Antes de virar galeria, o Beco da Lama era só um beco. Um lugar de passagem, sem placa, sem curadoria, sem ninguém documentando o que acontecia ali. É desse tipo de espaço, os que a cidade usa e depois esquece, que nasce “Rastros”, exposição do ilustrador Jorake, que abriu no Margem Hub, em Natal.
Jorake é conhecido pelo traço fino da ilustração, mas essa exposição empurra o trabalho dele para outro lugar. Tem desenho, tem pintura, tem impressão FineArt.
A precisão que marca sua obra continua ali, só que agora dividindo espaço com uma linguagem mais solta, mais pictórica. É a transição de quem ilustra pra quem também pinta.
As obras revisitam a Cidade Alta, o próprio Beco da Lama, a Praça André de Albuquerque. Só que não como cartão-postal.
Árvores, bichos, personagens e símbolos entram na cena pra puxar o que não aparece em foto: quem passou por ali, quem foi embora, o que sobrou só na lembrança de quem ficou.
Natal muda de skyline com uma velocidade que assusta, e junto dela vão embora amigos, prédios, rotinas inteiras.
“Rastros” trabalha exatamente essa fresta entre o que a cidade perdeu e o que ela insiste em manter viva, mesmo abandonada.
O próprio Jorake resume o impulso por trás do projeto: “Vejo essa exposição como uma forma de se reencontrar com Natal e de homenagear a cidade.
Quis retratar não apenas os lugares, mas me conectar com as memórias e as pessoas que dão vida a eles. Mesmo diante do abandono de alguns espaços, existe uma cidade que continua pulsando, sendo ocupada e reinventada todos os dias.”
A curadoria é de Sanzia Pinheiro, que descreve a mostra como uma cartografia afetiva da cidade. No texto curatorial, ela escreve: “toda cidade é feita de marcas. Algumas permanecem inscritas na arquitetura; outras sobrevivem apenas na memória daqueles que a percorrem.” É esse cruzamento — memória, território, imaginação — que estrutura a exposição inteira.