COLUNA

[ele/dele]

Canário West é o pseudônimo de Juliano Camarão

Força e sensibilidade

Gosto de filmes e de garotos. Sou um homem de gostos simples, movido por paixões, quase sempre vejo gemas se acederem no escuro. Narrativas dão conta da minha memória. Se a imagem é maluca ou se eu sou mal apaixonado, é que eu me emociono demais, uma canção da Fafá de Belém cantada bem no karaokê já me desmonta, as lágrimas são como um rio quente quando o açúcar as vezes salga. Assisti muitos filmes ao longo da minha vida e chorei com eles. Amei muitos garotos ao longo da minha vida e chorei por eles no escurinho do cinema, drops de anis, jamais querendo fugir dos meus problemas, mas sempre busquei nos filmes um motivo para seguir, quem sabe assim, minha vida seja um também. Eu já sonhei realizar um filme, Marco Palo Seco embarcava em um trem, conhecia duas mulheres, sendo uma delas uma idosa recém divorciada. Marco músico de 19 anos, Ana professora de 35. Todos atropelados pelo amor, mas o trem como sinal de esperança. Movimento. A ideia começou a ser concebida a partir da música “Negro amor” que na época conhecia na versão da banda Engenheiros do Hawaii (choro com a da Gal também). A palavra gay sequer era mencionada no roteiro, sem espanto, sem susto, quando claramente Marco Palo Seco com seu bigodão compunha para navegar corações de homens.

Na minha adolescência, que é agora, inclusive, porque logo completarei 15 anos, era um incomodo para mim o rótulo temática gay. Algo como hoje falam, Chega de histórias de gays sofredoras, eu há época pensava, Chega de histórias de gays se descobrindo gays; como os outros, eu também faço coro quando dizemos, Quero ver histórias de gays sendo… É isso! Gays sendo, ou seja, mais ou menos convictos dos seus vazios existenciais e, enfim, investigando assassinatos (Entre Facas e Segredos o maravilhoso Benoit Branc). Não estou deslegitimando esses filmes que aqui abarco sobre o imaginário temática gay, até porque há espaço para todos, inclusive, a miríade de opções me interessa mais. No entanto, sem saber, me perguntava, O que é temática gay? Lembro de ter ficado bastante entusiasmado quando assisti Priscila a Rainha do Deserto pela primeira vez. Lembro pouco do filme, precisaria rever, mas recordo indica-lo na aula de filosofia porque a narrativa contada girava em torno delus serem artistas. Uma cena ecoa na minha cabeça até hoje, a Priscila atravessando uma estrada árida e alguém com uma longuíssima capa prateada esvoaçante sentade em cima dela. Imagens têm força. Hoje coloco uma capa, um tecido, qualquer pedaço de pano em volta do pescoço e me sinto invencível como um ônibus guiado por artistas.

As imagens são tão poderosas que diante dela o homem se emociona, ajoelha e chora, implora e pede perdão. A imagem pode nos estimular ou nos afastar. A imagem começa quando não mais enxergamos seu suporte físico da geometria, e sim quando através dela se reconhece uma figura familiar. Quantas crianças não cresceram como estranhas porque não havia material que lhes reconhecessem como imagem familiar? Muitos círculos jamais conseguiram serem vistos reunidos para dar imagem à flor. Meus alunos e eu fomos procurar um filme para assistir. Depois de muita indecisão, escolhemos Minha Mãe é uma Peça 3. Especificamente este porque para minha aluna se justificava a escolha por ser nele que o Juliano se casa com o seu primeiro namorado. Não sei a sexualidade dela e também não desconfio ou especulo, uma turma de adolescentes está com vontade de assistir o filme realizado por um homem gay rido da e com a mãe dele. Nesse filme, há duas sequências que me emociona muito.

A primeira é na infância do Juliano. Ele vai a um aniversário cujo tema é do Sítio do Pica-pau Amarelo. A Hermínia fez uma fantasia de visconde, mas o Juliano queria ir de Emília, e assim foi. Na festa as crianças não queriam brincar com ele, corta meu coração toda vez quando assisto o pequeno se virar choroso para a Hermínia e pedir, Mãe, brinca comigo. Ela, então, faz melhor, canta a belíssima música “Emília, a boneca gente” e todas as crianças se aproximam do Juliano e do palco, fazem ciranda, fazem o mundo girar. Porque a imagem é poderosa, é no desenho da imaginação que se começa a pintar, cantar e bordar o mundo. A Hermínia agradece ao Juliano pela sensibilidade de ter escolhido se vestir de uma personagem tão forte. Acho tão fofo. Na minha infância, quando houve àquele festival de fotos na escola, eu queria me vestir de Visconde de Sabugosa. Meu pai não deixou, disse que se começasse assim, logo estaria vestido de Emília também. Tirei a foto vestido de soldado. Eu não gosto dessa foto até hoje. No filme, Juliano termina a sequência dizendo que se não fosse a mãe dele, aquele dia teria sido muito traumático. Eu não sei se esse episódio da minha infância tem relação com minha má vontade de tirar fotos hoje em dia, só sei que meus traumas Freud não explica.

A segunda sequência é a do casamento. Os discursos, o mar azul ao fundo, um céu para voar como passarinhos e estes pés presos no chão. Nós, gays românticas, ficamos assim de balangandãs e tanga querendo transformar bugigangas em colares da Tiffany diante do altar. Ai, de mim que sou romântica.

Adolescente, eu já intuía a imagem como um trem que transporta para a presença algo que estava no campo do ausente. Velhas formas de abordagem não capturam os traços da nossa subjetividade, aquilo que transforma bonecos de barro em humanos. Imaginar um presente no hoje também é uma motriz que me move. É preciso paixão para separar o escuro do claro e com isso criar a noite, o dia, a tarde, a madrugada, a manhã. Uma gay é tão complexa quanto a própria criação do tempo e talvez nem o tempo e nem o cinema seja capaz de capturar sua vida se transcorrendo para além da sexualidade e do descobrimento, o que abre espaço para o carinho não é susto ou o espanto, mas o conjunto dentro do conjunto como uma imagem transformando números em um poema familiar.

COLUNISTA

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[ele/dele]

Canário West é o pseudônimo de Juliano Camarão, um baiano nascido onde a mata atlântica se encontra com o agreste. Foi pescador antes de se mudar para Belo Horizonte onde cursa gestão pública na faculdade. Como autor, gosta de escrever crônicas. Como um peixe, ele é fisgado por instantes diáfanos e a partir deles, busca nas palavras um modo de dar-lhes forma.
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