Como o Código Hays transformou corpos queer em ameaças e o que essa escolha revela sobre poder, identidade e representação no Brasil.
O cinema colocou pessoas queer nos papéis de monstro décadas antes de qualquer debate público sobre representatividade no audiovisual. No Brasil, onde imagens importadas de Hollywood moldaram o imaginário coletivo sobre identidade e diferença, investigamos o que ficou dessa herança: a associação entre dissidência de gênero e perigo, construída quadro a quadro ao longo do século XX.
Quando a censura precisou de um disfarce
Em 1930, o Código Hays entrou em vigor nos Estados Unidos e proibiu qualquer representação explícita de homossexualidade no cinema americano. O que os estúdios fizeram foi simples: não apagaram a queerness da tela, mudaram o endereço dela.
Personagens com ambiguidade de gênero, sexualidade fora da norma ou comportamento que escapava ao modelo heterossexual compulsório foram realocados para os papéis de vilão, criatura, aberração. A mensagem que chegava ao público não vinha escrita em cartaz. Estava embutida na estrutura da narrativa, no tipo de corpo que ameaçava o herói, no tipo de voz que anunciava o perigo.
O Código vigorou oficialmente até 1968. O repertório visual que ele construiu sobreviveu muito além disso.
Drácula, Úrsula e a estética do desvio
O Conde Drácula, nas adaptações clássicas, seduzia homens e mulheres com igual fluência, apresentado como horror.
A Noiva de Frankenstein de 1935 foi dirigida por James Whale, cineasta abertamente gay, e carrega uma leitura sobre criação artificial, rejeição e existência fora do que a sociedade reconhece como legítimo que não exige muito esforço interpretativo para aparecer.
Úrsula, vilã de A Pequena Sereia (1989), foi baseada diretamente na drag queen Divine, ícone do cinema underground de John Waters. Howard Ashman, letrista que estava morrendo de AIDS enquanto trabalhava no filme, construiu em Úrsula uma figura de poder, prazer e excesso que a narrativa precisava destruir para que a história terminasse bem.
Ashman morreu em 1991. Úrsula foi o personagem que muita gente queer no Brasil dos anos 90 reconheceu antes de ter palavras para o próprio reconhecimento.
Scar canta “Be Prepared” com a gestualidade de um comício e nenhum interesse nas leoas que cercam Mufasa.
Jafar é lido como perigo pelo simples fato de existir fora da norma de masculinidade que o filme celebra. Esses personagens têm estilo, inteligência e ironia, atributos que Hollywood aprendeu a empacotar como sinal de ameaça quando aparecem em corpos que fogem ao padrão.
A exclusividade como dano
Úrsula é muito mais interessante que Ariel. Scar tem mais textura dramática que Simba. O que produz dano não é a existência desses personagens, mas a exclusividade deles.
Crianças queer no Brasil cresceram reconhecendo algo de si mesmas nos vilões antes de ter acesso a qualquer outra imagem.
Esse reconhecimento carrega um custo específico: a única figura que parecia com você também era a que precisava ser derrotada no terceiro ato. Quando o catálogo inteiro de imagens disponíveis para uma identidade é formado por ameaças, o imaginário coletivo absorve isso como dado natural, não como escolha política.
Reconhecer o subtexto queer nos vilões clássicos é uma operação de leitura crítica. Esses personagens existem porque a queerness precisava ir a algum lugar, e o único lugar permitido era o da ameaça. Esse arquivo é parte da história da cultura queer tanto quanto qualquer manifesto ou marcha. Ele formou gerações antes de qualquer representação afirmativa existir nas telas.