O corpo é a nossa moradia. Nossa casa, nosso templo, nossa matéria. Há quem o santifique, há quem o julgue, há quem o rejeite. Mas, antes de qualquer coisa, existe algo muito simples: é preciso cuidar dele.Não falo de padrão.
Não falo de estética. Falo daquilo que sustenta a vida: respirar, beber água, alimentar-se, movimentar-se. Somos uma espécie de tecnologia orgânica que precisa de movimento para continuar funcionando. Uma engrenagem viva, que pede cuidado para não se desgastar.
Para pessoas trans, essa relação com o corpo pode ganhar outras camadas. Cada pessoa encontra sua própria maneira de expressar o gênero em si: na natureza, nos hormônios, nas roupas, nas cirurgias, nas intervenções ou simplesmente na forma como escolhe existir.
Não existe uma única maneira de habitar um corpo trans.Talvez eu esteja pensando tanto nisso esta semana porque estou, novamente, atravessando uma transformação no meu próprio corpo. Passei por um novo procedimento e, nesses dias de recuperação, tenho observado algo que me parece quase mágico: a capacidade que o corpo tem de cicatrizar, reorganizar, reconstruir.Enquanto eu descanso, existe um verdadeiro batalhão trabalhando dentro de mim.
Células que se movimentam, tecidos que se reconstituem, sistemas que silenciosamente fazem o possível para que, em algum momento, eu possa voltar à vida cotidiana.E pensar nisso é bonito.Porque dentro de cada um de nós existe um universo inteiro acontecendo sem que a gente precise comandá-lo.Somos universo e, ao mesmo tempo, parte de outro.
Nosso corpo é feito da matéria da Terra; a Terra também é um corpo vivo, que habitamos, transformamos e, muitas vezes, ferimos. E ela, por sua vez, está dentro de algo ainda maior.Tudo pulsa. Tudo se transforma. Tudo está conectado.
Talvez cuidar do corpo seja também lembrar disso: somos matéria viva em constante transformação, pequenos universos compondo um universo muito maior.E, enquanto a vida acontece lá fora, há uma vida inteira acontecendo aqui dentro.