Atendimento em saúde de pessoas LGBTQIAPN+
Tenho uma lembrança muito clara de quando era criança: eu e minha mãe no postinho de saúde do nosso bairro, em Parnamirim (RN), indo para a sala de vacina com um enorme frio na barriga. Conseguiria descrever com tranquilidade como era o ambiente, o caminho que fazíamos até a sala e como chorei muito após ser vacinada. O cuidado com nossa saúde nos acompanha durante toda a vida, mas o que acontece quando esse acesso passa a ser um fator estressor em nossas trajetórias enquanto indivíduos?
Eu posso dizer quando isso aconteceu comigo: começou quando entendi que não era uma pessoa heterossexual. Porém, o atendimento em saúde se tornou realmente um fator estressor quando minha expressividade de gênero mudou completamente; agora, como travesti, o cenário era bem diferente. Esse processo pode ser comum para muitas outras pessoas — você mesmo, que está lendo, pode se identificar com essas questões.
Muitas pessoas LGBTQIAP+ já sofreram algum tipo de preconceito ao procurar um serviço de saúde, seja pelo despreparo dos profissionais ou por discriminação direta. Nesse quesito, ambientes como hospitais, Unidades de Pronto Atendimento e Unidades Básicas de Saúde podem ser lugares não tão acolhedores para pessoas da comunidade. Essa perspectiva teve uma melhora na minha vida quando entendi que eu mesma poderia colaborar para a mudança deste cenário. Ainda como estudante de fonoaudiologia, fazia atendimentos de aperfeiçoamento vocal e comunicativo para pessoas trans e travestis no projeto de extensão Transvox. Foi nesse momento que entendi o grande poder, acolhimento e segurança de ter “amigos do outro lado”.
Ser uma travesti atendendo outra pessoa trans tornava aquele processo terapêutico muito mais tranquilo e fácil, e essa é uma percepção que outras amigas fonoaudiólogas trans compartilharam comigo. Esses amigos do outro lado existem não somente entre pessoas trans; posso citar aqui amigos que, ao procurarem um atendimento com psicólogo, por exemplo, tiveram como um dos critérios que o profissional fosse uma pessoa LGBTQIAP+.
Esse atendimento, seja ele transcentrado ou entre pessoas da comunidade, torna tudo não somente mais fácil e confortável, como também mais seguro. Lembro-me muito bem de quando fui pela primeira vez a um ambulatório trans para ser atendida; estava tímida e com receio, porém fui bem tratada e respeitada naquele ambiente. Isso também não significa que todo ambulatório trans esteja isento de possuir algum profissional não tão preparado para o atendimento de pessoas trans e travestis; afinal, já soube e também vivi situações que foram um pouco desconfortáveis.
Outro ponto que trago para nossa reflexão é a importância de nossos amigos e aliados que estão do outro lado. É bem verdade que estamos ocupando novos espaços e, sim, estamos presentes na área da saúde. Todavia, ainda precisamos de aliados que possuam letramento em relação à população LGBTQIAP+ e que façam parte destes amigos com quem podemos contar. Desse modo, o acesso à saúde poderá ser um fator menos estressante e frustrante para tantas pessoas.
Se você é uma pessoa LGBTQIAPN+ e está lendo esta coluna hoje, saiba que você não está sozinhe e vamos juntes lutar para que o nosso direito de acesso à saúde seja garantido com o devido respeito a quem somos! Se você é uma pessoa cis-heteronormativa e aliada da comunidade, te chamo para juntar forças para que possamos ir mais longe!