Um olhar para o novo paradigma
No dia 21 de junho de 2017, durante o Oakland Book Festival, nos Estados Unidos, ocorreu a mesa de debate “On Inequality”, reunindo duas das mais importantes pensadoras contemporâneas: Judith Butler e Angela Davis. O encontro aconteceu em um momento político particularmente sensível no cenário global, marcado pelo avanço de discursos conservadores e por intensos debates sobre raça, gênero, justiça social e democracia. Na ocasião, tive a oportunidade de realizar uma breve entrevista com Butler, ampliando reflexões que emergiram naquele diálogo potente.
Republicar esta entrevista hoje não é apenas um gesto de memória, mas um convite à reflexão no presente. O cenário político atual — especialmente nos Estados Unidos, onde observamos o fortalecimento de políticas conservadoras e ofensivas contra direitos reprodutivos, contra pessoas transgênero e contra conquistas históricas da cultura e da teoria queer, além de pressões crescentes sobre universidades e espaços de pensamento crítico — evidencia que muitas das questões levantadas naquela conversa permanecem profundamente urgentes. Retomar as palavras de Judith Butler neste momento permite reler aquele período recente à luz das tensões contemporâneas, lembrando que as disputas em torno de gênero, democracia e justiça social não são episódios pontuais, mas processos contínuos. São debates que exigem vigilância crítica, imaginação política e a construção permanente de alianças coletivas para sustentar e ampliar os horizontes de liberdade.
Essa conversa foi posteriormente publicada no Caderno Globo – Corpo Artigo Indefinido, seção na qual participei da co-criação de conteúdos e da curadoria do evento de lançamento no Rio de Janeiro, contribuindo para a articulação de debates públicos sobre corpo, política e transformação social.
Ao longo de sua trajetória, o [SSEX BBOX] tem se dedicado a criar pontes entre diferentes culturas, territórios e campos de conhecimento, trazendo para o Brasil debates internacionais sobre gênero, sexualidade, cultura queer e teoria queer, além de reflexões sobre justiça social e transformação cultural. Desde sua origem, o projeto busca situar essas conversas em um contexto transnacional, conectando experiências e perspectivas de diversos países, artistas, pensadores e movimentos sociais. A publicação desta entrevista integra esse esforço de ampliar o repertório crítico e fortalecer diálogos que atravessam fronteiras.
CONFIRA AQUI A ENTREVISTA
1 – Vivendo em um holograma de opressão como temos vivido, por que a interseccionalidade não pode esperar?
JB: Não tenho certeza se estamos falando dos Estados Unidos, do Brasil ou de uma condição global. Mas, se você está me perguntando por que a questão racial importa na maneira como pensamos a política, então já passou da hora. Como sabemos, são as mulheres racializadas que sofrem globalmente com a pobreza, o analfabetismo e a violência, e portanto não pode haver igualdade, liberdade ou justiça enquanto essa forma de violência racial não for enfrentada e superada.
Se pensarmos na crítica ao capitalismo, não podemos separá-la da questão racial. Afinal, como estamos concebendo a figura do trabalhador? E as pessoas que sofrem com o racismo ambiental? E os povos indígenas? Quem entra no mercado de trabalho e em quais condições precárias? Todas essas perguntas levantam imediatamente questões de gênero e raça e mostram como elas se entrelaçam com a forma como pensamos a classe.
2 – Eu ouvi você e Angela Davis falarem sobre como curar coletivamente os traumas. Você acredita que a justiça restaurativa é um bom começo?
JB: A justiça restaurativa é um objetivo. É uma maneira de experimentar formas não jurídicas de reconciliação e reparação comunitária. Para Angela, a reforma das prisões é insuficiente, porque a prisão é uma instituição violenta, que atinge desproporcionalmente minorias raciais.
Mas será que conseguimos sequer pensar fora da lógica da prisão? Essa é uma tarefa para ativistas e artistas, e envolve ultrapassar os limites da nossa imaginação contemporânea.
Claro que temos um problema: quando olhamos para o feminicídio, por exemplo, para a violência desencadeada contra mulheres, travestis e pessoas trans, sentimos a tentação de recorrer à lei, de exigir leis fortes e sua aplicação rigorosa. Mas, ao fazer isso, também ampliamos o poder do Estado e suas formas de violência legal. Portanto, precisamos de um debate aberto sobre como imaginamos a justiça e qual é a melhor maneira de combater essa violência e esses assassinatos.
3 – Nas últimas duas décadas, quais foram os principais avanços nas questões de gênero? Quais são os principais obstáculos?
JB: Tudo depende do lugar do mundo ao qual você está se referindo. O mundo não avança e retrocede ao mesmo tempo de forma uniforme. Existem iniciativas em alguns lugares que estão funcionando, enquanto em outros há reações conservadoras ou ataques explícitos contra mulheres e pessoas que não se conformam às normas de gênero.
Acho muito impressionantes as redes de solidariedade na América Latina contra o feminicídio. Elas estão se tornando mais conhecidas, embora a violência continue.
“Questões de gênero” inclui muitos temas: a discriminação contra mulheres, a dupla discriminação contra mulheres indígenas, negras e pardas; os direitos à tecnologia reprodutiva; os direitos de pessoas LGBTQI de viverem suas vidas com liberdade e sem ameaças de autoridades legais ou outras formas de violência. Essa é uma luta contínua.
Quanto mais amplo for nosso conhecimento global sobre essas lutas — como as pessoas têm resistido e com que sucesso — mais estratégias podemos considerar.
4 – O tema de gênero está cada vez mais presente na mídia mainstream. Que desdobramentos podem surgir desse interesse?
JB: O risco é que personagens trans na televisão sejam consumidos como entretenimento, enquanto continuam desprotegidos nas ruas. Então a questão é: como transformamos essa aceitação ou apelo popular em propostas políticas concretas que tornem a vida mais habitável para pessoas que vivem fora das normas de gênero?
Além disso, avanços na cultura popular muitas vezes provocam fortes reações contrárias, novas formas de discriminação e repressão. Portanto, não podemos depender da cultura popular para alcançar os objetivos mais amplos de transformação social.
5 – Em muitos países, políticas conservadoras chegaram ao poder. Na sua visão, como isso afeta o avanço das discussões sobre gênero?
JB: Nos Estados Unidos, Trump representa o sucesso de forças racistas e misóginas, e o desprezo pelo feminismo, pelos direitos LGBTQI e pelos movimentos sociais tornou-se política pública.
Além disso, precisamos nos preocupar com a apropriação neoliberal das pautas desses movimentos. Termos como “emancipação”, “liberdade” e até “resistência” são apropriados por aqueles que buscam aumentar seu capital dentro de uma lógica neoliberal de valores.
Existe, portanto, uma disputa pelos significados dessas palavras. Isso significa que precisamos vincular a luta pela liberdade e justiça de gênero à crítica do capitalismo e de sua versão neoliberal. Também é importante que o feminismo afirme o movimento trans e compreenda que a liberdade de gênero deve ser uma categoria ampla e inclusiva.
6 – No campo acadêmico, quais temas têm despertado mais interesse entre seus estudantes ultimamente?
JB: Não tenho certeza. Existe um interesse renovado no materialismo, na crítica ao capitalismo, na biopolítica e na necropolítica, nos fascismos antigos e novos, na política da tradução e na possibilidade de solidariedades transnacionais.
Não acompanho exatamente as tendências acadêmicas, mas acredito que agora todos estamos preocupados com o futuro da universidade, o futuro das humanidades e do pensamento crítico e radical.
Por isso, torna-se cada vez mais importante pensar nas condições estruturais do nosso próprio ensino e da nossa escrita, o que significa desenvolver formas de aliança com estudantes e trabalhadores dentro da universidade.
Também é fundamental reconhecer o importante trabalho intelectual e criativo que acontece fora da universidade e responsabilizar nossas instituições pelas comunidades que elas deveriam servir.
Assista o vídeo de lançamento do Caderno Globo – Corpo: Artigo Indefinido