Publicado em 1969, o clássico de Ursula K. Le Guin imagina um planeta onde não existe homem nem mulher – e se torna uma das obras mais importantes para pensar gênero, identidade e política na ficção científica
Precisamos analisar o contexto para todas as nossas dinâmicas de vida, principalmente em relação aos autores que estamos lendo. Quem escreve, escreve para um tempo: o seu tempo. Muitas de suas ideias estão limitadas ao espaço e ao tempo material em que o autor está inserido. Conheço A Mão Esquerda da Escuridão desde a minha adolescência; foi um dos livros que me fascinaram pela temática da sexualidade, é uma das obras que mais chamou a minha atenção para a ficção científica, sobretudo pelo potencial que esse gênero tem de especular sobre a política.
Ursula K. Le Guin: uma mulher entre a antropologia e a ficção científica feminista
Antes de falar da obra, quero fazer uma breve passagem pela ilustre autora responsável por parir esse clássico romance ao qual dedicarei o restante destas linhas. Podemos dizer que Ursula K. Le Guin era uma mulher de seu tempo. Filha de dois antropólogos, dedicou sua escrita a uma ficção científica baseada nas ciências humanas e, consequentemente, a uma ficção científica feminista. Ursula viveu a época das contraculturas e estava atenta aos movimentos políticos de seu tempo. Se A Mão Esquerda da Escuridão foi publicado em 1969, temos aqui a nata de seu contexto histórico.
1969: o espírito da contracultura e o incômodo de uma escritora
Em meados da década de 60, o movimento feminista estava se reerguendo em um cenário de efervescência das manifestações culturais. Um espírito rondava e assombrava o mundo moderno: o espírito da contracultura. Manifestações contra a guerra, movimentos antiarmas nucleares e o respeito pela diversidade atravessavam os debates sobre o futuro do mundo.
Ursula sentiu a onda do feminismo se formar e, por volta de 1967, sentia-se inquieta com uma questão que atravessava sua identidade: o que é ser mulher? Diferente de pensadoras, filósofas ou sociólogas, Ursula era uma escritora de ficção e, em seu desconforto ao tentar responder a essas questões, escreveu A Mão Esquerda da Escuridão. A obra não é uma utopia, uma profecia ou uma mera aventura espacial (característica das ficções científicas escritas por homens). O que a autora faz em seu romance é um experimento mental, no qual se pressupõe um mundo diferente do nosso para investigar suas consequências. Ursula não quer que o leitor aceite a premissa de que o futuro será andrógino; na verdade, ela está tentando descrever a realidade do mundo atual. A ficção científica não prevê o futuro, ela o descreve.
O experimento mental de Gethen: um mundo sem homens e mulheres
Nesse experimento mental, a autora explora um mundo sem homens e mulheres, onde os membros da sociedade compartilham as mesmas estruturas fisiológicas e constituições biológicas/emocionais. A Mão Esquerda da Escuridão se passa no universo ficcional de Hainish, onde os seres humanos teriam evoluído no planeta Hain, e não na Terra. O povo desse planeta colonizou diversos sistemas planetários sozinho, incluindo a Terra e o planeta em que se passa o livro: Gethen (ou “Inverno”, na tradução do idioma do protagonista). Como o nome indica, Gethen está sempre no inverno. O livro narra a aventura de Genly Ai, um homem terráqueo enviado em uma viagem interestelar para estabelecer uma aliança entre o Ekumen e Gethen. Se nós temos a ONU, o universo de Hainish possui o Ekumen, conhecido como a “Liga de Todos os Mundos” — uma civilização galáctica que surge da união de 83 mundos, semelhante à nossa Organização das Nações Unidas, porém em nível extraplanetário.
O que é o kemmer? A sexualidade cíclica dos gethenianos
Devido a modificações genéticas não detalhadas no livro, os habitantes de Gethen são humanos ambissexuais cujas características sexuais se manifestam uma vez por mês. Durante 24 dias do ciclo lunar específico de seu sistema, os gethenianos são andróginos, tornando-se machos ou fêmeas apenas no período chamado kemmer (equivalente ao cio dos mamíferos), quando as características sexuais afloram. Diferente de nós, humanos terráqueos com fisiologia sexual predefinida no útero, a sexualidade desse povo não é contínua; quando não estão em kemmer, são sexualmente impotentes. Quando isolado, o indivíduo na fase do kemmer permanece andrógino; somente no encontro com um parceire os genitais de ambos se desenvolvem, definindo o papel sexual de cada um. Os personagens não possuem predisposição e, independente do sexo adotado, as características surgem a partir do contexto e das relações do momento.
A fase de kemmer dura cinco dias — um período em que os desejos estão à flor da pele — e termina com o indivíduo retornando à sua forma andrógina, aguardando o reinício do ciclo. Se o getheniano que desempenhou o papel feminino engravidar, sua sexualidade se estenderá durante o estágio de gestação e lactação, permanecendo em um corpo com seios desenvolvidos e atividade hormonal contínua até o desmame. Como nenhum hábito fisiológico é fixo, a mãe que pariu muitos filhos pode, em outro ciclo, engravidar seu parceiro e se tornar pai de vários outros.
Genly Ai: um terráqueo diante do estranhamento
Nosso protagonista, Genly Ai, é enviado sozinho para o planeta glacial em uma nave que viaja à velocidade da luz, aterrissando no reino getheniano de Karhide. Gethen atravessa uma era glacial e sua organização econômica é comunitária; o período em que a história se passa equivale ao nosso feudalismo. Existem duas grandes nações em Gethen: Karhide e Orgoreyn. A primeira é governada por um rei; a segunda está se tornando um Estado-nação com poder centralizado e governo autoritário. Em Gethen, todos participam de um núcleo familiar baseado na conveniência econômica, onde os valores coletivos e comunitários se sobrepõem ao individualismo ou ao espírito egoísta típico das sociedades capitalistas urbanas.
Por que Le Guin não estava criando uma utopia
Reitero que a proposta deste livro não é uma utopia e, muito menos, um modelo a ser seguido. Ursula não quer que sejamos andróginos, até porque, de certa forma, já somos. Ela apenas imaginou um mundo sem papéis de gênero e suas consequências: a sociedade poderia ser muito diferente se fôssemos genuinamente iguais, tanto nos papéis sociais quanto na liberdade econômica. Além das funções fisiológicas, o que realmente diferencia homens e mulheres? São suas estruturas psíquicas? Seu temperamento? Suas capacidades? O gênero é realmente necessário?
A natureza não produz condições de dominação, muito menos divisões e desigualdades. Mas existe um “germe” dentro da tradição ocidental que tende ao dualismo, cristalizando a ideia de que a dominação patriarcal é legítima e natural. Nossos horizontes de imaginação são determinados pelos limites históricos postos; assim, as condições materiais de nosso tempo enclausuram nossa subjetividade e nos condicionam a pensar de certa forma.
Três ausências: guerra, exploração e sexualidade contínua
O experimento de Le Guin foi realizado a partir de fabulações baseadas em exercícios mentais (como o exemplo do Gato de Schrödinger). A partir de uma sequência de questionamentos, Ursula chega a um mundo gelado e andrógino. Desde o início, seu interesse era escrever sobre pessoas que nunca tivessem vivenciado a guerra. Seus exercícios baseavam-se em três ausências: a ausência de guerra, a ausência de exploração e a ausência de sexualidade contínua.
Os gethenianos podem ter tido experiências de violência, mas nunca invasões equiparadas às dos europeus no Novo Mundo. Suas noções de progresso não funcionam como no Ocidente, que condicionou diversos povos a uma configuração de dominação. A lógica getheniana não se baseia na extensão territorial ou na agressão a outras sociedades; a tecnologia desenvolvida por eles deu-se por um progresso lento e equilibrado, em torno da subsistência autóctone.
A lógica getheniana e o fim da dominação do masculino sobre o feminino
Em toda a história do capitalismo, os homens reservaram para si a posição de poder: criaram as leis (e as quebraram quando quiseram), as guerras e as alianças geopolíticas. A ausência da figura do homem ocidental levou Le Guin a representar Gethen como uma sociedade sem homens e mulheres e, consequentemente, o resultado foi um mundo sem a dominação do masculino sobre o feminino. A lógica bissexual não funciona nesse planeta; como os gethenianos não são “homem” nem “mulher”, é impossível para o pensamento colonial decodificar seus corpos. Todos são livres dos nossos papéis de gênero e das nossas expectativas sociais sobre os sexos.
Ursula tinha certeza de que a igualdade de gênero não acabaria com todas as mazelas do mundo, mas acreditava que a exploração das mulheres, dos povos e da terra deixaria de ser o problema central. Se vivemos em um mundo marcado pelo gênero, onde todos os aspectos das nossas vidas são atravessados por esses marcadores, nossas dinâmicas políticas também se desenvolverão a partir deles. A imaginação de um povo inserido nessa lógica tenderá a separar o mundo em dualidades, negando a interdependência com o Outro:
- fortes–fracos;
- protetor–protegida;
- dominante–submissa;
- senhor–escravizado;
- superior–inferior;
- governante–governado;
- dono–possuído;
- usuário–usado.
A proposta de A Mão Esquerda da Escuridão é nos fazer pensar em um mundo de integração e equilíbrio, distanciando-se do dualismo que nos destrói e nega a existência do próximo. O explorador busca reconhecimento através da dominação, negando a individualidade do outro para afirmar a sua própria individualidade. Manter essa estrutura de poder é essencial para os dominantes, pois, sem ela, eles não são nada. Em contrapartida, nós, sem as expectativas sociais impostas sobre nossos corpos, somos livres.
O que a crítica feminista apontou — e a autocrítica de Le Guin
Foram diversas as contribuições que Ursula deixou para nós; um livro publicado há mais de 57 anos estabeleceu um legado que se tornou referência nos estudos culturais. Críticos literários afirmam que, tanto quanto ou mais que Tolkien, Ursula K. Le Guin elevou o gênero da fantasia ao patamar da “alta literatura”, com sua obra figurando constantemente em listas de melhores romances de ficção científica de todos os tempos. A autora foi extremamente receptiva às críticas feministas sobre a obra e admitiu que falhou em algumas representações de seus personagens andróginos, que pareciam pender mais para o masculino do que para o feminino. Ela responde a esses questionamentos em seu ensaio “Is Gender Necessary?”.
Como mencionei anteriormente, os limites históricos do nosso tempo restringem as nossas percepções, pois certas ideias ainda não estão disponíveis para nós. É necessário tempo para que possamos acessar as ideias que nos libertem das noções que enclausuram nossa subjetividade.
A Mão Esquerda da Escuridão 57 anos depois: o que o livro ainda ensina sobre gênero e liberdade
O que constantemente trago para a discussão em meus textos é que as ficções nos proporcionam experiências e sensações a partir da fabulação de outros mundos. Elas têm a capacidade de não apenas representar a realidade, mas de questioná-la, multiplicando nossas possibilidades e alternativas através do engajamento imaginário para manter a esperança e resistir aos sistemas de dominação em que estamos inseridos.