COLUNA

Moon Kenzo

[ela/dela]

Travartista sobralense. Música, Literatura e comunicação.

O que o tempo não cura, ele revela: Lana Del Rey, Tarot e as Kardashians do Agreste

A potência sem filtro de Sina: o suspense queer potiguar que bota a carne, a magia e a memória na mesa.

Em 22 de junho de 2014, durante uma missa na Igreja de Santa Teresinha, na cidade de Tangará (RN), um homem começa a atirar com uma espingarda enquanto murmura o Pai-Nosso entre os disparos. Deixando marcas em todos, dos presentes aos ausentes, é sob esse rastro de mortos e feridos que nossa jornada começa no suspense queer Sina, do jornalista, pesquisador, cartomante e escritor Tony Lucas, trabalho finalista do concurso “Livros do Futuro”, promovido pelo TikTok. 

Existe um lugar emocional muito específico que atravessa a nossa identidade nordestina quando nos deparamos com signos tão vivos e próximos de nós dentro de uma obra, seja na música, na literatura ou no cinema. Principalmente por virmos de uma cultura tão rica, plural e altiva, que o olhar hegemônico e higienista do Sudeste historicamente insistiu em inferiorizar ou diluir, é irresistível perceber o quão arrebatador foi sentir esses elementos sem apelos folclóricos, clichês regionais ou dinâmicas oportunistas, que se tornaram habituais para quem consome por conta da complacência de quem produz. 

Como cartomante de longa data, ver a narrativa estruturada a partir dos 22 Arcanos Maiores do Tarot me chamou atenção imediata. Esse recurso, quando usado por mãos não capacitadas, costuma render estereótipos e dinâmicas erradas. Bastaram poucas páginas para notar que não se trata de um mero fetiche estético, mas do manejo vivo das forças do destino. As cartas dão nome aos capítulos e conduzem a trajetória de Samuel, uma mona que tinha tudo para levar uma vida comum e fugaz, mas que se vê confrontada constantemente pelos mistérios e fantasmas do passado. O Tarot não decreta uma sentença imutável, mas desvela e conduz o personagem pelas encruzilhadas em que é testado, neste plano e no outro.

Um dos grandes trunfos de Tony Lucas é a presença constante de referências pop contemporâneas. De Norman Fucking Rockwell, passando por Getúlio Abelha, até o grupo de Facebook League of Divas, ele soube integrar esses elementos de forma proeminente à narrativa. As referências não funcionam apenas como pano de fundo, mas como linguagem, refúgio e afirmação de identidade, criando um contraste potente entre a solenidade dolorosa dos pensamentos de Samuel e a pulsão jovem que o envolve. 

Confesso que sigo completamente obcecada pelas Irmãs Bezerra de Lagoa do Feijão, as Kardashians brasileiras. Esse núcleo proporciona um equilíbrio perfeito entre o acolhimento característico de famílias nordestinas chefiadas por mulheres, onde reconheci desde pessoas até momentos do meu próprio cotidiano familiar, e a firmeza de quem aprendeu a resolver a vida na raça. Honestamente, foram as responsáveis por marejar os olhos desta travesti incontáveis vezes. 

Lançado no dia 13 de agosto, uma sexta-feira 13, disponível para compra no Kindle pela Amazon, e de onde espero que um dia o autor proporcione a esta travesti o prazer de ter um exemplar físico autografado, o livro demonstra uma força que extrapola as fronteiras do Agreste potiguar. A identificação de leitores de fora do Nordeste não deve acontecer por uma chave de exotismo, curiosidade turística ou condescendência, mas pelo reconhecimento da universalidade dos temas propostos. Qualquer leitor encontrará em Sina o medo do julgamento familiar ou social, a busca por pertencimento de corpos dissidentes, o peso de traumas não elaborados e o desejo visceral de reescrever a própria história. A jornada de Samuel fala sobre cicatrizes que transcendem marcas geográficas. 

Sina é, em última instância, um suspense psicológico e espiritual arrebatador. Tony Lucas entrega uma obra afiada e corajosa que prova que aquilo que o tempo não cura, ele inevitavelmente revela. É uma leitura magnética, necessária e profunda, que nos prende do impacto inicial até a última carta do tarot, afirmando categoricamente que a literatura queer nordestina existe e se impõe em sua mais inegociável qualidade.

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COLUNISTA

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Moon Kenzo

[ela/dela]

Moon Kenzo é uma artista multimídia sobralense: cantora, compositora, atriz e escritora. Graduanda em Letras-Inglês pela UVA, Moon transita entre a música, a literatura e o palco como extensões de um mesmo corpo trans, preto e gordo. Sua trajetória é movida pela recusa em aceitar as fronteiras que tentam impor à sua arte, fundindo R&B, Soul e Synthwave para narrar as fissuras da existência. Com presença em antologias como Embaixo do Cajueiro e Cerol e Navalha (2024), e prestes a lançar seu manuscrito Ávida (2026), Moon enxerga na escrita um exercício de sobrevivência. Ela não busca a neutralidade, busca o corte, sua voz é a ferramenta com a qual reescreve a própria história, devolvendo ao mundo a visceralidade que tentaram lhe negar. Para Moon, a arte é o lugar onde o confronto vira criação: “Se a língua é uma arma, a minha é submetralhadora carregada com infinitos pentes.
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