Ouvi o álbum de Ivana Wonder antes da entrevista. “Ao Meu Amor” grudou primeiro, mas foi só chegar na conversa que entendi por que o disco inteiro pesa tanto: são oito anos guardados numa gaveta que decidiu, finalmente, abrir.
De onde veio o título?
Perguntei sobre o título do primeiro ato e foi direto ao ponto que atravessa o disco inteiro. Teatros caríssimos que nem respondiam, espaços que elogiam a drag na rede social e fecham a porta na hora do palco físico.
“Eu sou o meu próprio palco”, ela me disse. “Não preciso que ninguém me dê esse lugar.” A frase virou o eixo de tudo: se ninguém abre a porta, ela constrói a própria sala.
Isso explica também por que o disco demorou tanto para nascer. O primeiro single saiu em 2018, um cover antigo do Luiz Bonfá, e por um tempo ela imaginou um trabalho inteiro voltado para o passado.
A pandemia mudou o rumo. Ivana aprendeu piano, começou a escrever as próprias músicas e percebeu que reformular uma estética antiga não fazia mais sentido: ela queria registrar o que sentia agora, sobre amor, dor e solidão, antes que fosse tarde para dizer.
Opera rock: o primeiro ato de Ivana
O resultado é uma ópera rock que ela mesma descreve como um roteiro teatral. Sem formação musical formal, Ivana compôs anotando o que chama de mapa emocional: uma sequência de sensações que foi traduzindo em notas de piano, com a ajuda do produtor Hélio.
As referências vão de Maísa a trilha de faroeste, do drama mais melado ao punk cru que também define outras vozes do rock, tudo dentro do mesmo disco, sem medo de misturar nem de soar clichê.
Falamos também sobre “Dizem que Estou Louca”, faixa que carrega uma frase que ela repete como mantra: “Dizem que sou louca, que eu não vou parar. Só vão me parar morta.”
A música nasceu de um impasse real com um produtor anterior, que dava justificativas técnicas para vetar as escolhas dela. Ivana insistiu do jeito dela, trocou de equipe e regravou o disco inteiro.
O título vem de uma experiência real, não de um exercício de retórica, e se você já leu Será que estou louca? Um manifesto, sabe que essa frase carrega um peso parecido em mais de um lugar da cena.
“Quem Sabe” é a única faixa do disco que ela não escreveu, e talvez a mais reveladora sobre como ela pensa música.
Ivana ouviu a canção original, de 1850, numa cena de filme em 2021, e decidiu ali que seria o encerramento do álbum antes mesmo de saber o resto das faixas.
Domínio público, romance perdido e melancolia, são temas que atravessam o disco inteiro resumidos numa música que nem é dela.
Perguntei sobre o momento atual, já que o disco chega num cenário difícil para shows de artistas queer, e ela não fugiu do assunto. Cachês baixos, ingressos caros, um ano eleitoral que puxa a atenção para qualquer coisa menos música.
Mesmo assim ela não quer adiar o lançamento. “O disco é meu em primeiro lugar”, ela disse. A precariedade de agenda e de espaço não é exclusividade, mas Ivana já sabe que, a partir de agora, cada pessoa vai interpretar as faixas do jeito dela, e é isso que mais anima Ivana: perder o controle do significado.