COLUNA

Suelma Rosa

[ELA/DELA]

Diretora Sênior de Reputação e Assuntos Corporativos para América Latina na Unilever

Transformação Social pelo ESG

Com amor, dedicação e coragem, a comunicação será veículo de inclusão absoluta.

A humildade de desaprender tudo que for necessário para transformar o mundo em um lugar seguro e inclusivo para todes exige amor, dedicação e coragem. Amor para avançarmos nas transformações necessárias à formação de uma sociedade global absoluta, radical e abrangentemente inclusiva. Dedicação para trazer à consciência todos os vieses social e historicamente construídos, questionar o status quo, desconstruir aquilo que, às vezes, reconhecemos como nossa essência e desaprender sempre que necessário. Coragem para enfrentar as sombras dos nossos preconceitos ancestralmente constituídos.  

Na escola, aprendemos que a gramática normativa é inquestionável. A ortografia, a sintaxe, as métricas e as regras nos foram impostas. Não recebemos estímulo ao pensamento crítico. Não tivemos contato com a gramática histórica e sua evolução ao longo da história. Não fomos instigados a questionar as relações de poder e a hierarquização social existentes na separação entre a língua formal, dita culta, e a linguagem oral, das ruas, por muitos ainda considerada errada. Se quer nos foi contato que existia a linguística como campo da ciência que estuda os fatos da linguagem. Como ninguém nos contou nada disso, também não sabemos quem foi Ferdinand de Saussure, linguista suíço, que funda esse campo do conhecimento no século XX. 

 E qual a importância da linguística para a promoção da inclusão?   

A linguística, ao se dedicar à observação dos fatos da linguagem, permitiu que nós nos abstivéssemos cientificamente do lugar de definir regras e normas, em nome de certos princípios estéticos ou morais. Nos quase 100 mil anos de história da linguagem humana, a maneira como nos expressamos carrega forte conteúdo histórico, econômico, político, social e moral, representando um contexto cultural datado. Se a língua está em constante evolução e permanente mutação, é tempo de adaptarmos a maneira que nos comunicamos para promover uma inclusão radical de toda a pluralidade humana. 

Você tem coragem de se somar a mim nessa jornada de desaprendizado para abraçarmos e acolhermos todes por meio da comunicação inclusiva?


Transformação Social pelo ESG

A desigualdade, que separa as pessoas com acesso a oportunidades daquelas que não têm condições mínimas de sobrevivência, sempre fez parte da nossa sociedade. Porém, no pós-pandemia, esse aspecto ficou ainda mais evidente, assim como a urgência de uma nova relação entre o ser humano e a natureza, visto que há uma pressão excessiva sobre os recursos naturais do planeta.  

Considerando que existem ameaças à sobrevivência da espécie humana, é preciso criar uma outra maneira de organizar a sociedade local e global. A nova estratégia de ordenação é extremamente necessária e urgente e passa pela reestruturação do sistema econômico e pela transformação do capitalismo, inclusive para garantir sua própria sobrevivência.

A discussão sobre a temática do capitalismo de partes interessadas, ou stakeholders capitalism, vem crescendo cada vez mais, até porque faz parte da agenda do World Economic Forum. Segundo ela, os stakeholders das empresas, incluindo sociedade, governos, ativistas e ambientalistas, fazem pressões constantes para que a empresa mude suas atitudes a fim de reduzir os impactos sobre os recursos naturais.   

Na verdade, o que acontece é que o mundo está passando por uma situação extremamente crítica, que exige uma nova forma de organização social. As companhias precisam ter consciência de que todas as suas ações geram externalidades, que podem ser positivas ou negativas. Mas para o impacto ser positivo, as organizações devem ser baseadas em valores sólidos e saber nitidamente as causas que elas se propõem a defender. 

O ESG como mecanismo de transformação

Diante desse cenário, o ESG traz a oportunidade de rediscutir a forma como as empresas e as marcas são avaliadas no seu valor de negócio, incorporando critérios de impacto social, ambiental e de governança. Assim, esse mecanismo de transformação, no qual as decisões de negócio e os incentivos que os empresários e as empresas têm para deliberar, com o objetivo de gerar impactos ambientais e sociais positivos, cresce cada vez mais. 

No final das contas, o ESG é um instrumento de financiamento dessa transformação, por questões básicas de regulamentação. Nesse caso, deixamos de ter o governo, ou a ação filantrópica ou de responsabilidade social da empresa, como agente da transformação da sociedade e passamos a contar com outro recurso, que é o mecanismo do core business. 

Esse processo é bastante incipiente e, por enquanto, ainda está presente no centro do negócio de poucas companhias. Mas à medida que a regulamentação do sistema financeiro for dando transparência a quem gera impactos positivos e negativos, a sociedade vai premiar, daqui para a frente, o comportamento de organizações conscientes de suas atitudes.  

Direitos coletivos e deveres individuais

No entanto, para solucionar questões ESG, não basta ter apenas a participação das empresas. É preciso criar um ambiente favorável no qual as pessoas alcancem um nível de consciência de seu papel em relação ao meio ambiente e aos outros indivíduos. Essa consciência vem antes da educação, porque ela não exige a obtenção de conhecimentos técnicos, mas sim que você se perceba como parte de um sistema maior. 

Para que o processo de transformação global evolua, é fundamental que as pessoas entendam que são integrantes de uma sociedade e precisam construir coletivamente. Essa construção acontece por meio da consolidação de políticas públicas, que dão acesso aos direitos e ao entendimento de quais são esses direitos. 

Porém, como os direitos coletivos dependem do exercício dos deveres individuais, esse entendimento esbarra em uma grande dificuldade observada em muitas pessoas. Elas pensam que têm direitos, mas não têm deveres para com os outros, e acabam terceirizando a responsabilidade para um nível abstrato.  

No meu caso, por exemplo, essa visão não se aplica, porque eu tive a oportunidade de crescer em uma família que me ensinou que se eu quiser alguma coisa, terei de fazê-la, seja para mim, para as pessoas próximas ou para a comunidade a qual eu pertenço. Essa consciência gera responsabilidade e, ao incorporar esse nível de autorresponsabilização, tudo o que você faz ajuda a outra pessoa de alguma maneira.
 
Foi assim que eu encontrei o meu propósito, ou melhor, a minha responsabilidade com as outras pessoas. Ele está relacionado à transformação de tudo e todos ao meu redor, para construir as bases de uma sociedade mais justa e em harmonia com a natureza. Dessa forma, eu aumento o meu impacto positivo no mundo e contribuo para a geração de bem-estar, que é o meu maior objetivo pessoal e profissional. 

Ouça e entenda todos os lados

Essa consciência de que eu tenho responsabilidade com as outras pessoas me levou a viver diversas realidades e experimentar formas diferentes de organização. Inclusive, tem uma passagem da minha vida muito importante, quando eu trabalhava na UNOPS (Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos) para a América Latina e Caribe. 

Naquela época, surgiu a oportunidade de trabalhar na Dow, uma empresa química e petroquímica. Como eu estava em dúvida se aceitava ou não a proposta, o então presidente para a América Latina, Fabian Gil, me convenceu com uma frase que eu carrego para sempre: se você for capaz de transformar uma empresa do porte das Dow, o impacto de transformação será muito maior do que os projetos-pilotos realizados na ONU.

Gerando impactos positivos

Essa e outras experiências profissionais e pessoais fizeram com que eu alcançasse um alto nível de maturidade, ou seja, de aceitar ouvir pontos de vista completamente diferentes das minhas crenças e valores. Por isso, para agir, transformar e gerar impacto positivo, primeiro você tem que ouvir e entender todos os lados e retirar a camada de julgamento. 

Para gerar um impacto positivo, seja ambiental, social ou de qualquer natureza, é importante entender inicialmente o que você pode mudar. Depois, esse processo se estende para as pessoas que estão ao seu redor e segue para todas as outras camadas de ação que estiverem ao seu alcance. É um impacto que reverbera em diversos níveis, da mesma forma quando você joga uma pedra na água e ela gera pequenas ondas. 

Como essa ação é sinérgica e realizada em camadas, todos os níveis de decisão da vida estão envolvidos, porque não se trata apenas de trabalho, mas também de coerência, persistência e resiliência. Esse entendimento é essencial para a construção de um futuro mais inclusivo e igualitário.

Não há dúvidas de que o ESG é um mecanismo potente de transformação social, mas o primeiro passo para a mudança está em nós mesmos. Afinal, não precisamos de conhecimento, informação, formação e títulos para sermos honestos, caridosos, amorosos e cumprirmos o nosso papel. O poder de reorganizar a sociedade para que o futuro seja positivo para todo o mundo está, acima de tudo, nas mãos de cada um de nós. 

Originalmente publicado em: Transformação Social pelo ESG | LinkedIn

COLUNISTA

Suelma-Rosa

Suelma Rosa

[ELA/DELA]

Diretora Sênior de Reputação e Assuntos Corporativos para América Latina na Unilever e Co-fundadora e Membro do Conselho Impulsinador da Women in Government Relations. Suelma é professora da Escola Aberje de Comunicação, Doutora no Departamento de Ciência Política da Universitè Paris I: Pantheòn – Sorbonne, Mestre em Política Internacional e Comparada pela Universidade de Brasília, MBAs em Estratégia empresarial e Gestão de Projetos pela FGV, Especialista em Negociação e Gestão de Conflito pelo Harvard Negotiation Institute e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, coordenou cursos de graduação em Relações Internacionais em Brasília e leciona em programas de graduação e pós-graduação desde 2005 no Brasil e exterior. Em 20 anos de carreira, atuou no Governo Federal brasileiro na área de Comércio e Negociações Internacionais, servindo em países como China, Índia, Japão e Suíça. Liderou estratégia de advocacy de Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Meio Ambiente, Infraestrutura e Compras Públicas em ONG Internacional e nas Nações Unidas em Convenções e Tratados Internacionais, bem como nos marcos normativos nacionais de países da América Latina e Caribe.
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