COLUNA

Gil Araújo

[Ela/Dela]

Gil Araújo é jornalista e escreve sobre gênero, direitos humanos e cidadania democrática.

“Querem fechar a Casa Neon”

Fundada por Paulo Araújo, a Casa Neon Cunha atende população trans e pessoas egressas do sistema prisional e denuncia pressão da vizinhança e falta de financiamento estrutural.

No coração de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, a Casa Neon Cunha se tornou uma fronteira concreta entre a rua e a possibilidade de reconstrução.

Foto: Cedida

A origem da Casa Neon Cunha

Ela nasceu oficialmente em 2018, mas sua fundação é anterior ao CNPJ. Paulo Araújo, ativista maranhense de São Luís, carrega na própria trajetória as marcas da rejeição e da violência motivadas pela homofobia: “A história da Casa Neon começou no meu coração. Eu vivi na pele as dores da rejeição”, afirma em entrevista ao [SSEX BBOX]. Ao se mudar para o ABC, deparou-se com uma realidade que não era invisível, apenas naturalizada: pessoas LGBTQIAPN+ vivendo em extrema vulnerabilidade, muitas expulsas de casa ainda na adolescência, outras egressas do sistema prisional, boa parte em situação de rua.

“Eu percebi que uma parcela significativa dessa população estava completamente desassistida. E não existiam políticas públicas estruturadas para reduzir essas desigualdades”, diz. A ausência do Estado foi o ponto de partida para a articulação com outros ativistas locais. A ideia não era apenas abrir um abrigo, mas criar um espaço que rompesse com a lógica assistencialista tradicional.

“Por que um lar? Porque o lar é mais que uma casa. Abrigar é apenas um passo. A gente quer oferecer dignidade, oportunidade e afeto para que essas pessoas possam viver de forma plena”, explica Paulo.

O nome do projeto é uma homenagem à ativista Neon Cunha, uma das vozes mais relevantes no debate sobre gênero, raça e despatologização no Brasil. A escolha não é estética. É política. Ao assumir esse nome, a Casa afirma um posicionamento público em defesa da população LGBTQIAPN+, especialmente de mulheres trans e travestis historicamente empurradas para a marginalidade.

Da rede informal à sede física

Entre 2018 e 2021, mesmo sem sede física, a Casa Neon já operava como rede de apoio. Distribuía cestas básicas, marmitas e estruturava parcerias com marcas e iniciativas privadas para nivelamento educacional e qualificação profissional

A busca por um imóvel revelou outro tipo de barreira. Segundo Paulo, diversos proprietários se recusaram a fechar contrato quando descobriram que o espaço seria destinado ao acolhimento de pessoas LGBTQIAPN+ em situação de vulnerabilidade. “Foi muito difícil alugar. Houve recusas explícitas por preconceito.” A sede só foi inaugurada em 2021, após articulações que envolveram apoio de um grupo de diversidade ligado à plataforma imobiliária responsável pela intermediação.

Quem são as pessoas acolhidas

Hoje, a Casa Neon Cunha funciona como equipamento de proteção social no território:

  • 24 pessoas residentes;
  • 40 conviventes;
  • Cerca de 250 atendidas em outros serviços voltados à população de rua; 

O perfil predominante revela a face mais dura da exclusão social no país: maioria de pessoas LGBTQIAPN+, com forte presença de mulheres trans e travestis, em grande parte negras, jovens adultas, expulsas de casa ainda na adolescência. Há também um número expressivo de pessoas egressas do sistema penitenciário e trabalhadoras sexuais que encontraram na atividade uma alternativa diante do bloqueio sistemático ao mercado formal.

“Estamos falando de pessoas que enfrentam dupla ou tripla exclusão por identidade de gênero, orientação sexual e histórico prisional”, pontua Paulo. “Nosso trabalho é interromper esse ciclo e criar caminhos reais de autonomia.”

Ameaças e risco de fechamento

A permanência da Casa, no entanto, não é garantida. Nos últimos meses, a instituição tem enfrentado pressão de parte da vizinhança, marcada, segundo a direção, por preconceito e desinformação sobre o trabalho realizado. “Existe resistência quando essa população ocupa espaços com dignidade”, afirma o presidente.

Ele é direto ao explicar a natureza da ameaça. “O risco não vem de uma decisão judicial. Vem da combinação entre pressão social e a ausência de financiamento contínuo para sustentar um trabalho que salva vidas.” Cerca de 60% do orçamento da Casa é mantido por meio de emendas parlamentares destinadas ao fortalecimento das ações de abrigamento e qualificação profissional. Os outros 40% deveriam vir de doações, campanhas e editais. Não há financiamento estrutural permanente.

Paulo também reconhece o pano de fundo ideológico que atravessa o debate. “É impossível ignorar que existe um contexto ideológico quando uma casa que acolhe pessoas LGBTQIA+ em extrema vulnerabilidade sofre ataques. Mas nós não somos um projeto partidário. Somos um equipamento de proteção social.”

A pergunta sobre o que aconteceria em caso de fechamento não deixa margem para abstrações. “Se a Casa Neon fechar, essas pessoas voltam para a rua. Perdem moradia emergencial, alimentação, acompanhamento psicossocial e encaminhamento para saúde e trabalho. Na prática, isso significa mais exposição à violência, ao uso abusivo de substâncias, à exploração e até ao risco de morte.”

Mais do que um prédio, a Casa Neon Cunha tornou-se um ponto de disputa simbólica sobre quem pode ocupar a cidade e em quais condições. Em uma região historicamente reconhecida por sua força de mobilização social, a existência de um espaço voltado à população trans, preta, pobre e egressa do cárcere ainda provoca incômodo.

“O nosso chamado é simples”, conclui Paulo. “Precisamos que a sociedade se posicione. Manter a Casa aberta é uma decisão sobre que tipo de sociedade queremos ser.”

Entre a rua e a dignidade, há uma porta aberta no ABC. E, neste momento, mantê-la aberta é viabilizar a continuidade de um projeto que traqueja pela existência de vidas trans e travestis.

Ato público no dia 7 de março

Diante das pressões e até do recebimento de cartas de ameaça, a Casa Neon Cunha convocou um ato público para o dia 7 de março, às 14h, na própria sede, em São Bernardo do Campo. Com o chamado “Querem fechar a Casa Neon”, a mobilização denuncia o que classifica como tentativa de apagamento da população trans, preta, pobre e marginalizada, além do descaso do poder público. A manifestação também chama atenção para um dado incontornável: o Grande ABC soma mais de 3 mil pessoas em situação de rua, concentradas majoritariamente no município. “Pessoas LGBTQIAPN+ em vulnerabilidade não desaparecem”, reforça a convocação. 

O ato pretende transformar a ameaça em resposta coletiva, afirmando que fechar as portas da Casa não elimina o problema, apenas amplia uma exclusão histórica.

COLUNISTA

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Gil Araújo

[Ela/Dela]

Gil Araújo é jornalista com foco em gênero, direitos humanos e cultura, atuando na produção de reportagens que ampliam vozes historicamente silenciadas e contribuem para o debate público qualificado. Sua trajetória é marcada por apuração rigorosa, escuta sensível e compromisso ético com fontes em situação de vulnerabilidade, especialmente mulheres, população LGBTQIAPN+ e comunidades periféricas. Ao longo de sua carreira, Gil tem priorizado pautas sobre violência de gênero, políticas públicas, acesso à justiça, desigualdades estruturais e iniciativas de promoção da cidadania. Seu trabalho inclui o acompanhamento crítico de políticas públicas, conselhos de direitos e programas institucionais, além da produção de conteúdos que evidenciam avanços, retrocessos e lacunas na garantia de direitos. Entende o jornalismo como instrumento de incidência democrática, capaz de tensionar estruturas, informar e tornar mais visível o trabalho de corpos historicamente marginalizados.
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