Alegria, imaginação e a arte de ensaiar o amanhã
Vivemos um tempo em que o debate público é sequestrado pelo medo como método de governo e pela escassez como projeto político. De um lado, novas ameaças globais — como o vírus Nipah — reaparecem nos noticiários não apenas como risco sanitário, mas como sintoma de um mundo exausto, explorado até o limite e estruturalmente incapaz de cuidar da própria vida que produz. De outro, assistimos à consolidação de um imaginário autoritário que transforma crueldade em espetáculo e exclusão em política pública: o reacionarismo midiático de Nikolas Ferreira, a persistência do bolsonarismo como força simbólica —, nos Estados Unidos a violência institucionalizada da ICE, e o retorno explícito do trumpismo com Donald Trump. Nesse cenário, até políticas mínimas de reparação e acesso, como criação de comunidade e mais educação com o ProUni, precisam ser defendidas como se fossem privilégios, quando na verdade são linhas de sobrevivência para corpos que o sistema insiste em excluir do amanhã. É justamente quando o presente é organizado pelo medo que sonhar, construir comunidade e imaginar futuros queer deixa de ser abstração — e se torna um ato radical de resistência.
É nesse cenário, atravessado por crises sanitárias, desigualdades estruturais e batalhas por direito ao existir, que QUEER FUTURES me interessa profundamente. Porque, enquanto o mundo insiste em nos oferecer narrativas de medo, contenção e catástrofe, essa série faz um gesto raro e necessário: imaginar futuros a partir da alegria, da conexão e do cuidado radical.
QUEER FUTURES não tenta prever o amanhã. A série faz algo muito mais potente — radicaliza o presente. A partir da alegria, do vínculo e da intimidade, esses filmes nos lembram que futuros queer não nascem de promessas tecnocráticas nem de políticas que chegam sempre tarde demais, mas de pessoas reais sustentando umas às outras, criando linguagem, família, pertencimento e novas formas de existir.
A coleção reúne quatro curtas-documentários, cada um abrindo uma fresta sensível para modos de vida que já estão em curso:
- A beleza e a libertação de corpos gordos, rompendo com regimes de exclusão estética e ampliando o campo do desejo.
- O acesso à saúde afirmativa de gênero como prática concreta de dignidade, autonomia e cuidado.
- A irmandade não binária na cultura ballroom, onde família não é metáfora — é estrutura viva, ancestral e performativa.
- As conexões anônimas de uma linha telefônica LGBTQ+ histórica, que há décadas provam que escuta, presença e voz salvam vidas.
O que me toca profundamente em QUEER FUTURES é essa escolha ética e estética: não centralizar a narrativa apenas na dor, mas afirmar a alegria como força de reorganização do mundo. Alegria aqui não é ngenuidade — é estratégia. É tecnologia social. É resistência sofisticada.
Não por acaso, a série e seus filmes vêm recebendo reconhecimento internacional importante, tanto pelo rigor artístico quanto pelo impacto cultural e político. Isso importa. Importa porque valida um tipo de narrativa que, por muito tempo, foi considerada “afetiva demais”, “menor” ou “pouco objetiva”. Importa porque afirma que contar histórias queer com beleza, complexidade e cuidado é também fazer transformação estrutural.
Produzido pela Multitude Films, QUEER FUTURES se inscreve numa linhagem de documentário que não quer apenas informar, mas deslocar sensibilidade, gerar campo, criar conversas que continuam depois da tela. Cinema como prática de cuidado. Como arquivo vivo. Como ensaio coletivo de outros mundos possíveis.
MnM – Festival Screener
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O que é queer ?
O termo tem uma variedade de significados. Já foi usado como pejorativo, e hoje em dia pode ser utilizado como adjetivo, verbo (queering) ou querificar/queerizar, substantivo, identidade coletiva para comunidade LGBTQIAP+, orientação afetivo-sexual e identidade de gênero (como na identificação gênero queer). Um termo oposto à cis-heteronormatividade.