COLUNA

AKIRA LIMA

[ela/dela]

Akira Lima, fonoaudióloga e mestranda, pesquisa voz e comunicação de pessoas trans.

Voz é pop, é identidade, voz é luta!

Representatividade LGBTQIAP+ no mês da voz

A voz pode ser definida como uma expressão sonora individual, essencial para a interação social e a exteriorização de pensamentos e sentimentos (Belau & Pontes, 2001). Ela tem grande importância para nossa vida e comunicação: é única e expressa a nossa identidade enquanto indivíduos. Aproveitando que abril é o mês da voz, gostaria de discorrer e enaltecer vozes que fazem grande diferença para a população LGBTQIAPN+.

Já ouvi, certa vez, que o mundo é pop. Não sei o quanto concordo com essa afirmação, mas ela pode ser um ponto de partida para a nossa conversa de hoje. O pop sempre esteve muito presente na minha vida enquanto pessoa LGBTQIAPN+. Acho que isso começou quando, em uma noite, vi o clipe de Alejandro, da Lady Gaga, passando na MTV pela primeira vez. Mas o pop em si não é o ponto. Mesmo reconhecendo a importância desse estilo musical, a questão é que o pop é mais do que música, eras e estética.

Essa ampliação do que é o pop surgiu para mim ao ver o primeiro edit da deputada federal Erika Hilton ao som de Alien Superstar, da Beyoncé. Erika é a primeira voz que quero enaltecer nesta coluna. Ela foi a primeira deputada federal negra e trans eleita neste país onde mais se matam pessoas trans. A voz de Erika Hilton é carregada de força, ousadia e coragem, mas também de leveza, bom humor, alegria e amor. Atualmente, vejo Erika como uma das principais vozes que lutam e representam a nossa comunidade — e não poderia estar mais feliz e honrada em enaltecer uma voz tão representativa e importante neste mês dedicado à voz.

Seguindo essa linha de pensamento sobre o pop e sendo uma travesti nordestina, quero falar sobre outra pessoa que muito me inspira. Sem mais delongas: Pabllo Vittar — drag queen, cantora e compositora brasileira, ou, na minha singela descrição, “minha diva pop favorita”. Pabllo é muito amada e aclamada e, atualmente, está em turnê comemorando seus 10 anos de carreira, fazendo diferença na vida de milhões de pessoas. Sua voz transmite alegria, é cheia de vida e contagia todos que a ouvem. Seu trabalho, suas músicas e suas conquistas são extremamente representativos. A voz de Pabllo carrega uma identidade única, repleta de vida, representatividade e orgulho de suas raízes — uma voz que ocupa novos espaços e nos convida a ocupá-los junto com ela.

Encaminhando-me para o final, não poderia deixar de citar a mulher cuja voz mais me emocionou ao ouvir pessoalmente. Lembro de uma entrevista em que Johnny Hooker disse que assistir à Liniker ao vivo era como vê-la flutuar. E isso é curioso, pois, ao assistir a um show de Liniker em 2023, não só comprovei essa afirmação como fui completamente arrebatada por sua voz e performance. Liniker — cantora, compositora e atriz — dona de múltiplos prêmios, tem uma voz que transmite paz e carinho indescritíveis, além, é claro, de força e uma sensualidade marcante. Posso afirmar, pessoalmente, que Liniker é um dos maiores presentes que já recebemos. Sua voz e seu talento, que ela compartilha de forma tão generosa, fazem do mundo um lugar melhor.

Poderia escrever muito mais sobre várias outras pessoas, mas quero encaminhar essa coluna para o fim com uma mensagem importante. A voz tem um papel fundamental na nossa comunicação, além de expressar quem somos e como nos sentimos. Por isso, precisamos cuidar dela com carinho. Se você sentir rouquidão por mais de 15 dias, procure um médico otorrinolaringologista e um fonoaudiólogo. Cuide da sua voz, seja amigo dela. Afinal, a voz é pop, é identidade, a voz é luta.

COLUNISTA

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AKIRA LIMA

[ela/dela]

Akira Lima é fonoaudióloga e pesquisadora na área de voz e comunicação, com atuação voltada para o cuidado fonoaudiológico de pessoas trans, travestis e não binárias. Desde a graduação, integra o projeto Transvox, iniciativa dedicada à promoção da harmonização vocal para pessoas transtravestigêneres, contribuindo para a construção de práticas clínicas e científicas voltadas à diversidade de gênero na fonoaudiologia. Atualmente, é mestranda do Programa Associado de Pós-Graduação em Fonoaudiologia (PPGFON), onde dá continuidade às investigações iniciadas durante a graduação sobre voz, identidade e comunicação na população LGBTQIAPN+, com ênfase nas experiências vocais de pessoas trans, travestis e não binárias. Sua atuação articula pesquisa, prática clínica e compromisso com uma fonoaudiologia ética, inclusiva e socialmente comprometida.
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