COLUNA

Lyon Adryan Ror

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Artista social, educadore e pesquisadore da área de diversidade há pelo menos duas décadas

Queer Futures

Alegria, imaginação e a arte de ensaiar o amanhã

Vivemos um tempo em que o debate público é sequestrado pelo medo como método de governo e pela escassez como projeto político. De um lado, novas ameaças globais — como o vírus Nipah — reaparecem nos noticiários não apenas como risco sanitário, mas como sintoma de um mundo exausto, explorado até o limite e estruturalmente incapaz de cuidar da própria vida que produz. De outro, assistimos à consolidação de um imaginário autoritário que transforma crueldade em espetáculo e exclusão em política pública: o reacionarismo midiático de Nikolas Ferreira, a persistência do bolsonarismo como força simbólica —, nos Estados Unidos a violência institucionalizada da ICE, e o retorno explícito do trumpismo com Donald Trump. Nesse cenário, até políticas mínimas de reparação e acesso, como criação de comunidade e mais educação com o ProUni, precisam ser defendidas como se fossem privilégios, quando na verdade são linhas de sobrevivência para corpos que o sistema insiste em excluir do amanhã. É justamente quando o presente é organizado pelo medo que sonhar, construir comunidade e imaginar futuros queer deixa de ser abstração — e se torna um ato radical de resistência.

É nesse cenário, atravessado por crises sanitárias, desigualdades estruturais e batalhas por direito ao existir, que QUEER FUTURES me interessa profundamente. Porque, enquanto o mundo insiste em nos oferecer narrativas de medo, contenção e catástrofe, essa série faz um gesto raro e necessário: imaginar futuros a partir da alegria, da conexão e do cuidado radical.

QUEER FUTURES não tenta prever o amanhã. A série faz algo muito mais potente — radicaliza o presente. A partir da alegria, do vínculo e da intimidade, esses filmes nos lembram que futuros queer não nascem de promessas tecnocráticas nem de políticas que chegam sempre tarde demais, mas de pessoas reais sustentando umas às outras, criando linguagem, família, pertencimento e novas formas de existir.

A coleção reúne quatro curtas-documentários, cada um abrindo uma fresta sensível para modos de vida que já estão em curso:

  • A beleza e a libertação de corpos gordos, rompendo com regimes de exclusão estética e ampliando o campo do desejo.
  • O acesso à saúde afirmativa de gênero como prática concreta de dignidade, autonomia e cuidado.
  • A irmandade não binária na cultura ballroom, onde família não é metáfora — é estrutura viva, ancestral e performativa.
  • As conexões anônimas de uma linha telefônica LGBTQ+ histórica, que há décadas provam que escuta, presença e voz salvam vidas.

O que me toca profundamente em QUEER FUTURES é essa escolha ética e estética: não centralizar a narrativa apenas na dor, mas afirmar a alegria como força de reorganização do mundo. Alegria aqui não é ngenuidade — é estratégia. É tecnologia social. É resistência sofisticada.

Não por acaso, a série e seus filmes vêm recebendo reconhecimento internacional importante, tanto pelo rigor artístico quanto pelo impacto cultural e político. Isso importa. Importa porque valida um tipo de narrativa que, por muito tempo, foi considerada “afetiva demais”, “menor” ou “pouco objetiva”. Importa porque afirma que contar histórias queer com beleza, complexidade e cuidado é também fazer transformação estrutural.

Produzido pela Multitude Films, QUEER FUTURES se inscreve numa linhagem de documentário que não quer apenas informar, mas deslocar sensibilidade, gerar campo, criar conversas que continuam depois da tela. Cinema como prática de cuidado. Como arquivo vivo. Como ensaio coletivo de outros mundos possíveis.


MnM – Festival Screener


I

O que é queer ?

O termo tem uma variedade de significados. Já foi usado como pejorativo, e hoje em dia pode ser utilizado como adjetivo, verbo (queering) ou querificar/queerizar, substantivo, identidade coletiva para comunidade LGBTQIAP+, orientação afetivo-sexual e identidade de gênero (como na identificação gênero queer). Um termo oposto à cis-heteronormatividade.

Saiba mais sobre QUEER aqui.

COLUNISTA

PRI BERTUCCI

Lyon Adryan Ror

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Lyon Adryan Ror (Aka Pri Bertucci) é artista social visionárie e pós-ativista, dedicou mais de duas décadas trabalhando na interseção da diversidade, empreendedorismo e arte. Lyon A. Ror atua como CEO da [DIVERSITY BBOX], uma consultoria especializada em educação e inovação, e é fundadore do Instituto [SSEX BBOX], um projeto pioneiro sobre gênero e sexualidade que tem sido uma plataforma para justiça social em San Francisco, São Paulo, Berlim e Barcelona desde 2009. Lyon A. Ror também é reconhecide como um dos principais pioneiros do acrônimo LGBTQIA+ no Brasil desde 2013. Como palestrante, educadore e pesquisadore de renome internacional, Lyon A. Ror tem um compromisso profundo com o fomento do pertencimento e compreensão através das fronteiras culturais e pessoais. Identifica-se como pessoa não branca, trans não binária/gender queer e desafia as normas sociais. Celebrado internacionalmente como o pioneiro e co-criador do “SISTEMA ILE”, o primeiro pronome de linguagem neutra em português, Lyon A. Ror facilitou ativamente a introdução do sufixo neutro ‘E’ em palavras da língua portuguesa. Lyon A. Ror é ganhadore dos Prêmios TikTok 2022 e dos Prêmios da Fundação Brasil 2020. Ile também foi indicade para o “Advogado LGBTQIA+ Global do Ano” no Outie Awards de 2022 durante o Out & Equal Summit, o maior evento LGBTQIA+ do mundo. Como idealizadore e produtore executivo da Marcha do Orgulho Trans de São Paulo — o primeiro Trans Pride no Brasil — Lyon A. Ror utiliza suas habilidades criativas e artísticas para envolver-se com questões sociais e promover mudanças sociais. Seu trabalho, que combina arte multimídia, uma abordagem somática e Comunicação Não Violenta (CNV), possibilita a colaboração com pessoas e organizações em suas comunidades, introduzindo novas formas de pensar e ser, enquanto propõe desafios sociais ao mundo. Em 2023, fez uma contribuição significativa quando criou o primeiro tradutor de linguagem neutra em português e participando da criação da primeira inteligência artificial generativa não binária do mundo.
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No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.

As ações do Instituto incluem apresentar ferramentas, conteúdos educacionais, e soluções estratégicas visando o exercício do olhar interseccional para grupos sub-representados. Nossas atividades tiveram início em 2009, a partir de uma série de webdocumentários educacionais que exploram temas da sexualidade e gênero para promover mudanças sociais com base nos direitos humanos.

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