Kaya Conky fala sobre Maria Boa, álbum que homenageia figura histórica de Natal, a saudade de casa, a vulnerabilidade e a identidade potiguar.
Conheci Kaya através da minha irmã em 2017, quando “E, aí, Bebê?” foi lançada. A canção era produto do seu tempo: dava pra resumir a tensão política brasileira daquele momento numa frase só, “Primeiramente, Fora Temer!”, e Kaya fez isso soar como funk de festa.
Os anos passaram e a incerteza política no mundo inteiro já não cabe mais em uma frase. Ela construiu uma carreira no pop/funk brasileiro e em 2023 lançou o Sextape, estreia que traduzia bem tudo que ela tinha construído nos singles e EPs anteriores. Com Maria Boa, vai mais fundo.
Quem foi Maria Boa?

O título refere-se ao cabaré que ficava no Centro Histórico de Natal, espaço hoje largado pela gestão pública enquanto agentes de especulação imobiliária aguardam a oportunidade de privatizá-lo. Kaya finca raízes num lugar da cidade que o poder público trata como resto.
Maria Boa foi uma mulher que fez do prazer uma arte. Numa Natal pequena e conservadora, ela construiu um cabaré onde música, dança e performance tinham tanto peso quanto tudo o mais que acontecia ali. Um espaço onde a expressão artística e o desejo conviviam sem precisar justificar um ao outro.
Que esse lugar tenha sido erguido por uma mulher jovem, vinda de fora, que chegou sem nome e saiu como a figura mais conhecida da cidade, diz muito sobre o que Natal guarda sem contar.
Kaya Conky e a saudade de Natal
“Eu Tô Certa?” é a faixa mais natalense do disco. Você cita a praia, sua família, o lugar que te criou. Sendo eu também daqui, sei que a saudade de Natal tem um peso específico pra quem saiu. A personagem de Maria Boa, essa dona de cabaré histórica da cidade, tem alguma coisa dessa tensão entre partir e pertencer?
Kaya Conky: Muito! A Maria Boa, ainda jovem, foi expulsa de casa pelo pai por ter se relacionado com um rapaz que não quis a pedir em casamento, e precisou viver longe da sua cidade e da sua família desde então. Encontrou em Natal uma possibilidade de recomeço e fez desse seu maior legado. Mas essa sensação de realização por estar onde está, misturado com uma saudade de casa por anos que não foram vividos e nem voltam mais, é um sentimento que, para além dos recortes de cada situação, muda a forma de olhar e sentir muitas coisas. Eu acredito que esse seja um dos maiores pontos de encontro desses dois mundos.
Kaya encontrou na figura de Maria Boa uma forma de expressar o que é fazer a vida acontecer longe de casa. Saiu de Natal para São Paulo, mas o que a diferencia no pop brasileiro é a capacidade de carregar as raízes sem precisar anunciá-las. Às vezes isso aparece discreto, às vezes explode como em Acaso e Eu Tô Certa?
Maria Boa, o álbum: faixa a faixa
Maria Boa começa dominando, seduzindo, caçando. E vai mudando de tom até chegar em Acaso e Eu Tô Certa?, que são faixas de quem parou pra se olhar de dentro. Essa progressão foi intencional ou você só percebeu quando o disco estava pronto?
Kaya Conky: Isso era exatamente o que eu queria fazer, desde o início. Mas o processo de ir construindo essas músicas e esse álbum em si, foi só acontecendo. Então lá mais do meio pro fim, quando eu tava com as faixas mais encaminhadas, foi quando começou a ficar mais claro pra mim o caminho que elas tavam fazendo dentro do álbum e como tinha sido gradual essas mudanças de sensações dentro da linha narrativa. Eu comecei a produzir o álbum pensando “Quero trazer mais de mim e do que eu tô sentindo agora pra esse material” e ao terminar e ver tudo pronto, foi quando eu olhei e percebi de forma mais clara o que eu tava vivendo e sentindo naquele momento. Antes era meio nebuloso até pra mim. Fazer esse álbum me ajudou a me entender melhor.
O disco abre com quatro faixas que estabelecem quem manda. Em Arquétipo, Kaya sabe o que quer e dita as condições. Em Perfume, divide o espaço com Urias e as duas chegam ao mesmo lugar. Festa da Carne abre o camarim para LUAA Florah, WES, Murillo Zyess e Laryssa Leal, cada um com seu próprio registro, sem que nenhum apague o outro.
Em Gol, MC Priguissa aparece como uma das adições mais acertadas do disco. Priguissa foi popular em Natal na década passada de um jeito que quem não é daqui não percebe de imediato, centenas de garotas que fizeram o curso de Direito na UFRN foram impactadas pela música honônima, e trazê-lo aqui é uma escolha que fala sobre pertencimento antes de qualquer coisa.
Leoa e Potyguara em Decanato funcionam da mesma forma: dois nomes que marcaram a juventude potiguar colocados na faixa em que Kaya fecha um ciclo e segue. Essas parcerias dizem de onde o disco veio antes mesmo de qualquer letra dizer.
O que muda em Maria Boa em relação ao Sextape
Se as quatro primeiras faixas constroem uma pessoa que sabe o que quer, O Que É Seu Tá Aqui Guardado é onde ela para e negocia. Não abre mão de nada, só deixa claro que tem condições. Decanato fecha o ciclo: ela vai, fica o rastro do perfume. E então a voz da mãe como interlúdio. Trinta segundos de áudio que desfazem qualquer armadura que ainda restava.
A galera que cresceu ouvindo você em 2017 via uma Kaya muito no controle. Esse disco mostra um lado seu que muita gente talvez não tenha tido contato. Foi difícil mostrar esse lado mais introspectivo?
Kaya Conky: Foi um pouco difícil achar um espaço dentro de mim que me permitisse criar algo fora do que eu já vinha extremamente acostumada a criar. Por mais que fossem sentimentos e ideias muito pertinentes, transformar elas em músicas era algo que eu nunca tinha praticado nem pensado muito sobre. Mas depois que eu abri essa porta, acabou se tornando bem fluido e gostoso.
Acaso e Eu Tô Certa? as faixas mais pessoais do disco
Em “Acaso”, Kaya se aventura por um house produzido por Tinoc com as vozes do Taj Ma House como acompanhamento, parceria que sintetiza o que tem acontecido na cena eletrônica natalense.
Quem já curtiu um set de house do Pajux na Rua Chile reconhece o frisson na hora. Na letra, ela descreve alguém que se enxerga com clareza de fora mas perde o fio quando olha de dentro. “Entendo nada e desaprendo a ler”, canta, num disco que até ali foi construído por alguém que sempre soube exatamente o que queria.
“Eu Tô Certa?” chega sem resolver nada, e faz isso de propósito. Produzida pelo S4TAN, mostra que Kaya não se limita às sonoridades de casa: sai do Clube Frisson na Rua Chile e vai direto pra Zig em São Paulo. Na letra, coloca na balança a praia, a família, a libertinagem, o filhote que talvez queira ter um dia, os homens frios que moldaram quem ela é. Não chega a uma conclusão porque a conclusão não é o ponto.
Em “Eu Tô Certa?” você canta sobre saudade da praia, da família, do lugar que te criou, mas também sobre libertinagem, sobre não saber se quer ficar ou partir. Essa tensão é o estado permanente de quem saiu de Natal pra fazer carreira ou teve um momento específico que disparou tudo isso?
Kaya Conky: Sim. Mas também é muito sobre isso de chegar em um momento da vida adulta independente, onde muitas coisas não estão claras e não parecem tão certas/exatas, e todo o aglomerado de pensamentos e sensações que estar nesse momento proporciona, haha. A dúvida movimenta, mesmo sem resposta. Essa constatação e as reflexões que vem dela é algo que tá sempre no meu radar de pensamentos, e “Eu Tô Certa?” é uma faixa que traduz muito como isso acontece na minha cabeça.
Por que Maria Boa deve ser apreciado
Em Maria Boa, Kaya não se limitou à referência histórica do título. Ela fez Natal presente em toda a tracklist, mesmo nas faixas que não falam da cidade diretamente. O que aparece aqui é o que falta em boa parte do pop brasileiro: identidade.
Você sempre foi pop em Natal antes de ser pop em qualquer outro lugar. No Contemporâneo, em 2017/2018, a galera passava horas falando de E, aí, Bebê e Cadê o Loló. Era sucesso de escola mesmo, daquele que tocava e todo mundo sabia a letra. Então pra quem viveu isso e chegou agora em Maria Boa, o que você acha que essa pessoa vai reconhecer de você e o que vai pegar ela de surpresa?
Kaya Conky: Eu acho que tem algo na minha forma de escolher e juntar as palavras que me acompanha desde o meu início na música. Sinto que ainda tenho um pouco disso, e talvez quem tá aqui desde 2017 perceba. Mas esse lugar de trazer a ansiedade e a vulnerabilidade como pauta é algo que tá sendo novo pro público, e felizmente tem empolgado as pessoas. Tô amando os feedbacks!
Natal pode parecer limitante para quem trabalha com cultura e criatividade. A cidade tem a Câmara de Vereadores mais conservadora entre as capitais do Nordeste e um estado que há décadas divide o poder entre três famílias, Maia, Alves e Rosado, que controlam política e comunicação com a mesma naturalidade. Sei disso como colunista e como pessoa que cresceu aqui. Mas é a cidade que nos moldou, e Kaya consegue olhar para ela com um carinho que provavelmente não tinha quando saiu. Dá pra ver isso no disco, é alguém que foi longe o suficiente pra entender o que deixou.