COLUNA

Samanttha Neves

[ela/dela]

Estrategista em comunicação, percepção e comportamento

Redpill Forja Couraças

Juliano Cazarré transforma masculinidade redpill em ritual de força. Wilhelm Reich revela como isso reforça repressões emocionais e sexuais no Brasil.

Antes de tudo, acho importante me apresentar, afinal, você vai me conhecer aos poucos através dos textos que publicarei aqui.

Sou Samanttha Neves, estrategista em comunicação, percepção e comportamento, com atuação em análise de discurso, diversidade, cultura organizacional e comunicação inclusiva.

Meu trabalho investiga como a linguagem, consumo, poder, gênero, sexualidade e afetos atravessam a forma como nos relacionamos, pertencemos e disputamos espaço na sociedade.

Nesta coluna para o [SSEX BBOX], quero construir reflexões sobre os discursos que moldam o Brasil e a América Latina contemporânea, conectando comportamento, cultura, política, desejo e comunicação de uma forma acessível, crítica e humana.

Nos últimos meses, tenho observado uma proliferação curiosa de encontros masculinos que prometem restaurar algo que, supostamente, teria sido perdido: a essência do homem contemporâneo.

O ator Juliano Cazarré tornou-se um dos símbolos desse movimento ao divulgar “O Farol e a Forja”, experiência imersiva voltada à liderança masculina, disciplina emocional e fortalecimento da família tradicional.

Mas toda vez que vejo homens subindo montanhas para reaprender a ser homens, uma pergunta me atravessa: por que certas masculinidades parecem viver permanentemente ameaçadas?

No [SSEX BBOX], gosto de pensar comunicação não apenas como linguagem, mas como tecnologia de produção de realidade. E talvez o fenômeno redpill diga menos sobre masculinidade e mais sobre gestão emocional do medo.

Você já sentiu o próprio corpo endurecer quando alguém fala sobre “homem de verdade”? Porque eu já.

A montanha do macho-alfa


Existe uma estética muito específica sendo vendida nesses encontros: homens em silêncio nas montanhas, enfrentando frio, resistência física e exercícios emocionais. A performance da força aparece quase como ritual espiritual. Corpo como prova. Dor como método. Liderança como destino biológico, Redpill puro.

Mas Wilhelm Reich talvez chamasse isso de outra coisa: couraça caracterial. Em Análise do Caráter, Reich descreve como repressões emocionais acumuladas desde a infância transformam o corpo em armadura. Meninos aprendem cedo que vulnerabilidade ameaça pertencimento. Aprendem a conter choro, delicadeza, medo e desejo. O corpo endurece para sobreviver socialmente.

Quando observo discursos redpill sobre controle feminino, hierarquia sexual e domínio emocional, penso justamente nisso: corpos que confundem proteção com identidade. Talvez o macho-alfa contemporâneo não seja um homem livre. Talvez seja apenas alguém treinado para nunca relaxar.

E isso produz um paradoxo curioso: quanto mais esses movimentos falam sobre autenticidade masculina, mais parecem depender de vigilância permanente sobre emoções, desejos e afetos.

Família, repressão e fascismo sexual


Uma parte importante da retórica conservadora contemporânea gira em torno da ideia de restaurar a família tradicional. Pai forte. Mulher submissa. Papéis definidos. Ordem emocional.

Mas Reich já alertava que estruturas familiares excessivamente autoritárias não produzem estabilidade afetiva, produzem repressão. Em Psicologia de Massas do Fascismo, ele conecta repressão sexual e autoritarismo político.

O prazer reprimido não desaparece; ele retorna como ressentimento, culpa e necessidade de controle.
Talvez por isso movimentos redpill transformem relações humanas em estratégias de poder. Homens precisam liderar. Mulheres precisam obedecer. Afetos precisam ser administrados.

No Brasil, esse discurso ganha ainda mais força em períodos de insegurança econômica, ansiedade social e transformações culturais aceleradas. Corpos queer, identidades trans e experiências dissidentes acabam funcionando como alvo simbólico desse medo coletivo.

Porque seu gênero pode ser fluido, então nenhuma masculinidade é completamente estável. E talvez seja justamente isso que provoque tanto desconforto. Você já percebeu como esses gurus falam obsessivamente sobre controle, mas quase nunca sobre prazer?

O corpo sem armadura

O que mais me interessa em Reich é sua capacidade de conectar prazer e política. Em A Função do Orgasmo, ele propõe algo radical até hoje: corpos vivos não funcionam bem sob repressão permanente. Existe algo profundamente autoritário em ensinar pessoas a sentirem menos para parecerem mais fortes.

Enquanto discursos redpill transformam a masculinidade em disciplina emocional, Reich propõe circulação afetiva, autonomia corporal e liberdade do desejo. O orgasmo pleno deixa de ser apenas experiência íntima, torna-se ruptura da couraça.

Talvez por isso experiências queer incomodem tanto as estruturas conservadoras. Elas revelam que existem outras formas possíveis de existir no mundo: menos rígidas, menos hierárquicas e menos organizadas pelo medo.

E talvez a pergunta que permanece seja simples: Quantos homens estão buscando “liderança masculina” quando, na verdade, estão procurando pertencimento emocional?

COLUNISTA

O97A0895 (1)

Samanttha Neves

[ela/dela]

Samanttha Neves é estrategista em comunicação, percepção e comportamento, com atuação na interseção entre análise de discurso, diversidade, semiótica, cultura organizacional e inclusão. Sua trajetória combina experiência corporativa, educação executiva, projetos sociais e desenvolvimento de metodologias aplicadas à comunicação estratégica, pertencimento e eficiência organizacional. Ao longo dos últimos anos, atuou em empresas de tecnologia, liderou iniciativas de grupos de afinidade e desenvolveu projetos voltados à construção de ambientes mais acessíveis, humanos e sustentáveis. Graduada em Relações Públicas e pós-graduada em Data & Insight Marketing pela ESPM, Samanttha integra análise crítica de narrativas, comportamento de consumo, Comunicação Não Violenta (CNV), inteligência emocional e leitura de cenários para transformar comunicação em ferramenta prática de impacto social, alinhamento cultural e tomada de decisão. Seu trabalho conecta organizações, lideranças, empreendedores e comunidades vulnerabilizadas através de projetos que reduzem ruído comunicacional, fortalecem pertencimento e ampliam acesso à informação, autonomia econômica e construção de percepção estratégica. Também atua na criação de metodologias próprias voltadas à comunicação inclusiva, comportamento e eficiência relacional, além de desenvolver conteúdos, palestras, workshops e formações sobre linguagem, cultura, consumo, diversidade e comunicação contemporânea. Com experiência em atuação nacional e internacional, Samanttha já conduziu cursos, treinamentos e projetos em ambientes corporativos, educacionais e comunitários no Brasil, Canadá, Lisboa e plataformas digitais. Hoje atua como consultora independente, palestrante, facilitadora e pesquisadora, desenvolvendo projetos que unem comunicação estratégica, comportamento, pertencimento e transformação social.
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No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.

As ações do Instituto incluem apresentar ferramentas, conteúdos educacionais, e soluções estratégicas visando o exercício do olhar interseccional para grupos sub-representados. Nossas atividades tiveram início em 2009, a partir de uma série de webdocumentários educacionais que exploram temas da sexualidade e gênero para promover mudanças sociais com base nos direitos humanos.

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