COLUNA

João Pedro Fontes

[ELE/DELE]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em

Os ratos estão à solta

O ataque a Erika Hilton, a eleição de 2026 e o plano de attention whores direita para disputar atenção e poder

“Você realmente gosta de viver uma vida tão cheia de ódio? Porque há um buraco onde sua alma deveria estar, você está perdendo o controle e isso é realmente detestável” 

Lily Allen – Fuck You

O ÓDIO COMO ESPETÁCULO

Começo esse texto com esse trecho de “Fuck You” da cantora britânica Lily Allen para falar sobre como personalidades de extrema direita se aproveitam da atenção que recebem para propagar o ódio.

ENQUANTO ISSO, NO REINO UNIDO: A AUTORA QUE PREGOU ACEITAÇÃO E FINANCIA EXCLUSÃO

No atual contexto político mundial, nos encontramos em situações decisivas para as democracias. Enquanto escrevo, a extrema direita avança na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. Relatórios da ONU apontam crescimento alarmante de células neonazistas – no Brasil, esse número saltou 270% entre 2019 e 2021. Mais de 530 núcleos extremistas foram mapeados em território nacional.

Não é um fenômeno distante. No Reino Unido, a criadora da saga Harry Potter – que construiu um império bilionário vendendo histórias sobre aceitação e pertencimento – se tornou uma das vozes mais influentes na articulação de políticas anti-trans. Seu discurso, travestido de “defesa das mulheres“, alimenta projetos de lei que excluem pessoas trans de espaços públicos, financia ações judiciais contra a comunidade trans e legitima o preconceito como “opinião respeitável” . O mesmo mecanismo opera aqui: um apresentador no horário nobre repete a cartilha, sabendo que cada palavra sua valida a violência que acontece fora das telas.

O discurso de ódio deixa de ser “excesso” para se tornar uma plataforma política e em 2026 teremos eleições no Brasil. 

ERIKA HILTON COMO ALVO ESTRATÉGICO

Recentemente, o apresentador rato – nesse texto irei me referir a ele assim, e mais adiante você entenderá porquê – decidiu usar o seu programa no SBT para deslegitimar a deputada federal Erika Hilton após ela assumir o cargo de presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara. O programa já é conhecido por ser um lugar onde esse tipo de discurso é não só aceito, mas incentivado. O alvo escolhido não é por acaso. 

Erika Hilton é uma mulher trans, preta, deputada federal e agora preside a Comissão da Mulher. Para os “attention-whores” da extrema direita, ela representa tudo que precisam destruir para mobilizar a sua base eleitoral. Atacar ela não é apenas transfobia gratuita, é um recado político: “vejam, uma invasora tomou um lugar que não é dela”.

É o mesmo discurso usado contra imigrantes na Europa, contra minorias nos EUA. A diferença é que aqui ele foi feito no horário nobre da TV aberta. 2026 não é um ano qualquer, é ano eleitoral. Cada fala dessa – usando roupagem de opinião – é campanha disfarçada.

O QUE É UM “ATTENTION WHORE”?

Na minha vida frequentando fóruns de internet me deparei com um tipo específico de usuários: os attention-whores, é aquele usuário que não quer debater – ele quer caos. Posta a barbaridade mais absurda possível apenas para ver o mundo reagir. A qualidade do que diz é irrelevante; o que importa é o número de respostas, de compartilhamentos, de ódio. Ele existe pela reação que provoca.

O que era comportamento de fórum virou negócio. Ele é um troll profissionalizado – com CNPJ, com emissora, com verba pública indireta. Enquanto o attention whore da internet era banido e sumia, o da TV é premiado com audiência. E em ano eleitoral, audiência vira poder. Cada ataque dele é calculado para manter o nome nos trending topics, para alimentar a bolha, para mostrar aos extremistas que eles têm um porta-voz

O apresentador rato não cria esse ódio sozinho – mas ele o legitima. Ele pega o que fermenta nos esgotos da internet e leva para a sala de estar das famílias brasileiras.

POR QUE “RATO”? – A METÁFORA DA PRAGA

Ratos são pragas urbanas. Infestam o ambiente com doenças – no caso, o debate público com ódio e desinformação. Vivem no esgoto – as câmaras de eco da internet, os programas sensacionalistas que sabem que o ódio dá ibope. Alimentam-se de lixo – a dignidade alheia, a vida de minorias, o direito de existir. E atacam em bando, covardemente, quando sabem que a torcida organizada vai aplaudir. Mas o pior: ratos são oportunistas. Em época de eleição, eles saem dos bueiros para ocupar espaço. Sabem que o país está polarizado e que podem lucrar com isso.

O perigo não é só a fala dele. É a normalização dela. Quando um apresentador desumaniza uma deputada trans no horário nobre, em ano eleitoral, ele está dizendo aos seus seguidores: “podem atacar, podem perseguir, podem votar contra – eu estou aqui dando o exemplo”. O rato não morde – ele contamina o ambiente para se proliferar. E o ambiente, hoje, é uma eleição.

O QUE ESTÁ EM JOGO?

Se não os pararmos a tempo, eles vão nos dizimar. Não com balas (pelo menos não apenas com balas), mas com a erosão lenta de qualquer noção de humanidade do outro. O vazio que eles têm onde deveria haver alma é contagiante, e o ódio que propagam é uma pandemia silenciosa que já estamos normalizando.

NEGAR ATENÇÃO É SOBREVIVER

Que “Fuck You” de Lily Allen seja nosso mantra em 2026 – não como xingamento jogado na direção deles, mas como exaustão que se recusa a alimentar a máquina. Eles vivem da nossa atenção, do nosso clique, do nosso ódio. 

Cada vez que nomeamos, compartilhamos ou reagimos, damos combustível ao incêndio que dizemos querer apagar. A resposta não está nos trending topics, mas nas urnas, nas ruas, na organização silenciosa de quem constrói um mundo novo enquanto eles gritam para holofotes vazios. 

Em 2026, o que está em jogo é se ainda acreditamos que o outro merece existir – e a resposta a essa pergunta não será dada com like em post polêmico, mas com voto consciente, com corpo presente, com a lucidez de quem aprendeu que negar atenção ao attention whore é a única vitória possível contra quem só existe quando a gente olha.

COLUNISTA

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João Pedro Fontes

[ELE/DELE]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade, aprofundou-se em suas raízes e tornou-se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter, com experiência em gestão de marcas, criação de campanhas e desenvolvimento de estratégias digitais com foco em cultura e identidade.

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