principais eventos da música independente no Nordeste. Ao mesmo tempo, carrega as tensões típicas de um evento que cresce: entre o underground e o mainstream, entre curadoria e mercado, entre diversidade e os limites do que ainda é considerado “aceitável” em um grande palco.
De um lado, a cena: Irmãs de Pau encerrando a edição de 2025 do festival junto Katy da Voz e As Abusadas no palco, que tinham acabado de performar o seu primeiro show na cidade do sol. O público em coro, ou melhor, em gritaria, um corpo coletivo vibrando, cantando e pulando junto com elas. Do outro, a cobertura midiática: duas leituras quase inconciliáveis sobre o mesmo acontecimento.
Em um veículo, o registro é de celebração: “o palco eletrônico [foi transformado] em um manifesto pela potência das travestis na arte”, com destaque para o encontro entre artistas e a resposta do público, “gritando cada verso em coro e celebrando a ocupação travesti no encerramento do MADA.”

No outro, a chave é outra. O mesmo evento vira incômodo moral: “‘músicas’ em que sexualidade e palavrões eram praticamente obrigatórios”, um baile que “tirou o juízo de quem mora na região” e que, no limite, é reduzido a “alimento da perversão.”

A distância entre essas duas narrativas não é só ideológica. Ela revela o que está em jogo quando cinco travestis ocupam o palco de um dos maiores festivais do país. Porque não é apenas show. É um deslocamento admitido da norma. E aí a chave vira. Porque, diferente do punk clássico, onde a ruptura podia ser encenada e depois suspensa, aqui ela é contínua. A travestilidade não entra somente como tema, ela reorganiza tudo. A forma de cantar, de se montar, de ocupar o espaço, de construir coletivo.
Quando as Irmãs de Pau entram nessa equação, a tensão se amplifica. O resultado não poderia ser neutro, especialmente num país que paralelamente deseja os corpos de travestis à noite e tenta matá-las na luz do dia. A reação conservadora, ao insistir em termos como “perversão” ou ao colocar “músicas” entre aspas, tenta deslegitimar duas coisas ao mesmo tempo. A forma e o corpo que a produz. É uma operação clássica de retirar o estatuto de arte para rebaixar ao campo do desvio moral.
Mas é justamente aí que a leitura do punk, ou do que a gente podemos chamar de neopunk, ganha força.
A cientista social travesti Ayira Sizernando propõe um deslocamento importante: o punk não como estética fixa, mas como produção de outro mundo. E o “neopunk”, para ela, não está em cenários futuristas ou subgêneros estilizados, mas no cotidiano:
“Pra mim, esse neopunk é o que a gente vive no dia a dia… nada mais neopunk do que uma travesti pegando ônibus, por exemplo.”
Se a gente leva isso a sério, o que acontece no palco do MADA deixa de ser apenas performance. Vira continuidade de uma travessia.
A travestilidade que canta ali é a mesma que pega ônibus, que não negocia existência, que enfrenta violência e, ainda assim, produz música, imagem, festa, usa roupa curta, canta sobre sexo.
E isso reconfigura o que se entende como ruptura, como punk.
No punk clássico, a quebra de norma podia ser concentrada: três acordes, um grito, um show. Aqui, ela é permanente. O corpo não sai de cena. A feminilidade não é figurino, as roupas curtas e apertas não são em vão, nem muito menos a putaria estridente gritada pelas cantoras e repetidas a plenos pulmões pelo público do show.
Musicalmente, isso se traduz em escolhas claras: grave alto, repetição, refrões que grudam, autotune como efeito, quase como uma prótese vocal. Esteticamente, é excesso como método. Para quem espera contenção, isso aparece como ruído. Para quem lê pela chave da dissidência, aparece como linguagem.
Talvez seja por isso que chamar tudo isso de “punk” ainda funcione, mas com ressalvas. Não como continuidade direta de uma tradição anglo-saxã, mas como atualização situada, atravessada por raça, território e gênero.
Ou, seguindo Ayira, como outra coisa: “Não um movimento que imagina novos mundos, mas um conjunto de práticas que atravessam o mundo existente e, nesse atravessamento, produzem outro.” O palco do MADA, naquele momento, virou exatamente isso: um campo de disputa entre narrativas. De um lado, a tentativa de enquadrar. Do outro, a insistência em existir de jeito alto, visível, inegociável.
Ser travesti na hodiernidade é operar numa lógica que o punk sempre reivindicou, mas que se sustenta até o fim: fazer do próprio corpo um campo de confronto, recusar a norma sem a possibilidade de sair de cena, criar linguagem a partir da precariedade e transformar existência em gesto político contínuo, em arte.
Se o punk um dia foi sobre gritar contra o mundo, a travestilidade faz algo mais radical: ela vive contra, apesar e através dele, todos os dias. Não como estética passageira, mas como condição. É a criação de uma tecnologia que admite todas as coisas que atravessam um corpo transfeminino no Brasil. E é nesse ponto que a comparação deixa de ser metáfora. Ser travesti não é “como” ser punk. É o que acontece quando o punk deixa de ser estilo e se torna cotidiano.
Ao mesmo tempo, talvez seja interessante que nós, enquanto país, e pessoas dissidentes de gênero e dos sistemas de controle do cis-heteropatriarcado, nos perguntemos que tipo de mundo essas culturas estão ajudando a sustentar. Porque nem toda quebra de norma, por si só, garante um futuro mais justo ou mais habitável. Existe uma diferença entre operar a partir de uma lógica de confronto permanente, como uma percepção de um punk distópico, que às vezes reproduz dinâmicas de imposição, quase na lógica da violência reversa, e um punk que pode ser disruptivo no sentido de construir caminhos que integrem cuidado, regeneração e interdependência. Nesse sentido, vale considerar perspectivas que não apenas tensionam o presente, mas que também ensaiam formas de mundo onde corpos dissidentes possam não só romper com normas de gênero, classe, etnia, sexualidade, mas que também possam efetivamente pertencer, circular e ascender economicamente e artisticamente em estruturas sociais que historicamente lhes foram negadas.